capítulo 2

CAPÍTULO 2

LUANA

Acordei antes mesmo do despertador tocar e demorei alguns segundos para lembrar onde estava. O teto alto, as cortinas de linho, o quarto enorme e o silêncio absoluto fizeram com que tudo parecesse estranho. Nada daquilo parecia meu.

Levantei da cama, afastei as cortinas e encontrei uma vista que mais parecia um cartão-postal. O sol iluminava os jardins da mansão, enquanto alguns funcionários já trabalhavam do lado de fora. Tudo funcionava como um relógio, e cada pessoa parecia saber exatamente o que fazer.

Enquanto eu ainda tentava descobrir qual era o meu lugar naquela casa.

Depois de um banho rápido, vesti uma calça jeans, uma blusa branca e um tênis. Não fazia sentido colocar um vestido caro para tomar café da manhã.

Quando desci, encontrei meus pais sentados à mesa. Minha mãe abriu um sorriso imediatamente.

Mãe: — Bom dia, meu amor.

Ainda era estranho ouvir aquilo, mas respondi com um sorriso.

Luana: — Bom dia.

Meu pai fechou o jornal e se levantou.

Pai: — Dormiu bem?

Luana: — Melhor do que imaginei.

Ele pareceu aliviado.

Conversamos sobre assuntos simples. Nada de perguntas invasivas, nada de tentar recuperar dezessete anos em poucos minutos. Aquilo me agradou. Talvez fosse justamente disso que eu precisava naquele momento: tempo.

Pouco depois, a porta da sala foi aberta.

Matheus entrou usando um terno escuro, um relógio discreto e segurando as chaves do carro. Cumprimentou meus pais com naturalidade, e era evidente que já fazia parte da rotina daquela família. Mas não morava ali. Tinha vindo apenas buscar Camila para um compromisso.

Assim que nossos olhares se encontraram, ele fez um leve aceno com a cabeça.

Retribuí.

Nada além disso.

Camila apareceu logo em seguida, impecável como sempre. Beijou o noivo rapidamente e sentou-se ao lado dele.

Observei os dois por alguns segundos. Eles pareciam um casal perfeito: bonitos, elegantes e perfeitamente encaixados. Ainda assim, havia uma distância difícil de explicar entre eles, como se estivessem interpretando um papel que conheciam de cor.

Durante o café, Matheus participou pouco das conversas. Falava apenas quando necessário e parecia mais concentrado nos próprios pensamentos do que no que acontecia à mesa.

Quando terminou o café, levantou-se.

Matheus: — Preciso ir para a empresa. Temos uma reunião cedo.

Meu pai sorriu.

Pai: — Depois conversamos sobre o novo empreendimento.

Matheus: — Combinado.

Antes de sair, ele olhou rapidamente para mim.

Matheus: — Seja bem-vinda, Luana. Espero que encontre o que procura.

Sorri de lado.

Luana: — Também espero.

Ele foi embora, e eu tive a impressão de que aquela frase dizia muito mais do que parecia.

Depois do café, Camila insistiu em me mostrar o restante da propriedade. Passeamos pelos jardins, pela academia, pelo salão de festas e pela piscina. Ela falava sem parar, contando histórias da infância, mostrando fotografias e tentando incluir meu nome em lembranças das quais eu nunca fiz parte.

Não parecia falso. Pelo menos não completamente.

Em alguns momentos, quase conseguia acreditar que ela realmente queria construir uma relação comigo.

Até que chegamos ao antigo ateliê.

Era um pequeno prédio nos fundos da propriedade. As janelas estavam fechadas e havia uma fina camada de poeira sobre a porta.

Luana: — O que é isso?

Camila olhou rapidamente para o lugar.

Camila: — Era o ateliê da nossa avó. Ela fazia joias. Depois que morreu, ninguém mais entrou aí.

Olhei novamente para a construção.

Por algum motivo, senti vontade de abrir aquela porta. Havia alguma coisa naquele lugar que despertava uma curiosidade difícil de explicar, como se alguma parte de mim reconhecesse algo que minha memória não conseguia alcançar.

Mas preferi guardar aquela sensação para mim.

Quando voltávamos para a mansão, Camila quebrou o silêncio.

Camila: — Amanhã à noite tem uma festa na casa da Beatriz. Ela é uma das minhas melhores amigas. A cidade inteira vai estar lá.

Olhei para ela.

Luana: — Acho que esse tipo de festa não faz muito meu estilo.

Ela sorriu.

Camila: — Justamente por isso você deveria ir. As pessoas estão curiosas para conhecer você.

Respirei fundo.

Nunca gostei de viver tentando agradar desconhecidos, mas também não queria começar aquela nova vida criando problemas.

Luana: — Tudo bem. Eu vou.

O sorriso dela aumentou discretamente.

Por algum motivo, tive a sensação de que aquela resposta era exatamente o que ela esperava ouvir.

E minha intuição raramente errava.

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