Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlana estava preparada para enfrentar o ceticismo de quem está fora do mercado, mas a rejeição que encontrou foi baseada em preconceitos que ela não podia controlar. Se o seu estado civil era um problema tão grave, por que se deram ao trabalho de chamá-la?
— A empresa tem regras rígidas de recrutamento — explicou o entrevistador, com um tom mecânico. — Você é casada, mas não tem filhos. Isso significa que, assim que começar, pode entrar em licença-maternidade. Não contratamos pessoas para ficarem ociosas.
Antes que Alana pudesse protestar, ele fez um gesto para que ela fosse retirada. O que ela pensou ser apenas má sorte repetiu-se na segunda e na terceira empresa. Na quarta e na quinta, a recepção sequer permitiu que ela subisse: "Quadro completo", diziam, sem sequer olhar para o seu currículo premiado. Em poucas horas, a euforia da liberdade transformou-se no peso amargo da derrota.
Ao voltar para o apartamento de Suzi, encontrou a amiga com um bolo de chocolate e um sorriso radiante.
— Um brinde ao início da carreira da grande estilista Alana! Que o Daniel se arrependa amargamente de cada segundo!
Alana parou na entrada, ainda segurando os sapatos, sentindo o nó na garganta apertar.
— Você desperdiçou dinheiro, Suzi... Eu não fui contratada em lugar nenhum.
— Como isso é possível? — Suzi exclamou, indignada. — Você tem formação de prestígio e prêmios internacionais!
— Talvez seja apenas uma maré de azar. Tenho mais duas entrevistas na segunda: na Totws e na Lancell — explicou Alana, embora a comparação silenciosa com o sucesso de Mariela, já consolidada como vice-presidente, a fizesse se sentir pequena.
Naquela noite, movida pela lealdade, Suzi ligou para o irmão, Fábio, que estava no exterior.
— Irmão, preciso de um favor! Alana tem entrevistas na segunda. Você conhece os donos da Totws ou da Lancell?
— Suzi, são três da manhã aqui — respondeu Fábio, com sua voz calma e refinada. — A Alana quer trabalhar? O Daniel concorda com isso?
— Não mencione aquele canalha! Ela quer o divórcio — rebateu Suzi.
— Divórcio? Entendo... — ponderou Fábio, antes de desligar com um tom pensativo.
Enquanto isso, na mansão silenciosa, Daniel percebia que o silêncio de Alana não era um blefe. O estresse começou a vazar para o seu trabalho. Em um momento de vulnerabilidade rara, ele ligou para o pai, Sebastian Craig.
— Estou sobrecarregado, pai. Gostaria de tomar um pouco daquela sua sopa — disse ele, tentando esconder o desconforto.
Sebastian estranhou o pedido.
— Você não dizia que só bebia a sopa que a Alana preparava?
O silêncio de Daniel confirmou as suspeitas do pai. Percebendo o conflito, Sebastian decidiu intervir, oferecendo uma "ponte" para que o filho não precisasse admitir o erro. Na manhã de sábado, Alana foi acordada por uma ligação do sogro.
— Alana, querida, estou aqui na porta da sua casa. Preparei uma sopa para você e para o Daniel. Desçam para pegar.
Alana deu um pulo da cama, o coração acelerado.
— Pai? Por que o senhor veio pessoalmente?
— Sua mãe e eu temos um coquetel hoje e a vovó não estará na cidade, então o jantar de família foi cancelado. Achei melhor trazer a sopa para vocês pessoalmente.
Alana olhou para Suzi, que ainda dormia, e percebeu o tamanho da confusão. Sebastian estava na porta da mansão onde ela não morava mais, esperando que ela e Daniel descessem como um casal feliz. Se ela não aparecesse, a separação se tornaria pública para a família de uma forma explosiva.
Desesperada, ela ligou para Daniel. Ele atendeu no primeiro toque, a voz carregada de uma satisfação arrogante:
"Parece que o destino deu um jeito de te trazer de volta para casa antes do esperado, Alana. O meu pai está esperando. Você tem quinze minutos para chegar aqui e fingir que ainda somos o casal perfeito, ou prefere explicar para ele que trocou o luxo da família Craig por um sofá e avida de solteira?"
Alana sustentou a mentira pelo telefone, alegando que havia saído cedo para resolver pendências, tudo para não revelar ao sogro que o "lar" que eles construíram já não passava de uma casca vazia. Sebastian era o oposto absoluto do filho: um homem de uma gentileza refinada, cuja bondade sempre foi o porto seguro de Alana naquela família.
— Alana, querida, deixei também um documento importante junto com a sopa. Por favor, entregue-o pessoalmente no Grupo para o Daniel. E lembrem-se: sejam tolerantes um com o outro — aconselhou o sogro, com a voz carregada de uma esperança que doía ouvir.
A garganta de Alana apertou. O último lugar no mundo onde ela desejava estar era no escritório de Daniel, arriscando-se a presenciar novamente a cumplicidade dele com Mariela. Mas a gratidão que sentia por Sebastian falava mais alto.
— Eu entendo, pai. Fique tranquilo, entregarei tudo na empresa — respondeu ela, forçando uma nota de normalidade.
Ela pegou um táxi e passou rapidamente pela mansão apenas para recolher a garrafa térmica e os papéis deixados no portão. Ao vê-la segurando a marmita com cuidado, o motorista do táxi puxou conversa:
— Indo levar o almoço para o patrão, moça? Você é a babá da família?
— Algo assim — respondeu Alana, com um sorriso autodepreciativo que escondia uma ferida aberta.
Pela janela do táxi, ela avistou seu antigo carro estacionado no quintal da mansão, já acumulando uma fina camada de poeira. Daniel preferia ver o veículo apodrecer ao relento a permitir que ela o levasse. Naquele momento, Alana pensou que, talvez, sua posição naquele casamento fosse inferior à de uma funcionária; uma babá, pelo menos, recebia um salário e respeito pelo seu trabalho.
Em poucos minutos, o táxi parou diante do imponente arranha-céu de vidro do Grupo. Alana respirou fundo, segurando a garrafa térmica como se fosse um escudo, e caminhou em direção à entrada monumental. Ela não estava ali como a esposa do CEO, mas como uma mensageira de uma paz que ela mesma já não acreditava ser possível.







