Venha me dar banho

Salim

Dormir no quarto de Helena tornou-se um vício diário e incontrolável. Todos os dias eu me deitava ao seu lado, incapaz de resistir ao seu aroma e à sua presença, embora ainda não a tivesse tomado como minha submissa.

Logo a semana do casamento de Itziar e Embraim chegou. Diversos cortes de tecidos finos foram enviados ao castelo para que a brasileira escolhesse o seu traje. Ao ver um tecido azul-claro coberto de pedrarias, os olhos dela brilharam de encanto. No entanto, Latifa tomou a peça de suas mãos de imediato e colocou um pano cor de salmão em seu colo. Para si mesma, minha irmã escolheu um marfim nobre.

— Quero muito bordado dourado neste tecido — disse Latifa aos criados em nosso idioma.

Helena, que já compreendia bem o árabe, retrucou logo em seguida:

— Mas eu não gosto de dourado!

Latifa a ignorou completamente e continuou, com calma:

— Não se preocupe, ficará lindo em você. O dourado valorizará seu tom de pele e você será a mulher mais exuberante desta festa.

— Mas eu não quero ser a mais linda! Quem deve se destacar é a noiva — argumentou Helena.

Latifa despachou os alfaiates e sentou-se ao sofá para explicar que a profusão de ouro nos trajes dos convidados trazia boa sorte e prosperidade ao casal. Convencida pela explicação, a brasileira assentiu e foi para o piano. Latifa ficou no sofá, observando-a tocar. Eu sabia o que se passava na cabeça da minha irmã: se dependesse dela, eu jamais tocaria em Helena antes do momento que ela julgasse adequado.

Ao terminar a melodia, Helena sorriu para minha irmã:

— O que você quer que eu toque agora, Hortência?

Latifa coçou a cabeça, hesitante, e respondeu. 

— Helena, preciso lhe contar algumas coisas... Você não pode mais me chamar de Hortência em público. Meu nome verdadeiro é Latifa.

— E por que me disse que se chamava Hortência? — perguntou a garota, atenta.

— Porque eu queria ser outra pessoa. Queria me sentir diferente, e você me permitiu isso.

Antes que Latifa pudesse continuar com suas revelações, entrei na sala trajando um terno preto impecável. Helena vestia um vestido leve azul-claro. Encarei-a sentindo que já passara da hora de subjugá-la e impor minha autoridade. Cumprimentei minha irmã e me sentei na poltrona enquanto uma criada me servia uma bebida. Ao me ver, Helena levantou-se e subiu as escadas com a postura rígida, parecendo um robô.

Biberiquei meu drinque e olhei fixamente para Latifa.

— Já está na hora de subjugar essa garota como minha submissa, Latifa. O seu tempo com ela acabou.

— Salim, você tem tantas submissas... O que lhe custa deixar a Helena para mim? — contestou ela.

— Você deu um nome a ela, Latifa? Como ousa ultrapassar minhas ordens? — perguntei, contrariado.

— Entenda, meu irmão: ela é minha amiga. Nós nos tornamos próximas. Não há como tratá-la como uma serva.

Subi as escadas irritado e notei que a porta do quarto de Helena estava trancada por dentro. Ela nem sequer me respeitava como dono daquela casa.

— Ela não é sua, Salim! É minha amiga. O que custa me me dá-la? — insistiu Latifa, surgindo atrás de mim.

— Você pode escolher qualquer uma das outras submissas do castelo, mas desta eu não abro mão — respondi, rindo com escárnio.

— Nem eu abro mão dela. Não se constrói uma amizade assim com qualquer outra.

— Latifa, saia da minha casa! — ordenei firmemente. Ela se retirou em silêncio, sabendo que eu havia chegado ao meu limite.

Entrei no quarto e flagrei a brasileira escrevendo em seu diário.

— Já escolheu o tecido para o casamento? — perguntei.

Helena fez uma expressão de dúvida, fingindo não compreender. Minha paciência se esgotou.

— Eu sei que você já entende a minha língua. Pare de fingir.

Ela se apoiou na mesa e encarou-me com audácia:

— Eu não sei tudo! A Hortência... ou Latifa... ainda está me ensinando.

— Vá dormir. Amanhã você precisa estar descansada — ordenei.

Ela engoliu em seco, avaliando se devia me desafiar:

— Não estou com sono. Vou esperar a Latifa escovar meu cabelo e me trazer o café.

— Latifa não vem mais. É bom você aprender a se servir a partir de agora.

Helena apenas assentiu, evitando uma briga direta. Ela tomou banho, desceu para tomar café sozinha e voltou ao quarto para escovar os dentes e se pentear.

Como não conseguia dormir, sentou-se junto à janela aberta. Entrei no quarto pouco depois e a vi observando a noite.

— O que está fazendo aí nessa janela? — perguntei.

— Estou sem sono. Se o senhor puder arranjar um remédio para mim agora mesmo, eu agradeço — respondeu, por cima do ombro.

Sentei-me na cama, irritado com a audácia:

— Parece que estou sendo bonzinho demais com você. Você me insulta, me responde e me b**e debaixo do meu próprio teto!

— Não te avisaram antes de me sequestrar que eu sou uma mulher difícil de lidar? — retrucou ela.

— E eu sou muito pior do que você imagina. Venha para a cama agora.

Aproximei-me e a puxei pelo braço.

— Me solte! Não quero dormir agora — protestou.

— Amanhã mandarei fechar essa janela — declarei, jogando-a no colchão.

— Está bem... Tudo isso vai acabar um dia — murmurou ela.

— Quando eu me cansar de você, com certeza acabará — respondi, me deitando ao seu lado.

Helena colocou a mão no meio do colchão, impedindo meu avanço:

— O que pensa que está fazendo?

— Deitando para descansar para o evento de amanhã.

— Não do meu lado! Vá para a ala das suas submissas.

Ignorei seu protesto, deitei-me sobre sua mão e me cobri com o edredom.

— Você é minha submissa. Ainda não a subjuguei completamente, mas você pertence a este lugar. Prepare-se, pois quando eu me deitar com você para valer, faria com que passe quatro dias sem conseguir levantar desta cama.

Senti seu corpo estremecer com minhas palavras.

— Agora durma, antes que eu perca a paciência e não espere até amanhã.

Puxei seu corpo para o meu peito e desfiz a trança malfeita em seus cabelos.

— Nunca mais faça isso no seu cabelo. Eu não gosto.

— Problema seu. Eu amo — rebateu ela.

— Se fizer de novo, eu corto seu cabelo.

— Você não teria coragem — desafiou.

— Primeiramente, me chame de senhor.

— Senhor? Senhor coisa nenhuma! Você não é meu senhor.

Segurei seu queixo para castigá-la pela audácia, mas seu perfume doce me desarmou novamente. Tomei seus lábios com sede, sugando sua língua e mordendo sua boca. Para minha surpresa, ela correspondeu ao beijo com uma intensidade que fez algo incendiar dentro de mim. Quando interrompi o beijo, puxei-a de costas contra meu peito.

— Ei, o que é isso? Nem pense nisso, seu tarado! — reclamou ela.

— Durma. Se eu quisesse fazer algo agora, eu faria.

Pouco depois, ouvi sua respiração pesar. Ela adormeceu em meus braços, ironicamente entregue ao abraço do homem que considerava seu inimigo. Olhei para seu rosto sereno e respirei aliviado. Era uma mulher indomável; se fosse qualquer outra, já estaria completamente curva às minhas vontades.

Na manhã seguinte, ouvi o barulho do helicóptero sobrevoando o castelo. Ao acordar, vi Helena sentada na janela acenando para fora. Levantei-me sem camisa e parei logo atrás dela. Lá embaixo, no pátio, Latifa me viu da janela e ficou atônita, imaginando se eu já havia tomado a brasileira.

Porém, o mistério durou pouco. Em questão de segundos, Helena virou-se e começamos uma discussão acalorada que evoluiu para uma luta física no meio do quarto. Lá embaixo, Latifa e os seguranças começaram a rir da cena surreal, parando imediatamente assim que notaram o olhar severo da minha irmã.

Consegui imobilizar Helena em meus braços, mas ela cravou as unhas com força no meu peito.

— Nunca mais encoste em mim sem camisa, sua praga! — gritou ela.

Ao ver as marcas vermelhas em minha pele, ela sorriu com malícia, satisfeita por ter devolvido o tapa de dias atrás.

— Me coloque no chão! Eu vou te matar, seu tarado!

— Você precisa ler o Alcorão! Nós dois vamos acabar nos matando dentro desta casa, mulher! — exclamei, percebendo o quanto eu não tinha controle sobre ela.

— Quem precisa ler é você, seu despudorado, tarado, ninfomaníaco! — esbravejou.

Rindo da fúria dela, saí do quarto. Duas criadas aguardavam no corredor com uma túnica elegante e um xador refinado. Elas deixaram os trajes sobre a cama e saíram rapidamente.

Quando reentrei no quarto, surpreendi Helena despida, prestes a entrar no banheiro.

— Você... você passou a noite inteira sem nada por baixo? — perguntei, estupefato.

Ela franziu o cenho, cobriu-se rapidamente e gritou:

— Saia do meu quarto agora!

Ignorei o pedido, tirei meu turbante e a segui até o banheiro. Puxei-a para dentro e tranquei a porta. Ficamos os dois ali: eu sem camisa e ela enrolada apenas em uma toalha.

— Por que você me trouxe para cá? — perguntou ela, com uma mágoa antiga na voz.

— Porque eu quis. Você era espalhafatosa demais.

— Eu? Tem certeza disso?

— Sim! Você jogou bebida em mim na boate — respondi, irritado.

Helena olhou para mim com dúvida, parecendo processar a informação:

— Não me lembro bem disso...

— Como não lembra? Vestido brilhante, mostrando tudo, e depois no corredor do banheiro me fazendo limpar a mancha do terno!

Ela pareceu recordar-se vagamente daquela noite no Chile.

— Ah... um pouco.

Sorri com desdém, ignorei sua resposta e entrei na banheira com água morna.

— Venha me dar banho — ordenei.

— Quem vai te dar banho? Nunca! — respondeu ela de imediato, abrindo a porta do banheiro e me deixando sozinho na água.

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