Mundo de ficçãoIniciar sessãoOs olhos escuros de Samuel eram frios e profundos enquanto ele encarava a mulher jogada sobre ele, com as bochechas coradas pelo álcool.
Só tomou algumas taças e já ficou assim? Se não aguenta, por que bebe?
— Não é como se você fosse capaz de me fazer pagar nada — murmurou ele.
Sem paciência, Samuel empurrou Julia para o sofá com brusquidão e se virou para sair. Atordoada e com a visão turva, ela piscou ao vê-lo se afastando e se esticou para agarrar a manga do terno dele.
Mesmo trôpega e bêbada, Julia ainda se lembrava perfeitamente de que aquele homem tinha arruinado sua entrevista de emprego mais cedo. Com o olhar faiscando de raiva, usou o corpo dele como apoio para se levantar.
Em um segundo, a distância entre os dois praticamente desapareceu. Estavam tão perto que Samuel conseguia ouvir a respiração desordenada de Julia.
De repente, o estômago dela deu um nó.
— Você... burp...
Samuel olhou para o próprio terno sob medida, agora completamente sujo de vômito, e seu rosto escureceu na hora. A aura ao seu redor ficou tão gélida que a temperatura do ambiente pareceu despencar. Instintivamente, ele agarrou o pulso de Julia, com vontade de esmagá-lo ali mesmo. Ao lado, o Presidente Carlos estava tão apavorado que mal conseguia respirar, temendo que o parceiro de negócios perdesse o controle.
Alheia ao perigo, Julia apenas empurrou Samuel para o lado, limpou a boca com as costas da mão e caiu de volta no sofá, caindo num sono profundo com uma expressão absurdamente satisfeita.
Ao ver a folga da mulher, Samuel sentiu a raiva subir-lhe à cabeça. Ela realmente estava pedindo para se dar mal.
— Mamãe! Cadê a mamãe?!
Antes que Samuel pudesse fazer qualquer coisa, uma vozinha infantil ecoou pelo ambiente. Ele olhou em direção à porta e viu três garotinhos correndo na sua direção.
As três crianças pareciam ansiosas e preocupadas ao encontrarem Julia desacordada no estofado.
— Mamãe? — Gabriel, o caçula, fez um bico e puxou a mão de Julia de leve.
Mateus suspirou, balançando a cabeça com um ar impotente:
— A mamãe bebeu demais... Por isso não tava atendendo o celular.
Pedro revirou os olhos, irritado:
— Ela já é bem grande e ainda dá esse trabalho pra gente! Se não fosse a localização do celular, como é que a gente ia achar ela? E agora, como levamos a mamãe para casa?
As três crianças se aglomeraram ao redor do sofá. Ao observar o comportamento maduro e despachado dos três, a expressão de Samuel ficou indecifrável.
Esses são os três filhos de Julia?
— Ué? Tio, quem é você? — perguntou Gabriel, descobrindo Samuel parado logo atrás deles. O caçula piscou os olhos grandes e curiosos.
A voz do menino era tão doce que, sem perceber, Samuel suavizou o tom de voz:
— Essa mulher aí vomitou em mim.
Mesmo tentando pegar leve, sua voz ainda soava ríspida pela raiva contida.
As palavras chamaram a atenção de Pedro e Mateus, que encararam o homem de alto a baixo. Mateus franziu as sobrancelhas, encarando o rosto de Samuel com atenção.
Por que tenho a impressão de que esse cara se parece comigo?
Antes que Mateus pudesse raciocinar, Gabriel puxou as mangas dos irmãos, deu dois passos para trás e sussurrou bem perto do ouvido dos mais velhos:
— Irmão, esse tio é muito bonito! Será que ele é o papai que a mamãe arrumou pra gente?
A colocação do caçula fez uma luz acender na cabeça de Pedro e Mateus.
Pedro pigarreou, assumindo uma postura séria:
— Tio, a nossa mãe sujou a sua roupa, mas a gente assume a responsabilidade!
— É isso aí! A mamãe sempre diz que a gente tem que ter coragem e assumir os erros! — completou Gabriel.
Vendo a seriedade daquelas figurinhas, Samuel achou a cena um tanto divertida:
— Vocês são três crianças. Como pretendem assumir a responsabilidade?
Mateus olhou ao redor, deu um passo à frente e disparou sem piscar:
— A nossa mãe é ótima! A gente vende a mamãe para você e ela paga o prejuízo trabalhando!
Samuel travou, pego de surpresa pela proposta do garoto.
Nessa situação, o normal não seria levarem a mãe embora? Bom, vendo a cara deles, não tem dúvida de que são filhos dela mesmo...
Antes que ele pudesse responder, os três irmãos se juntaram num canto, cochicharam rapidamente e deram as mãos, dando pulinhos de alegria. Encararam Samuel com os olhos brilhando:
— Negócio fechado, tio! Tchauzinho!
Sem dar tempo para mais nada, Gabriel saiu saltitando com os dois irmãos mais velhos, deixando para trás Julia completamente apagada e Samuel parado no meio da sala, de queixo caído.
Quando Julia acordou, já era manhã do dia seguinte. Ela olhou ao redor, encarando aquele quarto espaçoso e desconhecido, tentando puxar pela memória o que tinha acontecido na noite anterior.
Lembrou-se de ter bebido além da conta... e de ter vomitado em cima de Samuel.
Na verdade, ela tinha feito de propósito. Quem mandou aquele maldito arruinar sua entrevista? Como estava bêbada, ele não podia acusá-la de nada grave.
Nisso, a porta do quarto se abriu devagar. Samuel apareceu no batente, encarando-a com o olhar frio e o rosto inexpressivo.
— Pode ir caindo fora assim que se levantar. Esta é a minha casa.
Julia paralisou por um segundo e deu um pulo da cama, olhando para ele chocada:
— O quê?! Por que eu tô na sua casa?
— Você vomitou no meu terno ontem à noite. E os seus três filhos me entregaram você como compensação pelo prejuízo.
Um sorriso sarcástico surgiu no canto dos lábios de Samuel.
Julia ficou sem reação. Aqueles três pirralhos me venderam?! Eles são mesmo meus filhos de sangue?!
— Eu...
— Não tenho tempo para resolver isso hoje. Amanhã a gente conversa — cortou Samuel, virando as costas e batendo a porta.
Julia desabou na cama, soltando um gemido de desespero.
Ela tinha reparado no terno dele: era um modelo exclusivo feito sob medida por um alfaiate renomado, valendo uma fortuna. Se ele cobrasse o prejuízo, ela teria que vender um rim!
Aquelas três criaturinhas só me metem em encrenca!
Pensando rápido, Julia decidiu agir. Nem pensar que pagaria aquilo. Se a dívida fosse cobrada, sua vida estaria arruinada. A única saída era dar um sumiço no terno estragado! Sem prova do prejuízo, ele não poderia cobrar nada.
Sem hesitar, ela se levantou e entrou sorrateiramente no quarto principal. O cômodo era simples e elegante, decorado em tons de cinza. Ela procurou por todos os cantos, mas não achou a peça em lugar nenhum.
— Cadê essa m... de paletó? — resmungou para si mesma.
De repente, ouviu passos e a voz de Samuel do lado de fora. Assustada, Julia correu para uma porta lateral e se escondeu no cômodo adjacente.
Com o ouvido colado na madeira, ela esperou até ter certeza de que o caminho estava livre. Quando ia abrir a porta para fugir, reparou nos detalhes do ambiente.
Não era um closet. Não havia roupas ali. O espaço parecia uma biblioteca particular, com prateleiras cheias de livros e uma mesa imponente de mogno no centro.
Que estranho... Por que o Samuel montaria um escritório secreto ao lado do quarto se ele já tem um na empresa?
Movida pela curiosidade, Julia se aproximou da mesa e reparou num pequeno caderno encadernado em couro de carneiro. Ela o abriu sem pretensão, mas travou na primeira página.
Havia uma data anotada no topo: 28 de junho, cinco anos atrás.
Julia jamais esqueceria aquele dia. Foi a noite em que se envolveu com um desconhecido no reservado de um bar, evento que desencadeou sua ruína e sua expulsão da família Lins.
Nas páginas seguintes, havia várias fotos dela mesma naquela noite. As imagens tinham sido tiradas de ângulos difíceis e sob a luz fraca do ambiente, tornando impossível para qualquer outra pessoa reconhecer seu rosto com clareza — mas ela se reconheceria em qualquer lugar.
O queixo de Julia caiu.
Por que Samuel tinha fotos dela daquela noite? Por que guardava registros daquele encontro?
Será possível que... o estranho com quem eu dormi cinco anos atrás era o Samuel?!







