Mundo de ficçãoIniciar sessão
Miami, 2h47 da manhã, e eu continuo sentada à mesa do meu apartamento minúsculo, com os olhos presos no extrato bancário aberto diante de mim há horas, como se encarar aquelas mesmas linhas repetidas vezes pudesse, em algum momento, fazer o número diminuir ou o prazo se estender por conta própria, mas nada muda, absolutamente nada muda, e a palavra “LEILÃO” continua ali, gritando em vermelho no canto superior do papel amarelo, implacável, definitiva, como uma sentença que não admite recurso, como se já estivesse decidido muito antes de eu sequer ter a chance de tentar impedir.
Trinta dias.
O prazo está ali, fixo, inegociável, e cada vez que meus olhos encontram aquela data sinto o peito apertar um pouco mais, como se o ar ficasse curto demais dentro de mim, porque trinta dias é tempo demais para desesperar e tempo de menos para resolver, trinta dias para encontrar um valor que não cabe no meu salário, não cabe se eu vender o carro velho que mal anda, não cabe se eu pedir ajuda para parentes que já me ajudaram até não poder mais, não cabe nem se eu trabalhar até esquecer completamente o que é dormir, e ainda assim é o tempo que eu tenho para dizer para a minha mãe que a casa onde ela vive há quarenta anos, o quintal onde aprendi a andar de bicicleta, a varanda onde meu pai fumava escondido fingindo que a gente não sabia, agora tem prazo para deixar de ser nossa, para deixar de existir do jeito que sempre existiu.
Minha mão aperta o copo de água vazio ao lado do extrato e só então percebo o quanto meus dedos estão tensos, quase doloridos, como se segurar aquele vidro fosse o suficiente para manter o resto no lugar, como se alguma coisa ainda dependesse de mim, mas não depende, nada disso se sustenta, nada responde ao esforço, e o silêncio do apartamento pesa mais do que deveria enquanto eu desvio o olhar para a pilha de contas ao lado, tantas que já não cabem direito no envelope amarelo do banco, algumas ainda fechadas, outras abertas, todas iguais, todas carregando o mesmo peso, todas dizendo a mesma coisa antes mesmo de eu ler: atraso, risco, leilão.
Eu já sei cada palavra.
Já sei até o tom da voz que repete tudo isso do outro lado da linha, sempre igual, sempre distante, sempre neutra demais, como se não houvesse ninguém ouvindo, como se não existisse desespero atravessando o fio, como se a vida de alguém não estivesse prestes a desmoronar em silêncio do outro lado, como se fosse só mais um número, só mais um processo, só mais um caso que vai seguir o curso normal até desaparecer.
Mas não desaparece.
Nada disso desaparece.
“Vai sobrar pra você quando eu morrer.”
A voz do meu pai vem como se ele ainda estivesse aqui, rindo, com o cigarro entre os dedos e aquela tranquilidade absurda de quem acredita que sempre vai haver tempo, como se o futuro fosse uma garantia, como se o amanhã fosse uma extensão automática do hoje, e eu lembro de rir junto, porque ele estava vivo, porque parecia impossível que aquilo pudesse acabar, porque a ideia de responsabilidade sempre ficava distante, sempre adiável, sempre resolvível depois.
Mas o depois chegou.
E falhou.
Ele morreu numa terça-feira qualquer, sem aviso, sem tempo para organizar nada, sem tempo para explicar, sem tempo para consertar o que ficou, e o que antes era só um número guardado em alguma gaveta saiu de lá e se espalhou, tomou forma, ganhou peso, ganhou prazo, ganhou urgência, e se transformou nisso, nesse papel aberto diante de mim, nessa palavra em vermelho, nesse peso constante que não me deixa esquecer, nem por um segundo, que o amanhã continua existindo, só não do jeito que a gente acreditava.
Cinco anos se passam e eu continuo pagando o que ficou, ajustando tudo o que dá, cortando tudo o que parece dispensável até quase não sobrar mais nada, vivendo dentro de limites cada vez mais estreitos, como se a vida estivesse sendo comprimida aos poucos, sem espaço para erro, sem espaço para imprevistos, sem espaço para descanso, só trabalho, contas, escolhas calculadas e o silêncio constante deste apartamento pequeno onde tudo parece provisório demais, frágil demais, como se qualquer coisa pudesse desmoronar com o menor descuido.
E agora está desmoronando.
Mesmo com tudo.
Mesmo depois de tudo.
O telefone está ao meu lado e eu penso em ligar para a minha mãe, mas paro antes mesmo de desbloquear a tela, porque não existe forma de dizer isso em voz alta, não existe maneira de organizar as palavras sem que elas se tornem reais demais, definitivas demais, porque enquanto está só na minha cabeça ainda existe alguma margem, alguma ilusão de controle, mas se eu disser, se eu colocar isso entre nós duas, então acabou, então não tem mais volta, então não é mais um problema meu — é uma realidade dela também.
E eu não consigo fazer isso.
Ainda não.
Então eu deixo o telefone ali, intocado, como se ignorar pudesse adiar, como se o silêncio fosse uma forma de proteção, mesmo sabendo que não é, mesmo sabendo que o tempo não depende de mim, que o prazo continua correndo com ou sem decisão, com ou sem coragem.
Fecho os olhos por um instante e apoio a cabeça na cadeira, mas o silêncio não alivia, ele só se torna mais presente, mais denso, mais difícil de ignorar, preenchido pelo tique-taque distante do relógio da cozinha, pelo zumbido contínuo da geladeira, pelo som abafado da cidade que nunca para completamente, e pela minha própria respiração, irregular, presa, como se até isso estivesse desalinhado, como se o meu próprio corpo já não soubesse mais funcionar direito sob esse peso.
Eu deveria ter resolvido antes.
O pensamento vem rápido, automático, cortante.
Eu deveria ter feito mais.
Deveria ter previsto.
Deveria ter evitado.
Mas não evitei.
E agora não importa mais o que eu deveria ter feito, porque o que existe é isso, esse momento parado no meio da madrugada, esse prazo que não se move, essa sensação constante de estar atrasada para algo que já começou a acontecer sem mim.
Quando abro os olhos novamente percebo que a luz do lado de fora já começa a mudar, primeiro quase imperceptível, depois mais clara, desenhando a linha do horizonte entre os prédios, até que o dia começa a se impor, inevitável, invadindo o apartamento sem pedir permissão, trazendo com ele a certeza de que o tempo continuou avançando, com ou sem resposta, com ou sem solução, com ou sem qualquer plano que faça sentido.
Eu continuo aqui.
O papel continua aberto, o prazo continua o mesmo.
E nada, absolutamente nada, dá sinal de que pode ser diferente.
A noite passou.
E o prazo continua.







