Capítulo 2

A ideia de voltar para a casa dos pais — um lugar de indiferença e submissão — era impensável. Alana já havia suportado o suficiente.

Daniel a seguiu escada acima, mas não moveu um músculo para detê-la. Ele permaneceu encostado no batente, observando com um olhar gélido enquanto ela atravessava o closet. Eram quatro da manhã; o mundo lá fora estava mergulhado na escuridão, mas a claridade artificial do quarto denunciava a palidez cadavérica no rosto de Alana.

Quando ela passou por ele, mala em punho, Daniel finalmente quebrou o silêncio:

— Alana, minha paciência tem limite. Não espere que eu vá atrás de você ou que peça para você voltar.

Alana parou, sentindo o peso da irritação e do desdém na voz dele. Cada palavra era um prego no caixão de sua esperança.

— Esteja no cartório às nove da manhã — ela respondeu, sem olhar para trás.

— Estou ocupado. Se quer mesmo o divórcio, marque uma consulta com meu assistente — ele rebateu, tratando o fim do casamento como uma reunião de negócios desinteressante. — Não diga que estou sendo negligente. Se você se arrepender antes da consulta ser agendada, posso fingir que esta noite nunca aconteceu.

Daniel deu as costas, sentindo o amargor de quem lida com um funcionário ingrato. Na cabeça dele, Alana tinha tudo: conforto, segurança e liberdade financeira. Ele não entendia o que ela pretendia, mas tinha uma certeza absoluta: ela voltaria. A família dela jamais permitiria que ela perdesse o "bilhete premiado" que ele representava.

Ele caminhou até o parapeito do segundo andar e a viu pegar as chaves do carro na entrada.

— Esse carro foi um presente para você — disse ele, a voz ecoando grave pelo hall.

Alana olhou para as chaves. O carro custava pouco mais de 200 mil. Uma migalha comparada às joias de milhões que ele desfilava com Mariela. O vento do final de outono soprou lá fora, e o frio que ela sentiu no peito foi pior que o da madrugada. Com um gesto firme, ela arremessou as chaves de volta no console da entrada e saiu a pé, carregando apenas sua dignidade e uma mala.

A porta bateu com um estrondo que ecoou pela mansão silenciosa. Daniel zombou mentalmente. A casa ficava nos arredores da cidade; levaria uma hora de caminhada apenas para chegar à estrada principal. Sem transporte àquela hora, ele estava convencido de que, em dez minutos, o orgulho dela murcharia e ela tocaria a campainha.

Mas os minutos viraram uma hora.

Alana caminhou pela estrada deserta, o vento fustigando seus cabelos negros e gelando sua pele. Ela só pegou o celular para ligar para sua melhor amiga, Suzi, quando já estava longe dos portões do condomínio.

Quando Suzi finalmente estacionou o carro, encontrou Alana trêmula, com as mãos vermelhas de frio. A amiga a puxou para dentro do veículo, ligando o aquecedor no máximo. O calor súbito fez a geada nos cílios de Alana derreter, misturando-se às lágrimas que finalmente voltaram a cair, pesadas e amargas.

— Alana... — Suzi começou, a voz carregada de preocupação. — Vocês brigaram por causa daquela festa da Mariela? Eu vi as notícias...

Suzi apertou o volante, olhando para a amiga destruída ao seu lado.

"Ele realmente acha que pode comprar o seu silêncio enquanto exibe aquela mulher para o mundo todo?", Su perguntou, com raiva. "Alana, você não é mais a designer promissora que todos conheciam? Se ele quer tratar o divórcio como um compromisso de agenda, vamos dar a ele o show que ele merece. Mas primeiro, você precisa ver uma coisa que não saiu na mídia oficial."

Su entregou o celular para Alana. O que apareceu na tela não era apenas uma foto de festa, mas algo que provava que a relação de Daniel e Mariela ia muito além de negócios e joias caras.

A decisão de Alana em não usar o vídeo como munição imediata mostra que ela não quer apenas vingança, mas sim distância e dignidade. O contraste entre a "mesada" de 500 mil e o que realmente sobrava para ela revela o quanto esse casamento era uma armadilha dourada.

— Não é uma discussão, Su. É um divórcio — respondeu Alana. Sua voz era firme, embora seus olhos parecessem ter perdido o brilho, refletindo um vazio profundo.

Sem dizer mais nada, ela estendeu o celular para a amiga. Na tela, o vídeo da traição rodava, expondo a entrada de Mariela na suíte de Daniel. Su  encostou o carro bruscamente, o rosto vermelho de indignação.

— Meu Deus! Aquele canalha... Ele te trai e ainda tem a audácia de te expulsar no meio da noite? Alana, ele é quem deveria sair daquela casa sem um tostão!

— Eu não mostrei o vídeo para ele — confessou Alana, desviando o olhar para a janela embaçada. — Se eu ficasse lá, o confronto só serviria para me humilhar ainda mais. E meus pais... você sabe como eles são. Eles nunca ficariam do meu lado; eles precisam da influência da família do Daniel mais do que precisam de mim.

Su  soltou um suspiro pesado, engatou a marcha e dirigiu em silêncio até seu apartamento no centro da cidade. Quando o sol começou a despontar entre os prédios, elas finalmente entraram.Alana desabou no sofá, o corpo pesando como chumbo após o desgaste emocional.

— E agora? Quais são seus planos? — perguntou Su, entregando-lhe uma xícara de café quente.

— Primeiro, vou seguir o conselho "generoso" dele: ligar para o assistente e agendar o divórcio. Depois, preciso de um trabalho.

A ironia da situação era amarga. Embora Daniel se gabasse dos 500 mil  mensais, a realidade era que Alana gastava quase tudo mantendo a mansão impecável, cuidando da rotina dele e comprando presentes caros para agradar os sogros. De toda aquela fortuna, restavam-lhe apenas 50 mil — o preço da sua rescisão pessoal.

— Então, antes de sair entregando currículos, você vai me ajudar! — Su  tentou mudar o tom, buscando animar a amiga. — O professor de piano que eu contratei para a escola me deu um bolo de última hora. Preciso desesperadamente de alguém para assumir as aulas hoje!

Alana esboçou um sorriso triste, mas determinado. Tocar piano, algo que ela fazia apenas para entreter Daniel em jantares de negócios, agora seria sua primeira ferramenta de independência.

Enquanto Alana se preparava para a aula, o telefone de Freitas, o assistente pessoal de Daniel, tocou. Do outro lado da linha, a voz de Alana era profissional e fria, sem o tom dócil de sempre.

"Freitas, bom dia. Gostaria de verificar a agenda do Sr. Daniel. Preciso de dez minutos para a assinatura da nossa rescisão matrimonial. Qual o horário disponível?"

No escritório da empresa, Freitas empalideceu ao ouvir o pedido. Ele olhou para Daniel, que estava sentado à sua frente revisando contratos com uma expressão de tédio, certo de que a esposa ligaria chorando para pedir desculpas. Daniel não fazia ideia de que, naquele momento, Alana não estava apenas agendando um divórcio, mas redesenhando o mapa da própria vida.

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