O lobo assassino e a fêmea destinada
O lobo assassino e a fêmea destinada
Por: Lívia_V
capítulo 01

— Ajustem bem os vestidos, e não esqueçam de mostrar mais os seios. Os machos que vêm aqui querem ver as coisas. — Bercy, uma velha carrancuda de expressão séria, ordenou.

Ela se voltou para mim, o salão parecendo pequeno com seus olhos ríspidos em mim. Prontamente, segurou meu queixo e examinou meu rosto.

— Que machucado é esse em seu rosto, Rose?

Eliza, que estava no canto da sala, riu com as outras.

— Eu caí, tia Bercy.

— Caiu?

— Sim.

Ela bufou e olhou para Eliza, depois para mim.

— Quão destrambelhada você é para cair e se ferir assim?

— Sabe como ela é, tia Bercy. Sempre caindo, sempre se machucando. Sempre sendo a idiota. — zombou Eliza.

Apertei as mãos sobre o colo. Queria tanto quebrar os dentes dela, fazê-la sentir dor. Mas eu não podia. Ela havia deixado claro o porquê. Bercy se afastou.

— Não fique se machucando, Rose. Você é a joia preciosa do mestre Theodor. Eu não quero levar a culpa por nada.

Assenti.

— Hoje você ensinará as novatas sobre o salão. Explique a elas como funciona aqui. O que é esse lugar, Rose?

— Uma casa de prazer.

— Um prostíbulo — corrigiu ela, ríspida.

— Fale o nome certo.

— Sim, tia Bercy.

Ela se enrijeceu.

— E sem histórias tolas. Não encha a cabeça das novatas com mentiras. Ou você vai voltar para o porão.

Estremeci. Eu tinha medo. Tanto medo daquele lugar.

— Dispensadas.

Seguimos todas para cima. A noite seria cheia e longa. A grande lua cheia era o período onde os lobos mais vinham o desejo por liberação era intenso, quase necessário.

Enquanto subíamos as escadas, uma das meninas novatas se aproximou. Ela era pequena, de cabelos castanhos escuros. Tinha pena dela e das outras; aquele lugar era o inferno.

— Por que não contou para a tia Bercy que Eliza bateu em você?

Neguei com um leve sorriso, tentando ser casual.

— Não foi nada. Eliza sempre faz isso.

Eliza, na verdade, havia ameaçado trancar a jovem em um quarto com cinco lobos se eu a denunciasse, e eu não podia deixar que aquilo acontecesse. A menina segurou minha mão.

— Me conte uma história.

Abri um sorriso.

— Já ouviu falar sobre os companheiros destinados?

Ela negou com a cabeça.

— Companheiros são nossas almas gêmeas, nossos amores destinados pelos deuses desde o nascimento. Eles vivem por nós, nos salvam.

Chegamos até nosso quarto e começamos a arrumar as camas bagunçadas.

— Sabe como encontramos nosso companheiro?

Ela negou, sorrindo.

— Sentimos um arrepio na espinha, quase como um puxão. E então… sentimos um cheiro específico e quase ancestral.

A jovem parecia encantada com a ideia.

— Eu tenho fé que um dia meu companheiro virá me salvar dessa vida. Você vai ver… e o seu também.

Havia esperança em seus olhos sonhadores, e aquilo me alegrou mais que qualquer coisa.

— Companheiros? — Eliza zombou da porta. Sobressaltei.

— Isso não existe. Você sabe. É tudo mentira dela, garota. Vivemos em uma casa de luas e o reino está destruído. Você vai morrer aqui.

Vi o medo tomar conta da jovem. Me pus em sua frente.

— Deixa ela em paz, Eliza.

— Ah, ou você vai fazer o quê?

— Eu vou quebrar esses seus dentes tortos, sua vadia.

Sem pensar, ela partiu para cima de mim, pronta para me bater.

— Eliza! — uma voz rugiu da porta.

Ela parou no mesmo instante. Liam estava ali. Seus olhos azuis me encontraram. Suspirei.

— Saia daqui, Eliza. Ou meu pai vai saber que está agredindo sua favorita.

Eliza me encarou com ódio puro e sorriu.

— Você ainda vai perder. Quando seu ciclo chegar e você deixar de ser esquisita, vai servir lá embaixo. Vai se deitar com os lobos como todas as outras. E então… vai deixar de ser “especial”, vadia.

Engoli em seco. Tudo em meu corpo tremia. As palavras dela eram como lâminas.

— É o que veremos. — sussurrei.

Ela se foi. Liam me encarou.

— Obrigada, Liam. — disse antes que ele se fosse.

Devagar, ele se voltou para mim e assentiu. Eu odiava como ainda ficava vermelha em sua presença. Mas eu ainda tinha esperanças que ele… seria meu herói.

---

A noite caiu sobre a Casa de Luas, e lá embaixo eu já podia ouvir o som dos lobos chegando, todos ansiosos por desejo e luxúria.

Pus meu vestido e, em seguida, meu capuz sobre a cabeça. De repente, Theodor entrou no quarto. Sua postura elegante, rosto rígido e cabelos loiro-brancos. Aproximou-se de mim e tocou meu rosto.

— Como combinado de sempre, fique em seu canto. Se algum lobo se aproximar, converse com ele, deixe que ele sinta o cheiro do seu dom.

Minha garganta oscilou; um enjoo me tomou quando ele me tocou.

— E se ele me quiser, mestre?

— Não vai. Você é feia, magra, pálida. Mas eles gostam de conversar com você. E isso é bom. Vá. E não mostre seus cabelos.

As palavras dele já não me machucavam mais. Eu sabia meu lugar. E era bom não ter que me deitar com ninguém. Alguns lobos, às vezes, vinham até mim, mas só queriam conversar. E, por alguma razão, sentiam-se melhor em minha presença.

O salão estava cheio de machos; o cheiro de luxúria era forte e enjoativo.

Segui até meu canto no salão escuro, sentei-me em uma mesa vazia, como sempre. Após alguns minutos, um lobo se aproximou. Estava bêbado, alto e rústico. Sentou-se ao meu lado.

— Por que está de capuz, fêmea?

— É surpresa. — tentei brincar.

Ele tentou agarrar meu capuz, mas me afastei. O macho me fitou de cima a baixo. Seu cenho se franziu como se tivesse sentido algo. Estremeci; havia acontecido alguma coisa.

— Você tem um cheiro diferente, fêmea.

— É apenas…

— Venha.

Ele levantou-se com um sobressalto. Confusa, me empertiguei, buscando por Theodor. Aquilo nunca tinha acontecido. Ele agarrou minha mão, fazendo-me levantar.

— Espere, por favor.

— Não tem o que esperar. Eu quero você.

Do outro lado do salão, Eliza  no colo de um lobo, sorriu vitoriosa.

Aquilo… era um plano dela?

Tentei me afastar. Até que o macho parou de repente.

Alguém tomou sua frente. Talvez fosse Theodor, mas eu olhei  e não era.

Era uma figura alta, encapuzada. Ele se colocou entre nós, impedindo a passagem do macho.

— Sai da frente, caramba.

O estranho ergueu a cabeça, olhando diretamente para o que me segurava.

E algo quase ancestral gelou meu sangue.

Tudo em mim ardeu e paralisou.

— Eu quero ela.

Disse o estranho e sua voz fez todo o salão parar.

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