Capítulo 7

O edifício do Grupo  era uma fortaleza de vidro e aço que parecia tocar o céu. Alana, que nunca havia pisado ali, sentiu o peso da própria insignificância. Diante daquele fluxo frenético de executivos e da sofisticação impecável das recepcionistas, ela entendeu por que Daniel a via apenas como uma "dona de casa" descartável. O abismo entre o império dele e a vida que ela tentava reconstruir era monumental.

Com a respiração pesada pela vergonha, ela se refugiou em um canto do saguão e ligou para Freitas.

— Senhora? — a voz dele soou surpresa.

— Freitas, estou no saguão. Eu trouxe os documentos que o pai do Daniel pediu. Você poderia descer para...?

— Estou em uma reunião agora, senhora — interrompeu Freitas, apressado. — Vou providenciar para que alguém a busque imediatamente.

Antes que Alana pudesse protestar que não queria subir, a linha caiu. Dois minutos depois, uma secretária a conduziu ao elevador. Alana tentou entregar a garrafa térmica e os papéis ali mesmo, mas a instrução foi clara: "Não temos autorização para manusear documentos confidenciais. A senhora deve entregá-los pessoalmente ao Presidente."

No gabinete da presidência, Daniel acabara de encerrar uma sessão exaustiva. Ele afrouxava a gravata com irritação quando Freitas anunciou a chegada de Alana. As sobrancelhas dele relaxaram por um milésimo de segundo; em sua mente arrogante, o aparecimento dela era a prova de que ela usaria qualquer desculpa — até a sopa do pai — para rastejar de volta.

— Adie a próxima reunião por meia hora — ordenou Daniel. Ele queria tempo suficiente para que Alana admitisse seus "erros" e implorasse para voltar.

Enquanto isso, Alana subia, ouvindo da secretária sobre como o Presidente estava exausto, vivendo à base de café e sofrendo com crises estomacais. O coração de Alana, treinado por dois anos de cuidado, deu um solavanco de preocupação, mas ela logo sufocou o sentimento.

Ao entrar na sala monumental, decorada em tons de cinza escuro que exalavam a mesma frieza de Daniel, ela o encontrou vazio. O perfume dele, amadeirado e marcante, inundava o ar, trazendo memórias de noites que ela preferia esquecer. Ao se aproximar da mesa para deixar os pertences, viu um paletó amassado sobre a cadeira. Por puro instinto, ela o pegou para organizar, como fizera mil vezes antes.

Foi nesse momento que a porta se abriu com estrondo.

Mariela entrou, deslumbrante em uma camisa de seda preta e meias finas que realçavam suas pernas. Ela avançou como uma leoa protegendo seu território e arrancou o paletó das mãos de Alana com um puxão violento.

— Quem deixou você entrar aqui? — perguntou Mariela, com um olhar de desprezo absoluto, fingindo não reconhecer a mulher que vira no restaurante na noite anterior. — Você é alguma empregada nova da família?

A expressão de Alana obscureceu-se instantaneamente. O "não" que ela pronunciou foi seco, carregado de uma indignação que começava a transbordar.

— Não me importa quem você seja, você não tem permissão para estar aqui e muito menos para tocar nas coisas do Daniel — disparou Mariela, ignorando o aviso e entrando na sala de descanso anexa ao gabinete.

A porta estava escancarada, revelando uma cena que Alana jamais imaginou presenciar. A cama de casal estava desarrumada, um cenário de caos que falava por si só. Roupas masculinas e uma cueca boxer azul-escura estavam espalhadas pelo chão com uma negligência íntima. Mariela começou a recolher as peças com a propriedade de quem domina o território. Foi então que, ao puxar o edredom, um par de meias finas e um sutiã estampado surgiram entre os lençóis.

Alana sentiu o sangue fugir do rosto, substituído por um nó sufocante na garganta. Então era ali que Daniel estava "ocupado"? Enquanto ela se preocupava com a saúde dele e trazia a sopa de seu pai, ele transformava o escritório em um ninho para seus encontros com Mariela. A traição não era apenas um deslize; era uma rotina estabelecida no coração do seu império.

— Por que você ainda está aqui parada? — perguntou Mariela, jogando as peças íntimas em direção ao banheiro com um desdém coreografado.

Alana forçou-se a desviar o olhar da cama, focando no envelope em sua mão.

— Isto precisa ser entregue pessoalmente ao Daniel — disse ela, a voz trêmula, mas firme.

— Me dê isso logo — exigiu Mariela, estendendo a mão com hostilidade, agindo como se fosse a verdadeira dona daquela vida.

Sentindo-se profundamente injustiçada, humilhada e reduzida a um nada naquele espaço que deveria ser, por direito, dela também, Alana caminhou em direção à amante de seu marido. Mas ela não ia entregar o documento; ela ia dar um basta.

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