O bairro foi ficando pequeno pelo retrovisor, mas nada dentro de Camila encolhia junto. A cada esquina que a caminhonete deixava para trás, uma lembrança da casa da infância insistia em voltar, e não eram só lembranças boas: a mesa cheia de conta, a voz da mãe reclamando de tudo e, mesmo assim, repetindo que um dia a vida ia “dar um jeito”. Agora ela sabia exatamente qual “jeito” tinha entrado pela porta.
Rafael dirigia calado, os olhos fixos na rua, as mãos firmes no volante. Não tentava puxar conversa, não empurrava consolo pronto. Tinha o corpo ligeiramente inclinado para frente, atenção dividida entre o trânsito e o banco de trás, como se pudesse reagir a qualquer coisa que ela fizesse.
Camila manteve o olhar na janela por alguns minutos, fingindo observar fachadas, postes, pessoas. Na verdade, estava tentando segurar alguma coisa que se partia por dentro, não sabia se era a imagem da mãe ou do pai, ou a dela mesma nessa história toda. Quando sentiu que a garganta queimava, fechou