Mundo de ficçãoIniciar sessão🐺 Kael Draven
O ar na clareira da Floresta Proibida estava saturado com o cheiro de prata queimada, ozônio e o aroma fascinante que emanava de Lyra, uma combinação letal de jasmim selvagem, terra molhada pela chuva de verão e o calor doce de seu sangue lunar. Meus olhos, agora brilhando em um tom dourado e lupino, fixaram-se nela, ignorando completamente os guerreiros de Eryon que nos cercavam com suas lanças de pontas prateadas. Cada fibra do meu ser clamava por ela. Meu lobo interior, Fenrir, arranhava as paredes da minha mente, rugindo em fúria e possessividade, exigindo que eu rasgasse a garganta de qualquer um que ousasse olhar para a nossa fêmea. Mas o que realmente me torturava era a adaga que ela segurava. A lâmina de prata brilhava sob a luz filtrada pelas folhagens das árvores sombrias, apontada diretamente para o meu peito. Eu podia ouvir o pulsar frenético do coração dela, um compasso descompassado que ecoava em meus próprios ouvidos como um tambor de guerra. O laço de companheiros, aquela ligação ancestral e inquebrável que a Deusa da Lua esculpiu em nossas almas, latejava entre nós como uma corrente elétrica de alta voltagem. Cada respiração dela parecia sugar o ar dos meus próprios pulmões. Como ela podia estar ali, armada, disposta a me ferir? Quando tudo o que eu queria era arrastar meu corpo contra o dela, enterrar meu rosto em seu pescoço e implorar pelo perdão que minha mente sequer conseguia compreender por completo. Há dez anos, a mentira e a feitiçaria de Eryon nos separaram, forçando uma falsa rejeição que deixou cicatrizes profundas em nossas almas. Eu via a marca em forma de lua minguante em seu pescoço, a cicatriz que eu mesmo tentei curar com meu sangue, um lembrete constante da nossa dor e do nosso amor proibido. Eryon deu um passo à frente, com um sorriso de escárnio desenhado em seus lábios finos, os olhos brilhando com a promessa de traição. — Renda-se, Kael, — a voz dele ecoou pela clareira úmida, fria e cortante como o vento de inverno. — A espiã do Clã Noctharys fez o seu trabalho. Ela o trouxe diretamente para a nossa armadilha. Entregue a soberania da Matilha Valkares ou assista ao fim de sua preciosa Luna. Mas eu não estava prestando atenção nele. Meus olhos continuavam travados nos de Lyra. Eu via o conflito devastador em suas pupilas dilatadas, a hesitação que nenhum guerreiro treinado deveria mostrar. Ela não era apenas uma espiã letal; ela era a minha companheira, a metade da minha alma que havia sido arrancada de mim pela ganância dos anciãos da matilha. Dei um passo à frente, ignorando o rosnado de advertência dos guardas de ferro. A ponta da adaga de Lyra tocou o tecido da minha túnica, bem acima do meu coração. Senti a queimação fria da prata, mas a dor física não era nada comparada ao fogo que o toque dela acendia em minha pele. — Faça. — eu sussurrei, minha voz saindo em um rosnado grave, rouco e carregado de uma possessividade selvagem, que fez os pelos de seus braços se arrepiarem. — Se você acredita que a sua missão para os Noctharys vale mais do que o sangue que corre em nossas veias, se o seu lobo realmente deseja a minha morte... crave essa lâmina. Mas olhe nos meus olhos enquanto o faz, Lyra. Deixe-me ver a mentira morrer no seu olhar. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo vento sussurrando segredos antigos entre as árvores e o peso da tensão que nos consumia. O espaço entre nós encolheu até que não houvesse mais ar, apenas o calor irradiando de nossos corpos, uma gravidade própria que ameaçava colapsar o mundo ao nosso redor. Eu podia sentir o cheiro do medo dela, mas não era medo de mim ou da morte; era o pavor de ceder ao chamado inegável do laço. Minha mão se moveu com uma lentidão proposital, subindo pelo contorno do braço dela, sentindo a suavidade de sua pele contrastando com a rigidez de seus músculos tensionados. Quando meus dedos finalmente envolveram o pulso dela, uma faísca de pura energia espiritual nos atingiu, fazendo ambos ofegarmos. Era o Mate Bond, acordando de seu sono forçado, faminto, violento e implacável. A pele dela queimava sob a minha, e o rosnado que escapou do meu peito foi de pura satisfação e agonia. — Você ainda sente, — afirmei, aproximando meu rosto do dela até que nossas respirações se misturassem, quentes e apressadas. — Seu sangue se lembra do meu, Lyra. Sua loba está implorando para que você solte essa arma e se entregue ao seu Alfa. — Os olhos dela brilharam com uma fúria vulnerável, lágrimas de frustração ameaçando cair, mas ela manteve a postura firme, a adaga ainda pressionando meu peito. — Você me rejeitou, Kael, — ela sussurrou, a voz trêmula, mas carregada de uma mágoa tão profunda que rasgou meu peito mais do que qualquer prata jamais faria. — Você me baniu para as sombras, me chamou de fraca, de humana. Agora você quer que eu ceda a um laço que você mesmo quebrou? Aquelas palavras foram como um soco físico. A dor da incompreensão e a sombra da conspiração que Eryon havia tecido ao nosso redor, se ergueram como um muro intransponível. Eu queria gritar que foi uma armadilha, que minha mente havia sido nublada pela feitiçaria sombria que agora eu começava a desvendar, mas não havia tempo para explicações. O perigo nos cercava, e a traição de Eryon estava prestes a se consumar. Os guerreiros de ferro avançaram, suas armas brilhando no escuro da floresta, prontos para executar o golpe mortal. Em um movimento rápido e instintivo, puxei Lyra contra o meu corpo, girando nossos quadris para que minhas costas ficassem voltadas para a ameaça, protegendo-a com meu próprio corpo. O impacto de suas curvas macias contra o meu peito rígido, enviou uma onda de desejo tão devastadora que quase me fez esquecer o perigo iminente. Minhas mãos encontraram a sua cintura, apertando-a com uma força possessiva, enquanto meu lobo uivava de triunfo por tê-la finalmente em meus braços, mesmo que no meio de um campo de batalha. Ela arqueou o corpo, sua cabeça caindo ligeiramente para trás, expondo a curva perfeita de seu pescoço e a cicatriz que clamava pelo meu toque. Meus lábios roçaram a pele sensível de sua orelha, e eu pude ouvir seu gemido baixo e sufocado, um som que acendeu um fogo incontrolável em meu íntimo. — Eu nunca quis deixar você ir, — sussurrei contra sua pele, minha voz vibrando contra seu pescoço. — E eu juro pela Deusa da Lua que destruirei cada mentira que nos separou, mesmo que eu tenha que queimar esta floresta inteira para manter você segura. A tensão entre nós era um cabo de guerra erótico e perigoso, onde o vencedor levaria tudo e o perdedor seria condenado à eternidade sem alma. Eu podia sentir a ponta metálica da adaga dela ceder milímetros, vacilando contra o meu peito à medida que o calor do nosso vínculo se intensificava. O conflito ancestral de nossas matilhas parecia insignificante diante do magnetismo que nos puxava um para o outro. Mas a floresta sombria ao nosso redor, não perdoaria nossa distração. Eryon soltou uma gargalhada fria, um som que quebrou o transe febril e fez meu lobo rosnar de volta, pronto para o massacre. Eu sabia que, para salvar Lyra da conspiração que a caçava, eu teria que enfrentar não apenas os guerreiros de ferro, mas os segredos sombrios que o meu próprio sangue Valkares carregava nas profundezas daquelas terras malditas. Quando o metal frio da adaga de Lyra finalmente escorregou de seus dedos trêmulos, Eryon ergueu um pergaminho antigo selado com o sangue do meu próprio pai, sorrindo ao revelar que o preço da sobrevivência dela, era a minha abdicação imediata ao trono dos Valkares.






