Os dias passavam em um ritmo constante para Cassie. Cada noite como garçonete no Burlesque Club era uma aula não oficial: observar os movimentos das dançarinas, ouvir as notas das músicas, memorizar as coreografias.
Peter, sempre gentil, tornara-se um aliado silencioso, dando dicas de ritmo, pequenos detalhes do palco e da atenção do público. Chay, a dona do clube, ainda a olhava com desconfiança. Mas a persistência de Cassie era imbatível: a cada sorriso, a cada gesto cuidadoso, a cada iniciativa para ajudar, ela demonstrava que não era apenas mais uma novata do interior. — Você vai conseguir, Cassie — Peter sussurrava em uma noite, entregando-lhe uma bandeja de drinks. — Só precisa de sua chance. Ela assentia, olhos brilhando de esperança. Cada apresentação que assistia era absorvida como um estudo silencioso, memorizando o ritmo, os passos, a respiração da música, a entrega de cada dançarina. Sabia que seu momento chegaria; era apenas uma questão de coragem e oportunidade. Naquela noite, Mason e Yohan decidiram se sentar em uma das mesas mais discretas do clube. Haviam observado Cassie durante semanas, sempre à distância, estudando seus hábitos, cada gesto, cada reação aos desafios do novo ambiente. Mason se mantinha rígido, analisando e calculando cada movimento, enquanto Yohan se perdia na fascinação silenciosa por ela. A cidade, a música, a luz das lâmpadas e o aroma da multidão nada mais eram que pano de fundo para o cheiro, o magnetismo que apenas eles podiam perceber. O show começava como sempre, cheio de cores, plumas e ousadia. A plateia animada aplaudia, alguns sussurrando entre si, outros bebendo e conversando. Cassie circulava entre as mesas, servindo drinks com cuidado, absorvendo a energia do lugar, cada olhar do público, cada detalhe do palco. Foi então que Michelle, uma das principais dançarinas, chegou ao clube visivelmente embriagada. Seu andar cambaleante e o riso alto despertaram a atenção de Chay, que rapidamente a impediu de entrar. — Vá para casa, Michelle! — Chay ordenou, a voz firme, quase imperativa. — Você não pode se apresentar assim. A preocupação de Chay não era apenas com o show, mas com a logística. Michelle desempenhava um papel central, e a noite precisava continuar sem falhas. Cassie, observando a situação, respirou fundo. Sabia que era sua oportunidade. Aproximou-se da dona do clube com passos firmes, olhos brilhando de determinação. Ela tinha feito uma audição de dança dias atrás e Chay disse a encaixaria em um número, mas continuava servindo mesas. Ela precisava agarrar a chance. — Eu sei todos os papéis do show — disse ela com segurança, a voz firme, mas carregada de entusiasmo. — Posso substituir a Michelle esta noite. Chay franziu o cenho, descrente. Cassie era nova, vinda do interior, e a ideia de que ela pudesse dominar a coreografia soava quase impossível. Ainda assim, algo na determinação da garota fez Chay hesitar. — Está bem — murmurou Chay, os braços cruzados. — Mas não estrague o show. Vá se trocar. Cassie subiu no palco com o coração disparado, cada músculo tenso de emoção. A iluminação incidia sobre ela, destacando a ousadia do figurino burlesco — provocante, e perfeitamente ajustado ao espírito do show. A meia-calça arrastão preta, saltos finos bem altos, maquiagem com destaque nos lábios vermelhos e olhos escuros. Ela usava um tipo de short curto bem colado e cavado que mostrava bem as coxas firmes das horas de ensaio. O body preto abraçava seu tronco e impulsionava os seios no decote. Ela estava extremamente sexy naquela roupa que fazia referência a uma policial com um quepe sobre os cabelos negros em ondas. A música começou, e ela se entregou com confiança, cada passo sincronizado, cada gesto carregado de intenção, cada olhar dirigido à plateia com precisão. Michelle, observando dos bastidores, não podia acreditar. A garota havia ousado roubar seu papel e, irritada. Ela subiu até a mesa de som e com uma mentira, sabotou, silenciando a música tentando impedir que Cassie brilhasse. As apresentações eram dubladas, as meninas de Chay não cantavam, a menos que a própria estivesse no palco, não era ao vivo. Algumas dançarinas de intimidaram com o silêncio e toda a platéia olhou. Mas Cassie não hesitou. Tomou um fôlego profundo, deixando que a música fluísse através dela, e começou a cantar, voltando a dançar e estimulando as demais. A voz de Cassie preenchia o espaço com força e clareza, alcançando graves profundos e agudos cristalinos com naturalidade surpreendente. Cada nota transmitia emoção, cada palavra carregava intensidade, e a plateia ficou hipnotizada. Alguns espectadores começaram a cochichar, admirados com o talento inesperado. Do outro lado do clube, Mason e Yohan estavam completamente absorvidos. Nenhuma mulher ao redor chamava sua atenção; nenhum detalhe do palco, nenhum movimento de dança, conseguia competir com a presença de Cassie. Seus olhos verdes fixos nela, Yohan suspirava mentalmente, fascinado pelo magnetismo da jovem. — Ela… — murmurou Yohan, a voz carregada de admiração e desejo. — É incrível. Mason permaneceu em silêncio por um instante, o corpo rígido, o instinto queimando com intensidade que não sentia há séculos. O desejo de levá-la imediatamente, de protegê-la, de ter certeza de que nada poderia machucá-la, atravessava sua mente e seu coração, chocando-se com a lembrança de Savannah. A lembrança da esposa perdida ainda o consumia, mas agora, diante de Cassie, sentia um fogo novo e impossível de ignorar. Cassie girava, cada movimento calculado, cada gesto ousado, incorporando o burlesco com naturalidade. Cada nota cantada aumentava o impacto da performance, cada olhar dirigido à plateia reforçava sua confiança. Ela não era apenas uma substituta; naquele momento, era a estrela da noite. Peter observava, sorrindo discretamente. — Eu disse que você conseguiria — murmurou, satisfeito. — Agora a Chay não terá escolha. De fato, Chay ficou boquiaberta, impressionada com a entrega e o talento da garota. Cada gesto, cada passo e cada nota cantada desmontava sua desconfiança inicial. Cassie provava, naquela apresentação única, que não era apenas uma jovem do interior com sonhos grandes; era uma artista completa, pronta para qualquer desafio. Yohan enviou uma onda de pensamento a Mason, quase implorando: — Precisamos levá-la. Agora. Antes que alguém mais perceba o quanto ela é especial. Mason respirou fundo, a mente em conflito. — A missão vem primeiro — retrucou mentalmente, o instinto protetor combatendo o desejo ardente. — Mas ela é necessária… muito mais do que apenas uma artista. O show terminou com uma salva de palmas ensurdecedora. Cassie, ofegante, ainda vibrando com a adrenalina da performance, desceu do palco. Peter a cumprimentou com entusiasmo, Chay assentiu, finalmente convencida da coragem e talento da jovem. Enquanto Cassie caminhava de volta ao bar para atender os clientes, Mason e Yohan trocaram um olhar. Ela não apenas tinha sobrevivido ao teste da noite; havia conquistado, com voz, presença e ousadia, o coração daqueles que a observavam, inclusive os dois shifters. O desejo em Mason queimava como uma chama intensa, incontrolável, lembrando-o dolorosamente da impossibilidade de entregar seu coração por completo. Yohan, em contraste, se permitia sonhar, imaginando cada detalhe de sua aproximação, cada instante em que poderiam finalmente falar com ela, tocá-la, protegê-la sem barreiras. — É hoje — determinou.