Mundo de ficçãoIniciar sessãoCAPÍTULO 4
MATHEUS Sempre disseram que eu era um homem difícil de surpreender. Talvez fosse verdade. Nasci cercado de dinheiro, cresci vendo empresários disputarem a atenção da minha família e mulheres tentando chamar minha atenção antes mesmo de saberem meu sobrenome. Depois de um tempo, tudo começa a parecer igual. Foi por isso que aceitei o noivado com Camila. Ela era bonita, elegante e sabia se comportar em qualquer evento. Nossas famílias eram sócias havia décadas, e o casamento parecia a escolha mais lógica para manter aquela relação. Nunca parei para pensar se também era a escolha certa. Talvez esse tivesse sido meu primeiro erro. Encostei-me na cadeira do meu escritório enquanto observava a cidade através da parede de vidro. A reunião havia terminado fazia poucos minutos, mas minha cabeça ainda estava presa em outro lugar. Meu celular vibrou sobre a mesa. Rafael: — Bar hoje. Sem desculpas. Sorri. Rafael nunca fazia convites. Fazia convocações. Matheus: — Oito horas. Naquela noite, o bar estava cheio. Era um lugar sofisticado, mas longe dos eventos repletos de fotógrafos e pessoas que eu costumava frequentar por obrigação. Ali, ninguém parecia interessado em saber quem era o filho de quem. Rafael já estava sentado quando cheguei. Diego apareceu logo depois. Assim que me acomodei, Rafael arqueou uma sobrancelha. Rafael: — Você está estranho. Peguei meu copo de uísque e tomei um gole antes de responder. Matheus: — Estou trabalhando demais. Diego riu. Diego: — Não. Quando você trabalha demais, fica mal-humorado. Hoje você está distraído. Não respondi. Rafael cruzou os braços e continuou me observando. Rafael: — É a Camila? Dei de ombros. Matheus: — O que tem ela? Rafael: — Você anda distante. Olhei para o copo. Talvez estivesse mesmo. Nos últimos meses, nosso noivado havia se transformado em uma sequência de jantares, eventos beneficentes e reuniões entre famílias. Tudo parecia automático, como se estivéssemos apenas seguindo um roteiro escrito muito antes de nós dois termos idade para escolher qualquer coisa. Não havia brigas. Não havia grandes problemas. Mas também não havia aquela sensação de que eu estava exatamente onde queria estar. Era como cumprir um contrato que ninguém tinha pedido para ler novamente. Diego sorriu de lado. Diego: — Então não é a Camila. Levantei os olhos. Matheus: — O que quer dizer? Ele deu um gole na cerveja, claramente se divertindo. Diego: — Se fosse ela, você teria respondido mais rápido. Rafael soltou uma risada. Rafael: — Tem outra história aí. Balancei a cabeça. Matheus: — Vocês assistem novela demais. Mudamos de assunto. Falamos sobre negócios, futebol e uma viagem marcada para o mês seguinte. Tentei participar da conversa, mas minha atenção continuava escapando. Em algum momento, minha mente voltou para a festa da Beatriz. Voltou para uma mulher de vestido preto. Para o modo como ela havia enfrentado Beatriz sem baixar os olhos. Luana não tentou parecer importante. Não procurou aprovação, não se intimidou com o sobrenome de ninguém e muito menos tentou me impressionar. Ela simplesmente parecia não se importar. E aquilo era raro. Muito raro. Rafael: — Está pensando em quê? Demorei alguns segundos para responder. Talvez porque ainda estivesse tentando entender por que aquela pergunta me incomodava. Matheus: — Na irmã da Camila. Os dois ficaram em silêncio. Diego foi o primeiro a reagir. Diego: — A que voltou agora? Assenti. Rafael: — O que tem ela? Respirei fundo. Nem eu sabia exatamente o que responder. Matheus: — Ela é diferente. Rafael riu. Rafael: — Diferente como? Olhei para o movimento do bar enquanto procurava as palavras certas. Matheus: — Ela entrou naquela festa como se ninguém ali fosse importante. Não ficou tentando agradar, não fez perguntas sobre dinheiro, empresa ou sobrenome. Quando Beatriz tentou humilhá-la, ela simplesmente respondeu e continuou vivendo como se aquilo não significasse nada. Parei por um instante. Matheus: — Ela simplesmente... foi ela. Diego sorriu. Diego: — Parece que alguém chamou sua atenção. Neguei imediatamente. Matheus: — Não é isso. É curiosidade. Só isso. Rafael levantou o copo. Rafael: — Curiosidade costuma dar trabalho. Ignorei o comentário. Ou tentei. ... Quando deixei o bar, já passava da meia-noite. Entrei no carro e fiquei alguns segundos parado antes de ligar o motor. A cidade estava iluminada diante de mim, mas minha cabeça continuava presa naquela noite. Peguei o celular. Uma mensagem de Camila havia acabado de chegar. "Boa noite, amor. Dorme bem." Fiquei olhando para aquelas palavras durante alguns segundos. Era uma mensagem simples. Carinhosa. Normal. Mas, pela primeira vez, percebi que não sentia vontade de responder da mesma maneira. Digitei apenas: Matheus: — Boa noite. Coloquei o celular no banco ao lado e liguei o carro. Enquanto dirigia pelas ruas iluminadas da cidade, uma pergunta insistia em voltar. Por que uma mulher que dizia não se importar com dinheiro parecia muito mais livre do que todas as pessoas que eu conhecia? E, pela primeira vez em muito tempo, senti vontade de descobrir a resposta. Talvez aquela curiosidade fosse apenas isso. Curiosidade. Talvez fosse passar em alguns dias. Eu ainda não sabia. Mas alguma coisa naquela garota havia conseguido atravessar uma barreira que eu nem sabia que existia. E isso, mais do que qualquer outra coisa, começou a me incomodar.






