Capítulo 4
A Mansão Valença estava mais movimentada a cada dia.

Criados entravam e saíam sem parar, ocupados com os preparativos para o casamento que aconteceria dali a poucos dias.

Foi em meio àquela agitação que recebi um convite.

Minha grande amiga Beatriz Azevedo daria uma festa para celebrar o primeiro mês de vida de seu bebê.

Como éramos muito próximas, não tinha como recusar.

Na manhã seguinte, fui à Mansão Azevedo levando um presente para a criança.

Assim que me viu, Beatriz percebeu que havia algo errado.

— Lena, o que aconteceu com você? Está tão abatida!

Dei um leve sorriso.

— Peguei um resfriado há alguns dias, mas já estou bem melhor.

Ela não pareceu acreditar.

Assim como eu, Beatriz havia crescido na região da fronteira. A diferença era que seu temperamento conseguia ser ainda mais explosivo que o meu.

— Fiquei sabendo que Augusto trouxe uma mulher de Vale das Águas e agora pretende fazer dela sua concubina.

A indignação tomou conta de sua voz.

— Mas pode ficar tranquila. Não vou deixar essa humilhação passar em branco! Eu mesma vou dar um jeito de fazer aquela mulher pagar pelo que está fazendo com você!

Assim que ouvi aquilo, desconfiei que Beatriz tivesse aprontado alguma coisa.

Mas, antes que pudesse perguntar, um criado entrou correndo, apavorado.

— Senhora! Aconteceu uma desgraça!

Ele estava tão ofegante que mal conseguia falar.

— O cão de caça enlouqueceu! Arrebentou as amarras e fugiu!

Beatriz perdeu a cor.

— Eu só mandei vocês assustarem aquela mulher! Como deixaram o cachorro escapar? O que estão esperando? Vão atrás dele, agora!

Desde os tempos em que morava na fronteira, Beatriz adorava criar cães de caça.

Embora fossem dóceis, eram animais enormes. Quando se erguiam sobre as patas traseiras, chegavam à altura de uma pessoa adulta.

Eu nem queria imaginar o que poderia acontecer se uma mulher franzina como Lívia se deparasse com um daqueles cães.

Beatriz estava visivelmente assustada.

— Lena, aquele cachorro sempre foi tão manso... Eu só queria dar um susto nela! Não sei o que deu nele para ficar tão agressivo de uma hora para outra!

Segurei sua mão, tentando acalmá-la.

Mas eu também estava preocupada.

Só me restava torcer para que ninguém tivesse se machucado.

Foi quando uma confusão começou perto da entrada do salão.

Um grupo de guardas imperiais invadiu o local, todos armados com lanças.

As conversas morreram na mesma hora. O salão, antes tomado por risadas e vozes animadas, ficou em completo silêncio.

O homem que comandava os guardas retirou um mandado de prisão.

Eu estava sendo acusada de ter provocado deliberadamente o ataque de um cão de caça, causando ferimentos a outra pessoa.

E a ordem para me prender havia partido do próprio imperador.

Beatriz estava prestes a se levantar para me defender quando segurei seu braço.

Afinal, aquele era o dia da comemoração do primeiro mês de vida de seu bebê. Eu não queria transformar uma ocasião tão especial num escândalo.

— Não se preocupe. Foi um mal-entendido. Vou esclarecer tudo e logo estarei de volta.

Depois de tranquilizá-la, ergui a barra do vestido e me preparei para entrar na carruagem.

Mas um dos guardas retirou um par de algemas de ferro e ordenou que eu estendesse as mãos.

— Vocês sabem com quem estão falando? Como ousam tratar minha senhora dessa maneira? Querem perder a cabeça?

Rosa se colocou imediatamente à minha frente, furiosa.

Examinei os guardas, um a um.

Por alguns instantes, ninguém se moveu. A tensão era quase palpável.

Por fim, afastei Rosa com delicadeza e estendi os pulsos, deixando que me algemassem.

— Senhora...?

Rosa já estava com os olhos vermelhos de tanto chorar.

— Volte para a mansão.

— Isso! Vou procurar o senhor Augusto! Tenho certeza de que ele vai defender a senhora e resolver tudo!

Mal terminou de falar, saiu correndo.

Acompanhei com os olhos sua figura aflita, tropeçando nos próprios passos enquanto se afastava.

Quase tive vontade de rir.

Mas o sorriso que escapou dos meus lábios foi mais amargo que qualquer lágrima.

Pobre Rosa.

Ela ainda não sabia que procurar Augusto provavelmente não adiantaria nada.

Eu havia reconhecido vários daqueles guardas. Já os tinha visto acompanhando Augusto em outras ocasiões.

Isso só podia significar uma coisa.

Ele sabia o que estava acontecendo.

O que eu não entendia era como um incidente daqueles havia chegado aos ouvidos do imperador.

Não demorei a descobrir.

O imperador havia ido à Mansão Valença visitar Augusto e, por acaso, presenciara Lívia sendo perseguida e atacada pelo cão de caça.

No momento decisivo, Augusto disparara uma flecha e matara o animal, impedindo que algo ainda pior acontecesse.

O imperador, conhecido por seu senso de justiça e compaixão, não tolerava que pessoas influentes se aproveitassem da própria posição para maltratar os outros.

Indignado com o ocorrido, ordenara uma investigação rigorosa.

Os criados da família Azevedo, temendo ser responsabilizados, não tiveram coragem de contar a verdade.

Em vez disso, alegaram que eu havia me aproveitado da boa vontade de Beatriz para colocar o plano em prática.

E assim fui parar numa cela.

A prisão era escura e sufocante. A umidade impregnava as paredes frias, e o silêncio tornava aquele lugar ainda mais opressivo.

Sozinha, sentia o medo e o desamparo crescerem a cada instante.

Até que o rangido de uma porta rompeu o silêncio.

A porta da cela se abriu.

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