capítulo 4

Daniel sustentou o olhar de Alana por um segundo eterno, mas sua voz saiu carregada de uma indiferença gélida:

— Não a conheço.

As palavras foram como um golpe físico, fazendo o ar fugir dos pulmões de Alana. Ele não apenas se recusava a dar a ela uma saída digna; ele a descartava como um estranho qualquer. A aura gélida que emanava dele parecia congelar o ambiente. Ouvir um "não a conheço" do homem por quem ela abdicou de seus sonhos despedaçou o que restava de seu coração.

Alana mordeu o lábio com força, lutando para não desmoronar. Ela sabia que, naquele ambiente de elite, qualquer cena ou escândalo destruiria a reputação do restaurante de Suzi. Com as pontas dos dedos brancas de tanto apertar a seda do vestido, ela respirou fundo e caminhou em direção ao piano da sala privativa.

O pedido era a clássica "Canon em Ré Maior", uma peça que simboliza a pureza da admiração e a constância do amor. Alana fixou os olhos na partitura por um longo tempo, sentindo a ironia amarga da escolha. Enquanto suas mãos começavam a flutuar sobre as teclas, a conversa à mesa continuava, alheia ao seu tormento.

— Presidente Daniel, o senhor tem muita sorte de ter uma mulher como a Vice-Presidente Mariela ao seu lado! — provocou o investidor estrangeiro, impressionado.

— De fato, ela é excepcional — Daniel respondeu, com um sorriso raro e elogios que nunca haviam cruzado seus lábios para Alana.

Mariela sorriu com uma elegância estudada.

— Eu não era tão brilhante quando comecei. Foi o Daniel quem me treinou pessoalmente, passo a passo.

A melodia suave não era suficiente para abafar o diálogo. Alana tocava as notas de cor, e seu olhar, involuntariamente, recaiu sobre a mesa. Daniel estava inclinado na direção de Mariela, com o braço apoiado casualmente no encosto da cadeira dela. Eles trocavam termos técnicos em inglês fluente e sussurros cúmplices. Pareciam falar uma língua própria, onde um simples olhar bastava para uma compreensão total.

Cinco minutos pareceram uma eternidade de tortura. Quando a peça terminou, o estrangeiro concluiu com entusiasmo:

— Vocês dois formam um casal perfeito!

Ao ouvir a palavra "casal", Daniel franziu a testa por um milésimo de segundo, mas não corrigiu o erro. Mariela apenas manteve o sorriso enigmático:

— Sr. Rocco, o senhor me lisonjeia.

Alana desviou o rosto. Daniel não voltou a olhá-la; talvez estivesse envergonhado por ela estar ali, ou talvez temesse que, ao reconhecê-la, o mundo soubesse que sua esposa era "apenas" uma musicista servindo entretenimento para a classe alta.

Enquanto Alana hesitava em se levantar, Mariela caminhou até ela. Abrindo a carteira de grife, ela retirou um maço de notas — pelo menos mil  — e o estendeu com uma condescendência cortante.

— Você tocou muito bem — disse Mariela, em um tom baixo que apenas as duas podiam ouvir.

— Considere isso uma gorjeta minha e do meu namorado.

— "Namorado"... "Gorjeta".

As palavras de Mariela ecoaram como insultos deliberados. Alana sentiu uma pontada aguda no peito ao notar o brilho de triunfo nos olhos da outra mulher. Naquele instante, tudo ficou claro: o vídeo anônimo, a presença dela ali, a provocação... Mariela não queria apenas o lugar de Alana; ela queria saborear a destruição dela.

Alana abriu a boca para reagir, mas a voz ríspida de Daniel a cortou como uma chicotada:

— Você ainda não foi embora? O que está esperando?

O olhar dele era puro aviso. Para Daniel, se Alana fosse sensata, estaria em casa, de joelhos, implorando perdão por sua "rebeldia", e não ali, estragando seu jantar de negócios. Alana respirou fundo, pegou as notas de dinheiro da mão de Mariela com uma calma gélida e se retirou. Se a força de Mariela vinha da proteção de Daniel, Alana sabia que não venceria aquele embate agora. Era melhor aceitar o "pagamento" do que prolongar a própria humilhação.

Ela tocou até as dez da noite, deixando sua alma fluir pelas teclas até que os dedos doessem. Ao sair do restaurante, o vento de outono a recebeu com um abraço gelado. Enquanto esperava por Suzi, sentiu o cheiro familiar de tabaco. Daniel aproximou-se por trás, acendendo um cigarro com movimentos lentos e aristocráticos.

— Não volte a lugares como este para tentar me cercar — disse ele, sem olhar para ela. — Se tem algo a dizer, vá para casa e espere por mim.

Alana olhou de soslaio para o homem que ela amou por dois anos. Quanto mais ela "acordava", mais nítida — e dolorosa — era a imagem daquele estranho arrogante.

— Você entendeu errado, Daniel. Não estou aqui por você. Estou ajudando a Suzi.

— Você é realmente teimosa — o olhar dele tornou-se sinistro sob a luz dos postes. — Não importa a desculpa, você está proibida de vir aqui. Não me envergonhe na frente dos meus parceiros.

— Somos casados em segredo, lembra? Ninguém sabe que sou sua esposa — rebateu Alana, com um sorriso amargo. — Se a minha presença te incomoda tanto, basta assinarmos o divórcio amanhã mesmo.

Daniel soltou uma risada curta e sarcástica, expelindo a fumaça do cigarro.

— Tentando se fazer de difícil para me atrair? Não vou cair nesse joguinho, Alana. Você vai se arrepender dessa encenação quando o dinheiro acabar.

Nesse momento, o Sr. Rocco apareceu na calçada. Instantaneamente, a expressão de Daniel mudou para um sorriso profissional e magnético.

— Foi um prazer, Sr. Rocco. Fique mais alguns dias em Acrópole; a Mariela terá prazer em lhe mostrar a cidade.

O investidor riu, lançando um olhar cúmplice para Daniel.

— Eu não ousaria competir com o Presidente pela atenção dela. Ela é toda sua!

Mariela encostou o carro logo em seguida. Daniel inclinou-se em direção a ela, passando o braço pela sua cintura em um gesto possessivo e protetor, murmurando para que ela dirigisse com cuidado. 

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