Mundo ficciónIniciar sesiónEle me encara mais um momento, como se tentasse decifrar algo, então, abrindo um breve sorriso, balança a cabeça assentindo e se retira apenas para pegar algumas coisas, voltando momentos depois, parecendo ainda mais animado.
Ele vai ficar ali? Nas últimas vezes, ele ia para o outro lado do balcão para fazer as bebidas e depois voltava só para entregar e sair de novo. Será que ele estava fazendo isso porque achava que Mady continuaria cantando-o e preferiu evitar o constrangimento?
Aproveito para vê-lo trabalhar. Ele realmente sabia o que estava fazendo; seus movimentos eram de um barman com muita experiência.
Primeiro, ele pegou a coqueteleira de metal com uma mão só, em um movimento rápido e casual. Ouvi o som cristalino do gelo caindo no copo de mistura, um estalo seco que cortou o som da música para mim.
Então, começou a coreografia. Lucian segurava as garrafas pelo gargalo com uma agilidade impressionante. Ele não media o líquido com pressa; vertia o fluxo contínuo — o destilado transparente, depois o licor cítrico e os outros ingredientes — com uma precisão matemática, parando no momento exato, sem desperdiçar uma única gota. Seus dedos eram longos e firmes, movendo-se entre as garrafas e os utensílios com uma memória muscular que me deixou fascinada.
Ele fechou a coqueteleira. O som do metal se encaixando foi o sinal. Ele começou a agitar o drink. Mas não era um movimento desajeitado; era rítmico, forte. Eu conseguia ver a tensão nos músculos dos seus antebraços, onde as mangas da camisa branca estavam dobradas. O tecido repuxava levemente a cada movimento vigoroso, e o gelo batendo contra o metal criava um ritmo próprio. Ele mantinha o olhar focado, uma concentração profunda que o isolava de todo o caos da festa ao redor.
Por um segundo, ele pareceu esquecer que era um barman e eu esqueci que era uma cliente. Com um movimento final, ele separou as partes da coqueteleira. Um vapor frio escapou do metal, e ele posicionou uma peneira delicada sobre o copo. O líquido cor de chá escorreu como seda, preenchendo o vidro até a borda perfeita. Para finalizar, ele pegou uma fatia de limão, decorando o copo com um movimento rápido. Ele deslizou o copo pelo balcão até parar exatamente na minha frente, sem hesitação.
Lucian voltou o olhar para mim, a intensidade verde de seus olhos brilhando sob as lentes dos óculos, e aquele sorriso de canto de boca retornou.
— Espero que goste — ele diz, inclinando-se sobre o balcão, ficando próximo demais do meu rosto. Dava para notar sua voz rouca de alguma emoção muito bem escondida por trás da música alta e seu olhar enigmático.
Aquele olhar me deixou completamente sem fôlego, mas não desviei o olhar. Apenas abri um sorriso conspiratório e disfarcei o nervosismo ao segurar o copo. Levanto-o levemente, como se brindasse a algo, e o levo à boca.
Para me arrepender logo depois.
O líquido desceu queimando pela minha garganta, me fazendo tossir algumas vezes; eu não estava pronta para aquilo. Lucian solta uma risadinha e balança a cabeça.
— Quando você perguntou sobre a Coca-Cola, eu achei que teria gosto de refrigerante! — digo, tentando parecer irritada, mas não tinha certeza se era raiva o que eu estava sentindo.
— Você pediu algo forte — ele tentou se justificar usando minhas próprias palavras contra mim. — Eu nunca disse que teria um gosto bom.
Nos encaramos por alguns segundos antes de começarmos a rir um do outro, como se fôssemos velhos amigos. Balanço a cabeça e limpo a boca, procurando ver se sujei alguma coisa enquanto tossia. Balancei o copo e acabou caindo um pouco no meu vestido e no balcão.
Resmungo, choramingando um pouco, enquanto Lucian se inclina com o pano e pega o copo.
— Não precisa ficar assim, eu vou fazer algo mais fraco — ele diz, já segurando o copo, mas o interrompo, segurando seu pulso.
— Ei, quem disse que quero algo mais fraco? Este está ótimo — eu digo, encarando-o. Tive que me segurar para não implorar para que deixasse o copo ali; aquele copo podia me ajudar a não voltar para os pensamentos que estavam tentando me vencer.
Lucian me encara por um momento, surpreso, e então algo em seu rosto mudou. Ele colocou o copo de volta ao balcão de mármore, desistindo de levá-lo embora.
— Dia difícil? — ele perguntou, tentando parecer um interesse casual de momento.
Suspiro e seguro o copo, pela primeira vez desviando o olhar, impossível de aguentar aquela análise tão intensa, com medo de que ele pudesse ver o quanto eu estou destruída por dentro.
— Mês difícil — resmungo e então tomo mais um gole daquela bebida forte, torcendo para que ela levasse embora aquela sensação que estava querendo subir por minha garganta.
— Entendo — ele diz, mas não tenho certeza se ele entendeu de verdade. — Bom, então, como fui designado a servi-la esta noite, me peça tudo, e eu farei.
Quando levantei o olhar, ele está encostado no balcão atrás dele, onde ficam as prateleiras cheias de várias bebidas caras, com as mãos apoiadas no balcão, como se estivesse se segurando, me encarando com um misto de humor e seriedade — e algo mais que eu não conseguia decifrar através dos óculos.
— Agradeço — levanto novamente o copo em um brinde solo, tomo mais um gole e me encosto no banco.







