— Meu nome é Lary… Lary Josephine. A gente éramos bons amigos.
Átila levantou-se abruptamente e saiu em prantos.
Ela não compreendeu tudo o que fora dito naquele momento, mas o desespero em seu peito denunciava seu amor — e talvez o arrependimento por não ter aproveitado o último dia em que o viu. Cada palavra parecia chegar tarde demais.
Quando chegou em casa, não conseguia respirar direito. O ar faltava, o mundo girava, e o silêncio se tornava ensurdecedor.
Naquele mesmo dia, Aquila vibrava com a notícia de que seu amigo havia conseguido o tão aguardado transplante. A alegria era real, intensa… até o momento em que soube da tragédia. Sua expressão mudou de imediato e o entusiasmo se transformou em choque.
Depois daquilo, não houve mais alegria para Átila.
Dia após dia, ela se trancava no quarto. Seu luto começou ali, naquele instante silencioso em que o mundo deixou de fazer sentido. Ela vivia das memórias que restaram — e até daquelas que nunca chegaram a existir.
Sonhava noite após noite com Alex. Em seus sonhos, ele ainda sorria, ainda a chamava pelo apelido, ainda estava vivo. Acordar era sempre a pior parte. A tristeza parecia não ter fim.
Lauryn já não conseguia fazê-la se alimentar. O prato permanecia intacto, assim como o olhar vazio da filha.
Marcou sessões com um psicólogo, mas Átila só conseguia chorar. Não falava, não reagia, apenas desabava. Começou a se medicar, mas não da forma correta, tentando silenciar a dor à própria maneira. Dois meses depois, veio o diagnóstico inevitável: depressão.
Aquila nunca a deixou sozinha. Como o irmão cuidadoso que sempre fora, dormia no quarto de Átila — ou fingia dormir, apenas para estar ali. Observava sua respiração, seus silêncios, seus tremores. Cuidava dela a cada segundo. Perdeu metade das aulas na faculdade, atrasou prazos, mas não desistiu.
A felicidade dele também havia sido atropelada pelo luto. Em um dia comum, ao tomar banho, Átila teve um momento de descuido — ou talvez de desespero. Dominada por pensamentos sombrios, ingeriu toda a caixa de remédios.
— Mãããe! Corre aqui! — gritou Aquila, com a voz rasgada pelo pânico.
Ao ver Átila caída no chão, o coração de todos parou. Por um instante cruel, pensaram que ela também havia partido.
Em um raro ato de lucidez e desespero coletivo, chamaram a emergência. O alívio percorreu aquela casa em forma de lágrimas quando ouviram:
— Ela, por sorte, sobreviveu — disse o médico.
Naquela altura, ao voltar para casa, começava oficialmente uma vida sem Alex. Uma vida que ela não havia escolhido. E, mesmo assim, a escuridão que perseguiu Átila não desapareceu.
O Capítulo do Apoio
Ao acordar, Átila percebeu que o quarto estava diferente. Havia chá na mesa do café da manhã. O ambiente parecia mais claro, mais cuidadoso. À sua frente, estava seu psicólogo, Arth Maia.
Sobre a mesa, um diário em branco e algumas folhas de desenho.Átila já não era mais a mesma menina. Seu olhar carregava dor, cansaço e um desespero silencioso.
Sentou-se, respeitando o pedido do psicólogo. Desenhou como se sentia — linhas confusas, traços trêmulos — e começou a escrever no diário, derramando palavras que nunca conseguiu dizer em voz alta.
Passou a frequentar um grupo de apoio, onde conheceu pessoas com histórias parecidas: perdas profundas, dores cruas, amores que nunca puderam ser vividos por completo. Aos poucos, foi se adaptando.
No mês seguinte, começou a sentir uma presença constante. Familiar. Inconfundível. Como se Alex ainda estivesse ali.
( Com Zaac)
Na faculdade, Zaac era o homem mais feliz do mundo. Aquila havia retomado os estudos, seguira em frente — assim como sua irmã tentava fazer.
Não houve comentários sobre a carta. Assim que Zaac acordou, ficou comprovado que ela era autêntica: o último desejo de Alex. Nada podia ser revelado. Questões éticas exigiam sigilo absoluto.
— Desculpa se eu não tô demonstrando muito — disse Aquila —, mas tô feliz por você. Só que o Alex… o namorado da minha irmã… ele faleceu, vítima de um assalto. E ela não tá nada bem. Ele deixou todos nós tão…
Zaac respirou fundo.
— Sinto muito pela sua irmã. É impressionante sermos amigos há tanto tempo e eu não conhecê-la. Vou participar de um grupo de apoio. Acho que seria bom você convencê-la a continuar indo também. É um novo recomeço pra todos nós.
— Obrigado pela força, amigo — respondeu Aquila. — Ela já tá frequentando um.
Eles se cumprimentaram e seguiram caminhos diferentes.
Zaac voltou para casa. À tarde, seria sua primeira vez no grupo de apoio.
Estava ansioso — e, pela primeira vez em muito tempo, sentia que algo novo estava prestes a começar.