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ONDE A LUA ENTERRA NOMES
ONDE A LUA ENTERRA NOMES
Por: O Poeta Viajante Kinho Oliver
🌕 Cap. 1: O Laço Esquecido na Floresta Proibida

🌹 Lyra Voss

A Floresta de Vargem Negra não guardava segredos; ela os devorava sob o manto gelado da meia-noite.

A névoa espessa e leitosa rastejava pelo solo negro como os dedos esqueléticos de um fantasma ancestral, congelando a umidade nas folhas retorcidas dos carvalhos milenares.

A cada passo calculado que eu dava sobre o musgo, sentia o peso sufocante de cruzar a fronteira proibida da Matilha Valkares.

Na hierarquia implacável das alcateias, uma intrusa sem o cheiro do bando era considerada caça viva, destinada a ser estraçalhada nas presas dos lobos de patrulha antes que pudesse sequer pronunciar uma súplica.

Contudo, eu não era uma humana indefesa.

Sob a minha capa de veludo negro, ajustada ao corpo para garantir agilidade mortal, meus dedos enluvados seguravam com firmeza o cabo esculpido em osso de uma adaga de prata pura.

Eu havia sido forjada na dor e no silêncio pelo Clã Noctharys, transformada na espiã mais letal da fortaleza sombria de Arcádia Noir.

Minha missão naquela noite de lua cheia parecia simples nos mapas de guerra: infiltrar-me no coração do território inimigo, mapear as rotas de caça do novo Alfa Supremo e encontrar a fraqueza que colocaria a Matilha Valkares de joelhos perante os nossos líderes.

Mas havia algo em Vargem Negra que nenhum treinamento em Arcádia Noir foi capaz de prever.

Conforme eu me aprofundava no escuro, o ar ao meu redor tornou-se subitamente leve e vibrante, como se a própria atmosfera tivesse sido eletrificada por uma tempestade ameaçadora.

Um perfume avassalador, intenso e carnal invadiu minhas narinas, notas amadeiradas de pinho selvagem, terra úmida pós-chuva de granizo, couro aquecido e a masculinidade bruta e indomável de um predador de sangue puro.

No mesmo instante, uma pontada aguda e ardente queimou bem no centro do meu peito, logo abaixo da clavícula, como se um ferro em brasa estivesse gravando uma marca invisível em minha carne.

Meu coração saltou na garganta, batendo em um ritmo frenético e irregular que não vinha do medo, mas de uma pulsação primordial que ressoava até a última gota do meu sangue.

Mate bond... — o sussurro escapou dos meus lábios trêmulos como um lamento assustado.

Eu conhecia as lendas sobre o Laço de Companheiros Destinados pela Deusa da Lua.

Dizia-se que quando dois seres predestinados se aproximavam, seus lobos interiores uivavam em adoração e a atração física superava qualquer barreira de ódio ou sanidade.

Mas eu sempre fui ensinada de que era sem loba, uma rejeitada sem cheiro cujo passado foi consumido pelo fogo.

Como era possível que meu corpo estivesse queimando com a dor e a glória do vínculo sagrado?

O estalar seco de um galho quebrado na escuridão atrás de mim, fez todos os meus instintos de sobrevivência gritarem.

Girei sobre os calcanhares em uma fração de segundo, desembainhando a adaga de prata e assumindo uma postura de combate letal.

O metal sagrado brilhou com um reflexo prateado sob a luz prateada da lua cheia, que surgia entre as nuvens pesadas.

Das sombras profundas do nevoeiro, uma figura imensa emergiu com a graça silenciosa e letal de uma divindade da guerra.

Kael Draven. O temido Alfa de Ferro de Vargem Negra.

Ele tinha mais de um metro e noventa de estatura, ombros largos e uma presença esmagadora que parecia roubar todo o oxigênio ao redor.

Sua camisa de couro escuro estava entreaberta na altura do peito, expondo músculos rígidos esculpidos por batalhas e marcas profundas de cicatrizes de garras.

Mas foram seus olhos que me paralisaram por completo: duas esferas douradas e brilhantes de pura fúria selvagem que cintilavam no breu como brasas vivas.

Ele não trazia nenhuma arma nas mãos calejadas.

Ele não precisava.

Suas garras retráteis e a força sobrenatural de sua linhagem ancestral, eram suficientes para partir um homem ao meio.

Kael caminhou lentamente na minha direção, sem pressa, sabendo que eu não tinha para onde fugir.

A cada passo pesado que ele dava, a queimação em meu peito intensificava-se ao ponto de me tirar o fôlego.

Eu conseguia ver as narinas dele se dilatando enquanto ele farejava o ar noturno, capturando o meu perfume de jasmim e sangue com uma intensidade que fez os pelos de sua nuca se arrepiarem.

Seus lábios bem desenhados se curvaram em uma expressão perigosa, uma mistura esmagadora de ódio territorial, espanto e uma fome erótica e insaciável que ameaçava me devorar inteira.

— Uma espiã de Arcádia Noir armada com prata no meu santuário... — a voz dele soou grave, rouca e suave, ressoando como um trovão distante, que fez o chão vibrar sob minhas botas. — Você deveria estar morta antes de dar o terceiro passo nesta floresta, garota.

Tentei manter a mão firme, apontando a ponta afiada da lâmina diretamente contra o pomo de adão do Alfa.

— Dê mais um passo, Kael Draven, e eu garanto que seu sangue de monstro banhará este musgo antes mesmo que sua matilha alcance meus passos.

Em vez de recuar, Kael soltou uma risada sombria e rouca, que enviou uma onda de calor líquido direto para o centro do meu ventre.

Ele deu mais dois passos largos, encurtando a distância entre nós, até que a ponta da adaga tocasse a pele nua de seu peito, logo acima de uma cicatriz antiga.

Ele não se importou com a dor do metal.

Em vez disso, deu mais um passo à frente, forçando a lâmina a arranhar sua pele, fazendo com que uma única gota escarlate de sangue escorresse por seu músculo rígido.

Ele se inclinou sobre mim, sua sombra engolindo meu corpo por completo.

O calor que emanava de seu corpo musculoso, era como uma fornalha ardente contrastando com a noite congelante.

Eu podia sentir sua respiração quente batendo contra a curva do meu pescoço, acelerando minhas pulsações até o delírio.

Seus olhos dourados cravaram-se nos meus com uma ferocidade possessiva tão devastadora que minhas pernas tremeram.

Ele levou a mão áspera ao meu rosto, roçando os lábios na minha têmpora enquanto sussurrava:

— Você tem a coragem de me ameaçar com prata... mas não consegue esconder que o seu sangue acabou de reconhecer o seu Alfa.

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