Mundo ficciónIniciar sesiónOs detetives Fred e Elis estão diante do caso mais desafiador de suas carreiras. Inicia-se a caçada a um psicopata que mata apenas escritores de romances policiais, da mesma forma que estes tiram a vida de seus personagens. O metódico assassino demonstra habilidade e inteligência acima da média, enquanto aumenta a contagem de mortos sem deixar uma pista sequer. Fred precisa não apenas lidar com a pressão do trabalho, mas também com os fantasmas que gritam em sua mente, assolando sua sanidade desde o sequestro de seu filho, que segue desaparecido há dois anos. Como se estes fardos não fossem pesados o suficiente, o detetive Borzagli carrega um segredo que afetará todos à sua volta, inclusive a investigação e seu futuro como policial. Em O Inverno dos Escritores Mortos, Miller Britto desafia o leitor a seguir as pistas, conduzindo-o por uma trama de mentiras e segredos funestos, que culminarão em um dos finais mais inimagináveis da história da ficção policial brasileira.
Leer másA LEMBRANÇA ERA VÍVIDA como se tivesse sido gravada recentemente e por alguma razão, Rodrigo acordou com aquilo em mente. Ele tinha quinze na época. Sua irmã era só alguns anos mais nova. Eles estavam na casa de praia da família no litoral Norte de São Paulo. Ambos estavam escondidos atrás do Bosendorfer negro e lustroso disposto no canto leste da sala. O piano de cauda havia sido um presente de um dos amigos alemães de seu pai e vez ou outra o homem austero gostava de arriscar algumas notas. Em especial quando não tinha ninguém prestando a atenção.
O risinho nervoso e surpreso de Carina quase denunciou a posição dos dois ali escondidos. Rodrigo conseguiu cobrir sua boca a tempo antes que seus pais percebessem que estavam sendo observados. De onde eles estavam, era possível ver os dois corpos suados sobre o sofá principal. Eram iluminados pelo luar que vinha da janela aberta. As cortinas esvoaçantes pela brisa da madrugada criavam um cenário propício para uma relação sexual intensa e era bem aquilo que estava acontecendo.
Os olhos de Carina se arregalaram quando a mulher posicionou uma das pernas no ombro do homem e ele prontamente voltou a cobrir a região de vastos pelos negros entre as pernas dela, emitindo um grunhido. Ambos estavam nus. Completamente alheios à presença dos dois filhos atrás do piano. Discretos, procuravam não emitir gemidos, embora a mulher, Marina, falhasse as vezes os deixando escapar. Rodrigo olhou para a irmã também incapaz de segurar a própria risada e logo em seguida, eles conseguiram sair da sala sem serem vistos. Seria difícil esquecer aquela imagem de seu pai engatado à sua mãe em sua lascívia. Pouco depois, num dos muitos quartos da casa, eles começaram a cochichar:
— Eles estavam pelados!
— E o que eles estavam fazendo parecia bem gostoso! A mãe tava até gemendo! — o risinho de Carina voltou a ecoar no quarto, no que Rodrigo a procurou silenciar colocando a mão sobre sua boca.
— Vai acordar o Lucas. Ele está no quarto ao lado!
Seus olhos grandes foram direcionados para a porta do aposento que se encontrava fechada. Então ela se desvencilhou da mão dele.
— O Lucas está no décimo sono uma hora dessas. Só temos nós acordados... e a mãe e o pai!
E novamente o risinho dela explodiu, num misto de nervoso e alegria.
Dava para ouvir as ondas do mar quebrando na praia dali do quarto. Uma luz azulada entrava pela fresta da janela entreaberta. A mesma brisa que soprava na sala da casa movimentava agora as cortinas. Rodrigo viu sua irmã cair na cama ainda a rir alto. Ela vestia uma blusinha curta mostrando a barriga e um short apertado. Seu pai havia adquirido aquela casa de praia isolada há pouco tempo por uma pequena fortuna e a família ainda estava excitada com a ideia de ter um refúgio particular à disposição sempre que eles quisessem. Os olhos de Carina fitaram os dele e sua mão alcançou sua coxa sobre a cama antes dela pedir dengosa:
— Dorme aqui comigo hoje? Não quero dormir sozinha!
Ele consentiu com a cabeça e sem dizer mais nada, se deitou ao lado dela, enlaçando sua cintura por trás. Enquanto ouviam as ondas irem e virem na praia, os dois relaxaram e dormiram, pensando em tudo que ainda podiam fazer juntos naquele paraíso perdido dos Monterey.
O Paraíso Perdido dos Monterey havia ficado para trás e Rodrigo precisava se apressar para chegar à sede da empresa que agora era controlada pelo pai. Aos cinquenta anos, Fausto Monterey havia galgado o degrau mais alto que um homem de negócios em sua posição social poderia chegar, mas enganava-se quem achava que para ele bastava. Agora acionista majoritário da Construtora Monterey, empresa que construíra na metade dos anos 80 junto dos sócios Marcelo Volfgang e João Suares, Fausto tocava o negócio com mãos de ferro apostando alto na evolução profissional dos filhos para que eles continuassem seu legado. Com a saída de João da posição de diretor comercial logo no início dos anos 2000, Fausto preparou Otto Albuquerque para ocupar seu lugar num dos cargos mais importantes da construtora, embora quisesse que Rodrigo assumisse num futuro próximo. Apesar de sua ambição e inteligência, Otto tinha uma visão agressiva demais para o mercado de construção atual e não era raro que ele e Fausto acabassem se estranhando. Enquanto os números de faturamento caíam por causa de uma ou outra atitude pouco ponderada de Otto nas negociações, as brigas eram mais frequentes e Fausto precisava de alguém mais flexível que o sócio naquela posição. Seu filho mais velho era perfeito para o cargo.
— Estou atrasado para caramba!
Rodrigo acordou sozinho na imensa cama king size de seu quarto no apartamento que pertencia à sua família e logo deu-se conta que estava a quarenta minutos de levar uma bronca caprichado do pai. A reunião marcada para aquela manhã começaria em breve mesmo que ele não tivesse presente, mas sua cadeira vaga à mesa da sala de reuniões lhe custaria caro. Enquanto jogava chaves, carteira e celular nos bolsos, ele tomou o elevador e foi amarrando o cadarço do sapato lustroso à medida que o mostrador luminoso exibia os números de andares em ordem decrescente. Quando chegou ao subsolo, correu em direção ao Jeep Renegade que havia ganhado do pai e mesmo amarfanhado, com os cabelos despenteados, tocou em direção à Construtora Monterey.
— Eu estou muito ferrado!
Para azar de Rodrigo, o trânsito àquela hora era intenso na via de acesso ao prédio de quarenta andares onde ficava situada a empresa e enquanto ele parava mais uma vez o carro no engarrafamento, seus dedos buscaram o contato da secretária de seu pai no celular. Depois de duas chamadas, ela atendeu.
— Natasha? A reunião já começou?
— Já estão todos na sala de reuniões, Rodrigo. A Cinthia já está servindo o cafezinho para os acionistas. Onde você está?
— No trânsito. — respondeu prontamente — Está um engarrafamento monstruoso aqui na marginal. Estão falando algo sobre um acidente e…
— Seu pai está me encarando nesse momento. Ele sabe que é você ao telefone. O que eu digo?
— A verdade.
— Posso falar então que você acordou atrasado mais uma vez e que não conseguiu sair de casa mais cedo para evitar o engarrafamento? Ok.
A ligação ficou muda e em seguida ele sentiu um frio tomar seu estômago. Não era bem aquele tipo de verdade que ele gostaria que ela contasse a seu pai.
Quando ele conseguiu chegar à construtora, a reunião para decisão das novas estratégias de venda já havia se encerrado e ele encontrou Natasha no corredor da sala de conferência dando algumas instruções para dois estagiários de TI. Ela segurava um tablet e mostrava alguns diagramas de rede para o menino, que aparentava seus dezoito anos e a menina, um pouco mais nova. Quando o viu ali sem jeito no meio do corredor, como que sem saber o que fazer, ela deu um sorrisinho debochado.
— Vejam só quem conseguiu chegar DEPOIS do horário marcado! Essa é o que? A quarta? Quinta vez que você se atrasa para uma reunião importante? — embora estivesse direcionando seu comentário a ele, Natasha parecia olhar ao seu redor se certificando que mais ninguém ouvia. O casal de estagiários já havia se afastado e poucas pessoas ainda circulavam naquele corredor. Ela se aproximou dele e ajeitou a gola da sua camisa social que estava desarrumada.
— Eu vacilei, eu sei. Já entendi. Não precisa debochar.
— Eu nunca debocho. Sabe que quero o seu bem. Só que não vou conseguir passar um pano pra você sempre, rapazinho. — agora ela ajeitava os cabelos dele com um sorriso cínico estampado no rosto.
Natasha estava usando seu traje padrão de escritório sem o paletó por cima e os olhos de Rodrigo desviaram levemente para os dois botões ligeiramente abertos da blusa da moça. Havia pouco a se ver por cima do decote discretíssimo, mas isso não deteve seus olhos vorazes. Ela usava um par de óculos de armação finíssima e seus cabelos loiros estavam presos num rabo de cavalo. Seus lábios umedecidos com um gloss discreto se moveram lentamente quando ela abriu um sorriso largo no rosto belo.
— Como assim “passar um pano”? — questionou ele.
— Seu pai o está aguardando na sala de reuniões. Falei que você não estaria presente nessa reunião de vendas porque ia cuidar pessoalmente do encontro com a equipe da agência de publicidade que vai ficar a cargo do novo projeto de marketing digital da Monterey.
— Eu vou? — Rodrigo fez cara de surpresa, sentindo-se totalmente por fora do que a moça dizia.
— Vai. A equipe deve chegar na próxima hora e você vai cuidar dela. Direitinho. — Natasha voltou os olhos para a tela do tablet em suas mãos e após fazer alguns gestos rápidos com os dedos no pequeno painel, voltou sua atenção a ele. — Acabei de te enviar por e-mail todo o projeto que nossos técnicos em marketing planejaram. Você tem alguns minutos para estudar antes que a equipe chegue.
A loira piscou-lhe o olho e em seguida começou a retirar-se, caminhando elegantemente com as pernas longas e torneadas à mostra dos joelhos para baixo. Rodrigo estava muito grato a ela pela “passada de pano” e enquanto ele acompanhava o movimento de suas nádegas dentro da saia cor de chumbo, sua voz ecoou quando ela chegou ao fim do corredor, de frente para o elevador que a levaria para o andar inferior:
— Seu pai ainda está esperando.
Rodrigo entrou na sala de reuniões procurando passar tranquilidade, e logo encontrou o pai analisando alguns relatórios impressos, ocupando a cadeira central da longa mesa envernizada. Os cabelos grisalhos eram proeminentes agora na cabeça e o cavanhaque espesso no rosto acompanhava o tom acinzentado da cabeleira. Por um breve instante, ele lembrou que os mesmos cabelos ainda eram bem negros naquele dia na casa de praia. No sofá. Com sua mãe. Ela com uma das pernas sobre seu ombro. Que coisa terrível de lembrar agora, pensou, incomodado.
— Está preparado? A equipe de publicidade deve chegar logo. — seu tom de voz era firme mesmo quando ele falava calmamente.
— Estou sim, claro. Não se preocupa. — seus olhos desviaram um segundo para a tela do seu celular onde ele conferia o e-mail enviado por Natasha. Como diabos vou estudar tudo isso em tão pouco tempo? Por algum momento, percebeu que não estava se dedicando suficiente a assumir os negócios da família.
EpílogoAlguns dias depois O sol brilhava com intensidade sobre as alamedas que constituíam o cemitério. Luís seguia oferecendo ajuda ao amigo, que manquitolava com o apoio das muletas. -Eu preciso fazer isso, cara. Preciso me virar sozinho – insistia Bernardo. -Tudo bem. Não está mais aqui quem falou. -E se me chamar de saci de novo... -Não fui eu quem disse isso, foi você mesmo – defendeu-se Luís. Quando se aproximaram do túmulo de Bárbara, a alegria de ambos cessou, pontuada pela dor ainda latente de sua enorme perda.Havia mais alguém por ali, de costas para eles. Luís reconheceu a silhueta alta e esguia de Pedro. -Então era isso. Aposto que você armou esse encontro – disse Luís. -Vocês precisam conversar – Bernardo falou alto o suficiente para chamar a atenção do cirurgião, que desviou o olhar da lápide de Bárbara e se voltou para os dois. Sua expressão era de pura tri
Capítulo 22 Bernardo olhava desconsertado para aquela cena hedionda. Luís estava de pé sobre um banco de plástico, apoiava-se na ponta dos dedos. A corda enlaçada em seu pescoço precisava de apenas alguns poucos centímetros para roubar-lhe o ar. Ao lado dele estava Fernanda, com uma arma apontada para o recém-chegado. A moça sorriu com entusiasmo. -Bernardo! Que bom que você veio. Eu estava triste e decepcionada por ter que terminar tudo sem ter ninguém para assistir ao gran finale. -Fernanda, o que você está fazendo? – ele deu um passo em direção à moça, que apontou a arma para o seu peito. -Estou concluindo minha obra de arte. Já vejo a Rede Globo preparando um roteiro cinematográfico sobre a minha vida. Pensando bem, por que não Hollywood? Warner ou Paramount? -Fernanda, pare com essa loucura. Abaixe a arma. -Na verdade, a Fernanda não está aqui agora – ela coçou a cabeça com o cano da a
Capítulo 21 Bernardo dirigia de forma automática. As luzes da cidade adormecida passavam por ele em alta velocidade, deixando rastros cintilantes na escuridão da noite. Com apenas uma das mãos no volante, desenhando vez ou outra um arriscado ziguezague na pista, Bernardo discava incessantemente para o telefone de Luís, mas o resultado era sempre o mesmo, o aparelho chamava até cair e a moça da operadora de telefonia lhe saudava com a habitual e irritante felicidade na voz, convidando-o a deixar um recado. Quando freou e estacionou na rua da livraria, ficou surpreso ao encontrar luzes acesas àquela hora da madrugada. Já estava se preparando para arrancar Luís da cama, mas o amigo parecia estar acordado. “Será que estou imaginando coisas? Será que estou errado? Não, não pode existir no mundo tamanha coincidência.”Bernardo tentou enxergar o interior da livraria através do painel de vidros, colocando-se entre os cartazes de promoção que anu
Capítulo 20 Fred tentava ao máximo disfarçar sua irritação. Ele tomou um longo gole do “elixir secreto” que ficava no bolso interno de seu sobretudo antes de abrir a porta de sua sala para Luís, que o cumprimentou com uma expressão abatida. -Venha comigo, vamos conversar em um lugar mais reservado, aqui não teremos sossego – pediu o detetive, que saiu da sala depois de pegar uma das pastas no arquivo. Ele guiou o rapaz até a sala de interrogatórios, entrou e trancou a porta atrás de si. -Deve ser mesmo algo muito importante o que você tem pra me dizer – reagiu Luís ao ranger metálico da fechadura. -Tenha certeza de que é. O rapaz tomou a cadeira do outro lado da mesa. O detetive se manteve de pé, e, por algum tempo, apenas observou Luís. “Assassino, assassino!” -E então? – incentivou Luís, mas Fred seguiu apenas encarando o rapaz por mais alguns longos segundos. -Acho que você v
Capítulo 19-Será que dá pra você parar de ficar andando de um lado para o outro, Fred? Já está me deixando nervosa – pediu Elis.Sentada de frente para o seu PC, com a cabeça apoiada nos dedos, a detetive observava as imagens trazidas pelo parceiro. Ao seu lado, Rogério e Flávio espichavam os pescoços a fim de também conseguirem enxergar a tela.-Em nenhum momento ele se aproxima dos computadores – observou Elis.-Ele pode ter acessado pelo celular, dá na mesma se ele estiver usando a rede wifi da lan house – explicou Flávio, especialista no assunto – pelo tempo em que ele ficou com o aparelho em mãos, é provável.-Muito bem, o que fazemos então? – perguntou Elis – Isso aqui não prova absolutamente nada. Ele vai alegar que frequenta o lugar e não podemos prendê-lo por isso.-Desgraçado, desgraçado – Fred seguia murmurando para si mesmo, enquanto continuava com sua caminhada enlouquecida pela sala de Elis, que era muito mais limpa e organizada que a sua.-Fred! Que porra! Dá pra você
Capítulo 18 A delegacia estava movimentada. As pessoas passavam apressadas de um lado para o outro. Maciel tinha se trancado em sua sala e não recebia ninguém. Algumas pessoas comentavam que ele bateu a porta com força, assim que seu telefone tocou, e não mais a abriu. -Fred, por que você não vai pra casa e descansa? – sugeriu Elis. Faltavam poucas horas para amanhecer – Deixa o pessoal da perícia trabalhar. Acredito que dessa vez o desgraçado tenha deixado alguma coisa para trás. Nós devemos ter assustado ele. -Isso não aconteceu. -Como você pode saber? -Eu apenas sei – insistiu o detetive – acho que ele estava limpando a casa quando chegamos. O barulho que o seu Norberto ouviu deve ter sido de um aspirador de pó usado pra se livrar de fios de cabelo. Eu consigo imaginá-lo limpando cada superfície com a qual teve contato. O pessoal do Rogério não vai achar nada. -Deixe de ser pessimista, Fred. -Estou
Último capítulo