Capítulo 3

 

Suzi não era apenas uma herdeira; ela administrava com mão de ferro vários restaurantes sofisticados da família Grost, onde a música ao vivo era o coração da experiência. Sabendo que Alana estudava piano desde o berço e possuía técnica de nível profissional, o convite não era apenas um favor, mas uma estratégia de resgate emocional.

Alana entendeu o gesto. Ter as mãos ocupadas com as teclas pretas e brancas era melhor do que deixar a mente divagar pelo abismo do próprio casamento.

— Certo — aceitou ela, com a voz ainda contida.

— Então, trate de recuperar o sono perdido — recomendou Suzi, já pegando as chaves para sair. — Vá direto para a unidade do Distrito Leste esta tarde. Estou atolada de reuniões e não conseguirei te buscar, tudo bem?

— Vá tranquila. Cuide dos seus afazeres — Alana sorriu fracamente.

A amizade com Suzi vinha do jardim de infância. Mesmo quando a fortuna da família de Alana começou a minguar, Suzi permaneceu ao seu lado como uma rocha. Ali, ela não precisava de máscaras.

Assim que a porta se fechou, Alana respirou fundo e discou o número de Freitas, o assistente pessoal de Daniel.

— Senhora? A senhora está brincando, não é? — Freitas gaguejou do outro lado da linha, atônito com o pedido. — Por que não espera o presidente chegar em casa à noite para resolverem isso com calma?

— Quero marcar a data para a assinatura do divórcio — Alana foi sucinta, cortando as formalidades.

— O CEO está com a agenda lotada esta semana, senhora! — Freitas exclamou, tentando ganhar tempo. — Vou verificar a programação assim que chegar à empresa e retorno para você.

Freitas não ousaria tomar uma decisão dessas sozinho. Assim que desligou, reportou imediatamente a ligação a Daniel. Ao saber que a esposa estava realmente levando adiante a ameaça, o nariz de Alana ardeu e seus olhos se encheram de lágrimas. Ela inclinou a cabeça para trás, forçando o choro a recuar.

— Então, que seja na semana que vem — murmurou Alana para si mesma, apertando a barra da blusa com força e forçando um sorriso amargo.

No escritório da presidência, Daniel recebeu a notícia com um misto de fúria e deboche. Em vez de ver Alana voltar para casa arrependida, ele a viu agendando o próprio fim através de um subordinado. Percebendo a tensão no rosto do chefe, Freitas sugeriu cautelosamente:

— Posso inventar uma desculpa para adiar, senhor...

— Não precisa! — Os lábios de Daniel se curvaram em um sorriso zombeteiro e sarcástico. — Marque para daqui a uma semana!

Para ele, adiar o encontro pareceria que ele estava relutante em se separar. Daniel estava convicto: em três dias, a realidade da vida sem luxo bateria à porta e ela voltaria implorando perdão. O peito dele ardia de raiva, uma indignação que quase o fazia rir. "Você é tão ignorante, Alana", pensou ele.

Segundos depois, a mensagem de Freitas chegou ao celular dela: "Quarta-feira que vem, às nove horas, na entrada do Cartório."

Alana estava exausta, mas o sono era um privilégio que ela não conseguia alcançar. Ao ler a mensagem, a última réstia de esperança — aquela vozinha tola que dizia que Daniel poderia lutar por ela — se apagou por completo. Ela não tolerava traição, e Daniel claramente não tolerava ser questionado.

Ao cair da noite, Alana enterrou suas emoções sob uma camada de maquiagem leve e seguiu para o restaurante no Distrito Leste. Suzi já a esperava na entrada, com um olhar de culpa.

— Eu esqueci completamente que você está sem carro... — lamentou a amiga.

— Está tudo bem, Suzi. Eu me viro — respondeu Alana, com uma calma que não sentia.

Minutos depois, Alana ressurgiu vestindo um longo vestido bordô, uma peça sofisticada que destacava sua silhueta, embora a maquiagem não conseguisse esconder totalmente a palidez de seu rosto. Ela caminhou até o piano de cauda importado no centro do salão luxuoso. Após um suspiro profundo, suas mãos delicadas tocaram as teclas, e uma melodia suave começou a flutuar pelo ambiente, hipnotizando os clientes.

No camarote VIP do segundo andar, uma figura aristocrática inclinou-se para observar a origem do som. Cinco minutos depois, assim que a peça terminou, um garçom aproximou-se de Alana com um recado:

— Senhorita, um cavalheiro no camarote VIP solicita que a senhora suba para tocar uma canção de declaração de amor para a mesa dele.

Sem imaginar quem encontraria, Alana segurou a barra do vestido e subiu as escadas. Quando a porta da sala privativa se abriu, a luz âmbar do recinto revelou uma cena que fez seu sangue congelar.

À mesa, entre taças de vinho caro, estava Daniel. Ele vestia um terno preto impecável, exalando uma aura de poder e nobreza que sempre a intimidara. Ao lado dele, Mariela exibia uma elegância corporativa em um terno branco, com seus cabelos ondulados caindo perfeitamente sobre os ombros. À frente deles, um investidor estrangeiro de meia-idade acompanhava a reunião de negócios.

O coração de Alana estremeceu. Os olhos de Daniel se estreitaram imediatamente. Ele sempre soube que a esposa era bonita, mas raramente a via produzida daquela forma; nos últimos dois anos, ela era apenas a mulher de roupas casuais que o esperava em casa. Um brilho de espanto cruzou o olhar dele, seguido rapidamente por um sorriso irônico. Para Daniel, aquilo não era coincidência: ele estava convencido de que Alana conseguira sua localização através de Freitas e montara aquele "espetáculo" para chamar sua atenção.

— Sr. Daniel, o senhor a conhece? — perguntou o estrangeiro em inglês, notando o silêncio tenso e o olhar fixo do CEO sobre a pianista.

Daniel recostou-se na cadeira, girando a taça de vinho com uma lentidão torturante. Ele não desviou os olhos de Alana, mas sua resposta veio em um inglês perfeito e cruel, direcionado ao investidor:

"Conhecê-la? Digamos que ela é apenas alguém que não sabe a hora de parar de atuar. Mas já que ela está aqui para 'trabalhar', por que não deixamos que ela toque a música que você pediu? Afinal, ela é paga para isso."

Mariela soltou um riso discreto, observando Alana com uma mistura de pena e triunfo. Alana sentiu o peso do piano imaginário esmagando seus ombros. Ela tinha duas escolhas: dar as costas e confirmar a "histeria" que Daniel pregava, ou sentar-se e tocar a canção de amor para o homem que acabara de destruir seu coração.

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