capítulo 3

CAPÍTULO 3

LUANA

A casa da Beatriz parecia mais um hotel de luxo do que uma residência. Carros importados ocupavam toda a frente da mansão. Homens de terno conversavam sobre investimentos, enquanto mulheres desfilavam vestidos assinados e joias que brilhavam mais do que os sorrisos estampados em seus rostos.

Desci do carro respirando fundo.

Camila olhou para mim dos pés à cabeça. Ela usava um vestido dourado impecável, enquanto eu vestia um longo preto, simples e elegante, comprado com o dinheiro que eu mesma havia conquistado.

Ela sorriu.

Camila: — Ainda dá tempo de voltarmos para trocar esse vestido.

Olhei para o meu reflexo na janela do carro.

Luana: — Por quê?

Camila: — Você poderia usar um dos meus. Ficaria mais... adequada.

Sorri.

Luana: — Eu gosto desse.

Ela não insistiu. Apenas abriu um sorriso discreto.

Camila: — Como preferir.

Entramos.

O salão principal estava cheio. Havia música ao vivo, garçons circulando com taças de champanhe e pessoas sorrindo umas para as outras como se fossem amigas inseparáveis. Parecia tudo perfeito.

Até demais.

Camila me apresentou a várias pessoas, mas eu esquecia o nome da maioria poucos segundos depois. Então chegamos a um grupo de mulheres e, assim que nos aproximamos, todas interromperam a conversa.

Camila: — Meninas... esta é a Luana. Minha irmã.

Uma loira de vestido vermelho deu um passo à frente. Ela era bonita, mas havia arrogância em cada movimento.

Beatriz: — Finalmente conheci a famosa Luana.

Sorri educadamente.

Luana: — Prazer.

Ela me analisou lentamente, dos pés à cabeça, sem qualquer vergonha.

Beatriz: — Você é diferente do que imaginei.

Luana: — Espero que isso seja um elogio.

Ela riu, acompanhada pelas amigas.

Beatriz: — Ainda não decidi.

As risadas que vieram depois não pareceram realmente espontâneas.

Beatriz pegou uma taça de champanhe.

Beatriz: — Deve ter sido uma mudança enorme. De um bairro simples para uma mansão como a dos Andrade...

Olhei ao redor.

Luana: — A vista mudou bastante.

Ela sorriu.

Beatriz: — Imagino que sim. Ainda mais quando a conta bancária muda junto.

Olhei diretamente para ela.

Luana: — O dinheiro mudou. Eu não.

O sorriso dela diminuiu.

Continuei sem alterar o tom:

Luana: — Acho curioso como algumas pessoas acreditam que dinheiro melhora caráter. Se fosse verdade, o mundo estaria cheio de gente boa.

Um silêncio tomou conta do grupo. Duas garotas desviaram o olhar, enquanto outra segurou uma risada.

Beatriz bebeu um gole da taça.

Beatriz: — Você fala bastante para quem acabou de chegar.

Sorri.

Luana: — Você perguntou. Só respondi.

Ela apertou os lábios.

Percebi que estava perdendo a paciência.

Passei quase uma hora andando pela festa. Algumas pessoas me cumprimentavam, enquanto outras apenas cochichavam quando eu passava. Não fazia diferença. Já tinha aprendido que a opinião de quem não pagava minhas contas não deveria controlar minha vida.

Enquanto observava o jardim iluminado, ouvi novamente a voz de Beatriz.

Ela havia voltado, agora acompanhada de ainda mais pessoas.

Queria plateia.

Beatriz: — Posso tirar uma dúvida?

Olhei para ela.

Luana: — Pode tentar.

Ela sorriu.

Beatriz: — Essa história do sequestro... você nunca achou conveniente demais?

O grupo ficou em silêncio.

Ela continuou:

Beatriz: — Quero dizer... é uma história perfeita. Bilionários, uma filha desaparecida... parece roteiro de filme.

Respirei fundo.

Não porque estivesse nervosa, mas porque pessoas pequenas costumavam fazer perguntas pequenas.

Olhei diretamente para ela.

Luana: — Você tem razão.

Ela sorriu, achando que havia vencido.

Continuei:

Luana: — Também acho curioso. Mas sabe o que acho mais curioso?

Ela franziu a testa.

Luana: — Uma mulher tão bonita precisa diminuir outra para conseguir chamar atenção.

O sorriso desapareceu.

Ninguém falou nada.

Aproveitei o silêncio.

Luana: — Eu perdi dezessete anos da minha família. Você perdeu apenas alguns minutos tentando me humilhar. Acho que sei quem saiu perdendo.

Dessa vez, ninguém conseguiu esconder as risadas.

Beatriz ficou completamente vermelha. Virou as costas e saiu sem responder, seguida pelas amigas.

Observei todas desaparecerem entre os convidados.

Foi então que ouvi uma voz conhecida.

Matheus: — Achei que você fosse abaixar a cabeça.

Virei.

Ele estava alguns metros atrás de mim, segurando um copo de uísque. Parecia ter acabado de chegar.

Luana: — Por quê?

Matheus: — A maioria das pessoas baixaria.

Sorri de lado.

Luana: — Eu não sou a maioria.

Ele me encarou durante alguns segundos, como se tentasse entender quem eu era ou por que eu era tão diferente de todas as mulheres que conhecia.

Matheus: — Boa noite, Luana.

Assenti.

Luana: — Boa noite.

Passei por ele sem esperar outra palavra.

Não olhei para trás.

Naquela noite, eu ainda não fazia ideia do que aquela festa provocaria. Para mim, Beatriz era apenas uma garota arrogante que eu provavelmente esqueceria em poucos dias, e Matheus continuava sendo apenas o noivo da minha irmã.

Mas, sem perceber, eu havia despertado duas coisas naquela noite: a inimizade de Beatriz e a curiosidade de um homem que parecia não gostar de não conseguir me entender.

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