Wesley completou a conversa com um tom divertido.
— Está certinho. A Eunice vai entender a situação — afirmou ele.
Fiquei parada do lado de fora da porta. De repente, lembrei-me da noite em que completei dezoito anos. Eu estava na chuva esperando os fogos de artifício da meia-noite para celebrar a minha maioridade.
No entanto, Gabriel e Wesley usaram o único guarda-chuva para cobrir Natália. Eles se viraram e falaram comigo.
— Eunice, a sua casa fica perto. É só dar uma corridinha e você chega — disseram eles.
Naquele dia, eu voltei para casa completamente encharcada. Eu ainda tentei justificar a atitude deles dizendo que a culpa era da minha má sorte.
Mas, esta noite, eu finalmente entendi a verdade. Acontece que, desde o início, eles nunca tiveram a intenção de me dar o guarda-chuva.
Por causa disso, desta vez, decidi rasgar aquele cartão e cancelar o agendamento do nosso casamento. Esse joguinho de sorte armado por eles perdeu a graça para mim. Eu não quero mais jogar.
...
Quando voltei para o camarote, Natália estava cercada por todos que queriam tirar fotos. O colar de diamantes rosa repousava sobre a sua clavícula. A joia brilhava como uma lágrima guardada na palma da mão de alguém.
Alguém começou a brincar em voz alta.
— Gabriel, esse prêmio secreto é luxuoso demais, não acha? — brincou a pessoa. — Quem não sabe da história vai pensar que o seu pedido de casamento esta noite é para a Natália.
Os olhos de Natália ficaram vermelhos na mesma hora.
— Não digam uma coisa dessas. A Eunice vai ficar chateada comigo — respondeu ela.
Assim que ela abriu a boca, todos os olhares se voltaram para mim. Gabriel me viu voltar e franziu levemente a testa.
— O que você está fazendo parada na porta? — perguntou ele. — Quem te ver assim vai achar que alguém te maltratou.
Olhei para ele e de repente achei toda aquela situação muito cômica. Ficava claro que eu era a única pessoa ferida ali. Porém, até o meu silêncio parecia um drama sem sentido para eles. Por isso, eu não me movi nenhum centímetro.
Gabriel franziu o cenho com um pouco mais de força. Wesley foi o primeiro a se levantar e caminhou até mim. As feições dele eram gentis por natureza. Ele sempre parecia ter um sorriso no olhar ao encarar alguém.
Antes dos dezoito anos, eu tinha uma crença muito forte. Eu achava que Wesley era a última pessoa no mundo capaz de me envergonhar. Contudo, neste momento, ele se inclinou para me olhar e falou com a voz muito baixa.
— Eunice, não deixe o Gabriel constrangido em um momento como este — pediu ele.
Eu continuei olhando fixamente para o rosto dele.
— Eu por acaso disse alguma coisa? — perguntei.
Wesley fez uma pausa constrangida.
Natália apertou o pingente do colar entre os dedos. As lágrimas dela caíram com ainda mais rapidez.
— Eunice, acho melhor eu devolver o colar para você — sugeriu ela. — Eu não deveria ter aceitado esse prêmio desde o começo.
As mãos dela mal encostaram no fecho do colar. Gabriel se manifestou de forma imediata.
— Fique com ele — ordenou Gabriel.
Logo após, ele virou o rosto para me encarar.
— O prêmio pertence à pessoa que o sorteou — declarou ele.
Eu soltei um sorriso curto e silencioso. O camarote mergulhou em um silêncio total por um instante. O olhar de Gabriel tornou-se perceptivelmente mais frio. Wesley franziu a testa em desaprovação.
— Eunice, é apenas uma brincadeira boba — repreendeu Wesley. — Você precisa mesmo criar um clima tão pesado?
Em seguida, ele se colocou à frente de Natália para protegê-la. A voz dele ainda mantinha um tom suave. No entanto, o peso daquelas palavras parecia uma lâmina cega pressionando a minha garganta.
— A Natália sempre teve problemas de insegurança desde criança — explicou ele. — Ela finalmente conseguiu se divertir um pouco hoje. Você não pode ceder apenas desta vez?
Era aquela mesma frase de sempre. Eu não consegui evitar e olhei diretamente para Natália.
Ela estava escondida ao lado de Gabriel e ainda exibia lágrimas nos cantos dos olhos. Mas o olhar que ela me lançou trazia um ar de riso contido.
No segundo seguinte, Gabriel se levantou e parou bem na minha frente. O corpo dele exalava um aroma frio de cedro. Eu mesma tinha escolhido aquele perfume para ele. Eu disse que a fragrância fria e limpa combinava com o seu estilo. Contudo, ele sempre reclamava que o cheiro era suave demais.
Muito tempo depois, Natália comentou que adorava aquele aroma específico. Como resultado, ele passou a usar o perfume fielmente por três anos. Ele ergueu a mão para bagunçar o meu cabelo como costumava fazer. Eu virei o rosto para o lado e desviei do seu toque.
Alguém no camarote puxou o ar com força pelo susto. O olhar de Gabriel finalmente assumiu uma expressão sombria.
— Eu vou estar presente na prova do seu vestido de noiva amanhã — afirmou ele.
Levantei os olhos para encará-lo com curiosidade.
— Você ainda se lembra disso? — perguntei.
Ele me olhou como se tivesse acabado de ouvir um grande absurdo.
— Quando foi que eu esqueci de algo que te prometi? — retrucou ele.
Exatamente nesse momento, Natália tossiu bem baixinho. Gabriel virou a cabeça para trás de imediato.
— O que aconteceu? — perguntou ele.
Natália balançou a cabeça em negação.
— Não é nada grave — respondeu ela. — Meu pescoço está coçando um pouco. Talvez eu não esteja acostumada a usar este colar.
Gabriel pegou o casaco que estava no sofá. Em seguida, ele o colocou sobre os ombros dela de forma protetora.
Wesley observou a expressão no meu rosto e soltou um suspiro longo.
— Eunice, pare de procurar problema onde não há — aconselhou ele. — O Gabriel vai casar com você amanhã. A Natália é apenas uma amiga de todos nós.
Eu fixei o meu olhar no dele.
— Que tipo de amiga aceita um diamante rosa escolhido a dedo pelo meu noivo? — questionei.
O sorriso no rosto de Wesley desapareceu aos poucos.
— Você precisa mesmo usar esse tom de voz? — rebateu ele.
Gabriel virou o rosto para me olhar com uma expressão dura. A voz dele soou baixa e fria no ambiente.
— Eunice, já chega disso — ordenou ele.
De repente, eu perdi completamente a vontade de continuar falando. Dentro daquele cenário montado por eles, a minha única opção era sofrer a humilhação em silêncio. Eu precisava sorrir no final e ainda elogiar o momento com uma frase simples.
— A minha sorte é mesmo muito ruim — pensei comigo mesma.
Quando a festa terminou, Gabriel levou Natália para o hospital. A pele do pescoço dela estava com uma pequena mancha vermelha. Por outro lado, Wesley ficou para me acompanhar até em casa.
Ao chegarmos à porta de saída, ele tirou o próprio cachecol. Depois, ele o enrolou cuidadosamente em volta do meu pescoço.
— O vento estava forte agora há pouco. Cuidado para não pegar um resfriado — avisou ele.
Abaixei os olhos para observar aquele pedaço de tecido quente. Ele sempre agia dessa forma comigo. Sempre que eu estava prestes a desistir de tudo, ele me oferecia uma dose perfeitamente medida de ternura.
No entanto, no segundo seguinte, ele me empurrava de volta para a minha triste realidade. Como era de se esperar, ele abriu a boca logo após ajeitar o meu cachecol.
— Eunice, não leve os acontecimentos de hoje para o lado pessoal — pediu ele. — Você conhece bem o Gabriel. Ele tem as palavras duras, mas o coração é mole.
— Ele vai te acompanhar na prova do vestido amanhã. E no dia seguinte, vocês vão assinar os papéis do casamento — continuou ele. — Você já venceu essa batalha. Pare de brigar com a Natália por causa de coisas tão pequenas.
Eu olhei bem fundo nos olhos dele.
— O que foi exatamente que eu venci? — questionei.
Wesley ficou paralisado de repente. Ele abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu. A verdade é que nem ele mesmo sabia a resposta para aquilo.