Na manhã seguinte, o médico veio me dar notícias de Augusto.
— O senhor Augusto é jovem e tem uma saúde de ferro. Os agressores haviam passado uma substância que provoca dormência nas lâminas das espadas. Foi isso que o deixou sem forças.
O médico fez uma pausa antes de acrescentar:
— Mas o perigo já passou. Bastam mais alguns dias de repouso para que ele se recupere completamente.
Assenti e lhe entreguei uma recompensa pelos serviços prestados.
Antes de ir embora, porém, ele reparou no meu estado e recomendou que eu também cuidasse da saúde.
Rosa, que ainda estava indignada com a maneira como Augusto vinha me tratando, não conseguiu ficar calada.
— Até o médico percebeu que a senhora não está bem! E o senhor Augusto? Desde ontem, nem se deu ao trabalho de perguntar como a senhora está!
Ela continuou, cada vez mais revoltada:
— Aposto que aquela aproveitadora que acabou de chegar virou a cabeça dele! Antes, ele nunca teria...
— Rosa, olha o que você está dizendo.
Mal terminei de falar, uma voz feminina veio do outro lado do pátio.
— Senhora Helena, sou Lívia Duarte. Já estou aqui há alguns dias, mas ainda não tive a oportunidade de vir cumprimentá-la como deveria. Espero que me perdoe pela falta de consideração.
Lívia estava diante de mim, fazendo uma reverência respeitosa.
Na vida anterior, nosso único encontro havia sido tão breve que eu mal me lembrava de seu rosto. Guardava apenas a imagem de uma jovem simples, de aparência discreta.
Agora, suas bochechas estavam coradas e seus olhos tinham um brilho que eu não recordava.
Parecia mais bonita, mais cheia de vida.
Assenti e pedi que se levantasse, sem necessidade de tantas formalidades.
Depois, mandei Rosa buscar um par de pulseiras lisas de jade branco em minha caixa de joias.
Seria meu presente de boas-vindas.
Eu já me preparava para sair quando Lívia me chamou.
— Senhora Helena, será que podemos conversar a sós?
Fomos até a passagem coberta que atravessava o jardim e paramos lado a lado.
— Cuidei de Guto durante três meses em Vale das Águas. No começo, ele queria me dar dinheiro para agradecer por eu ter salvado sua vida.
Lívia virou discretamente o rosto, tentando avaliar minha reação.
Como não respondi, continuou:
— Mas depois fomos atacados outra vez. Entrei na frente dele para protegê-lo e acabei recebendo o golpe em seu lugar.
Sua voz suavizou.
— Guto passou a noite inteira cuidando de mim. Na manhã seguinte, disse que me levaria para morar com ele na mansão.
Deixei que o silêncio se prolongasse por alguns instantes antes de assentir.
— Entendo. Depois que você estiver aqui há algum tempo, vou pedir a Augusto que a reconheça como segunda esposa, com os mesmos direitos que eu.
— Você é tão fria.
A acusação veio de repente.
Virei-me para ela.
Lívia estava com os olhos vermelhos, o rosto tomado por uma indignação que já não fazia questão de esconder.
— Até quando vai continuar fingindo que é tão compreensiva? Guto passou por tanta coisa longe de casa! Quase morreu várias vezes! E agora que finalmente voltou, ainda precisa medir cada palavra e cada gesto por sua causa!
Ela falava cada vez mais alto.
— Homens da posição dele sempre tiveram mais de uma mulher. Isso é perfeitamente normal! E fui eu quem salvou a vida dele! Nunca quis tomar o seu lugar. Só quero ficar ao lado dele e cuidar dele!
Não a interrompi.
— Por que precisa fingir essa indiferença toda só para castigá-lo? Ontem ele voltou ferido, e você nem foi vê-lo!
Sua indignação parecia não ter fim.
— Sabe o que ele fez ontem à noite? Mesmo machucado, ficou olhando para a porta, esperando você aparecer. E você? Não foi visitá-lo, não mandou ninguém saber como ele estava... Nada!
Lívia respirou fundo e continuou:
— Hoje de manhã, ele ainda estava se culpando! Ficou preocupado, achando que tinha feito alguma coisa para magoar você.
As lágrimas começaram a se acumular em seus olhos.
— Senhora Helena, se a minha presença incomoda tanto, posso voltar para Vale das Águas. Prometo que nunca mais vou aparecer na sua frente.
Sua voz assumiu um tom quase suplicante.
— Mas, por favor, trate Guto com um pouco mais de carinho. É só isso que eu peço.
Cada palavra soava tão sincera, tão carregada de emoção, que qualquer pessoa que chegasse naquele instante provavelmente pensaria que eu estava maltratando aquela pobre moça.
Baixei os olhos.
Lívia havia se ajoelhado diante de mim.
Respondi com tranquilidade:
— E o que há de errado com a situação atual?
Ela pareceu não entender.
Continuei:
— Tudo o que Augusto não encontra comigo, encontra em você. Imagino que não vá demorar muito para que o coração dele pertença inteiramente a você.
Lívia ergueu a cabeça de imediato.
— Como pode pensar uma coisa dessas de mim? Nunca quis disputar o amor dele com você! Só quero que Guto seja feliz!
Sua voz tremeu de indignação.
— Por que você precisa ser tão fria o tempo todo?
Ela abriu a boca para continuar.
— Você...
— Lívia!
A voz de Augusto interrompeu a conversa.
Ele acabara de chegar.
Assim que viu Lívia ajoelhada, apressou o passo, preocupado, e a ajudou a se levantar.
— O que aconteceu aqui?
Lívia balançou a cabeça e lhe ofereceu um sorriso discreto.
— Não foi nada, Guto. Eu só estava conversando com a senhora Helena.
Augusto não pareceu convencido.
Voltou-se para mim, desconfiado.
— Helena, se tem algum problema, resolva comigo. Não desconte nela.
Fiquei olhando para ele, sem dizer nada.
A tosse que me acompanhava desde a febre ameaçou voltar. Tentei segurá-la, mas uma ardência se espalhou pelo peito, e a dor pareceu tomar conta do meu corpo.
No fim, fui eu quem cedeu.
— Já cuidei dos convites e de todos os preparativos para o casamento. Dê uma última olhada e veja se está tudo do seu agrado.
Não esperei a resposta.
Virei-me e fui embora.
Atrás de mim, ouvi Augusto me chamar, irritado:
— Lena!
Dessa vez, não olhei para trás.