Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 7 — Cada Vez Mais Difícil
Três dias. Era esse o tempo que Maya trabalhava na Beaumont Holding. Em apenas setenta e duas horas, já havia decorado o nome de boa parte dos funcionários da presidência. Sabia quem chegava cedo. Quem sempre esquecia o crachá. Quem gostava de café sem açúcar. E quem fazia questão de conversar alguns minutos antes de subir para as reuniões. Patrícia observava tudo com um sorriso discreto. — Você aprende muito rápido. Maya sorriu. — Sempre precisei aprender. — Dá para perceber. Você nasceu para lidar com pessoas. Maya apenas agradeceu. Nunca havia pensado dessa forma. Só fazia o que considerava certo. Receber bem. Ouvir. Ajudar. Sorrir. … No mesmo instante… As portas do elevador privativo se abriram. Nicolas saiu acompanhado de dois investidores estrangeiros. Assim que o viu, Maya levantou-se imediatamente. — Bom dia, senhor Beaumont. Ele respondeu com um leve movimento de cabeça. — Bom dia. Os investidores continuaram conversando. Mas Nicolas percebeu uma coisa. Ela sorriu para ele… Exatamente da mesma maneira que sorrira para o segurança minutos antes. Exatamente igual ao sorriso oferecido ao rapaz da manutenção. Ao motorista. Ao diretor financeiro. Era o mesmo sorriso. Para todos. Sem distinção. Sem favoritismo. Sem qualquer intenção além da educação. Ele continuou caminhando. Mas uma pergunta insistiu em surgir novamente. Será que ela realmente sorria daquele jeito para qualquer pessoa? E, pela primeira vez… Nicolas percebeu que queria descobrir a resposta. Nicolas entrou na sala de reuniões. Os investidores continuavam discutindo números, projeções e novos contratos. Ele ouvia. Respondia. Argumentava. Mas, pela primeira vez em anos… Precisava se esforçar para manter a atenção. Enquanto um dos executivos apresentava os resultados do trimestre, seus pensamentos voltaram, involuntariamente, para a recepção. Ela sorri para todo mundo. A frase surgiu novamente. Incomodando-o mais do que deveria. — Senhor Beaumont? Ele ergueu os olhos. — Perdão. Pode repetir o último percentual? O executivo repetiu os números. Nicolas retomou a reunião como se nada tivesse acontecido. Ninguém percebeu. Ninguém, além dele mesmo. … Enquanto isso… Na recepção… Maya organizava alguns documentos quando um senhor de idade aproximou-se do balcão. Parecia um pouco perdido. — Com licença, minha filha… A reunião da doutora Elisa é em qual andar? Maya consultou rapidamente o sistema. — Décimo quarto andar, senhor. Mas ainda faltam quinze minutos. O senhor gostaria de esperar sentado? — Ah… agradeço. Esses corredores são um labirinto. Ela sorriu. — Eu acompanho o senhor quando estiver perto do horário. Assim o senhor não corre o risco de se perder. Os olhos do homem se iluminaram. — Muito obrigado. Você é muito gentil. — Não precisa agradecer. Faz parte do meu trabalho. Patrícia observava a cena à distância. Sorriu discretamente. Era exatamente assim desde o primeiro dia. Maya não fazia distinção entre ninguém. Tratava o presidente da empresa… E um visitante idoso… Com o mesmo respeito. … Quase uma hora depois… A reunião finalmente terminou. Os investidores deixaram a sala acompanhados por dois diretores. Nicolas caminhava logo atrás. Assim que passou pela recepção… Ouviu uma risada. Olhou instintivamente. Maya conversava com um rapaz do setor de tecnologia. Ele devia ter pouco mais de trinta anos. Os dois riram de alguma coisa. O rapaz despediu-se. — Obrigado, Maya. Até mais. — Até mais, André. Tenha uma boa tarde. Ele entrou no elevador ainda sorrindo. Nicolas diminuiu o passo. Quase imperceptivelmente. André. Ela já sabia o nome dele. Franziu discretamente a testa. Há três dias ela trabalhava ali. Como já conhecia tantas pessoas? Continuou caminhando. Mas a pergunta permaneceu em sua mente. Ela decorou o nome dele… Lembrou-se de quando entrou pela primeira vez no Café Firenze. Naquele dia… Ela também parecia conhecer todos os clientes. Sabia o pedido de cada um. Chamava muitos pelo nome. Aquilo fazia parte dela. Mesmo assim… Uma sensação estranha apertou seu peito. Ele não gostou de ver outro homem fazendo Maya rir. Não fazia sentido. Não tinha direito algum de se incomodar. Nem sequer conversara com ela por mais de alguns segundos. Ainda assim… Incomodava. Muito. … Já dentro de sua sala… Nicolas largou a pasta sobre a mesa. Afrouxou discretamente a gravata. Apoiou as duas mãos na madeira escura. Fechou os olhos. — Isso precisa acabar… Mas, no fundo… Sabia que estava perdendo essa batalha. Porque, quanto mais tentava ignorá-la… Mais atento ficava a cada detalhe. Ao sorriso. À voz. À maneira como prendia uma mecha de cabelo atrás da orelha enquanto trabalhava. E aquilo… Começava a assustá-lo.






