Taeju
— A que devo esse convite, senhor Kang? Há algo em que eu possa ajudar? — Ignorei meu pavor e mantive-me brando na superfície.
— Direto ao assunto, gosto disso. — Taesung deu um leve sorriso e cruzou as pernas.
Sua postura era muito mais intimidadora que a do irmão, Taesung parecia mais perigoso. Devia ser realmente, se eu fosse me basear pelos rumores… Ele era apenas três anos mais velho que Dojin, era diretor de uma das filiais, mas de poder menor. Então, havia uma guerra declarada entre eles.
— Você sabe, secretário, que infelizmente meu amado irmão e eu não nos damos tão bem. Uma pena, eu o amo tanto.
Aquilo não parecia que terminaria bem. E era aquela história, a corda sempre arrebentava do lado mais fraco. E que diabos era esse papo de “amado irmão”? Eles se odiavam.
— Bem, mas não vim lamentar para você, secretário. Vim pedir sua ajuda.
— Eu? Quero dizer… — Cocei a garganta tentando me recompor. — E em que eu poderia ajudar, senhor?
— Preciso que me conceda alguns documentos. São documentos simples, ele os mantém no cofre do seu apartamento.
— E por que não os pede diretamente para o seu irmão? Eu sou apenas um secretário.
— Apenas um secretário? — Taesung sorriu, cinicamente. — Quanta modéstia. Um secretário que administra fielmente a vida do chefe e tem livre acesso a sua intimidade.
— Eu sigo apenas um contrato, e não é verdade que sei da sua intimidade. Agora mesmo, eu não sei onde ele está.
— Não?
— Não. Eu não tenho acesso a sua agenda pessoal.
— Pois eu sei onde ele está agora. Gostaria de saber?
— Não é necessário. Nesse momento estou de folga e já não tenho relação nenhuma com meu trabalho de secretário.
— Vejo que é bem corajoso, secretário. Mas vou te dizer mesmo assim. — Taesung cruzou os dedos sobre a coxa.
Dedos longos… Se ele não parecesse tão perigoso…
Acho que o tempo que eu estava sem sexo vinha afetando meu cérebro. Não era possível eu pensar em certas coisas agora.
— Ele está com nosso avô. O velho já está senil e irá partir desse mundo em breve.
— Oh, sinto muito.
— Não sinta. Aquele maldito já devia ter morrido, mas é tão ruim que nem o inferno o quis ainda.
Eu devia apenas pular desse carro?
Por que diabos eu arrumei esse emprego? Eu poderia ter me candidatado em outra empresa, tinham tantas com boa reputação.
— Acontece que ele confiou alguns documentos ao meu amado irmãozinho. Até mesmo nosso pai ficou de fora. Você deve imaginar que não estamos satisfeitos. Aquele velho sempre preferiu o Dojin, e quando ele morrer a posição do seu chefe mudará drasticamente, então estamos trabalhando para que isso não aconteça.
— Lamento por isso, senhor Kang, mas eu não posso entregar tais documentos sem a autorização.
— Claro que pode. Basta abrir o cofre e pegá-los.
— Mesmo que eu pudesse, não tenho a senha.
— Admiro sua lealdade, secretário. — Taesung pegou uma pasta preta que estava no banco ao lado e me entregou. — Justamente por isso, preparei um incentivo.
Nervoso, recebi a pasta e a abri. A primeira coisa que vi foi a foto dos meus pais, depois, fotos e mais fotos da fachada da casa, dos seus hábitos diários, trabalhos. Aquilo me deixou sem ar.
— Sabe, secretário, não fico feliz em desmanchar uma família tão bonita. Eu também não gostaria que você deixasse de curtir a vida dessa maneira… como devo dizer… exótica.
Exótica?
— Eu não tenho nada contra — continuou como com uma falsa pena e isso me deixou enojado. — Inclusive, devo dizer que o secretário tem belas pernas quando veste aquelas meias sensuais e, aparentemente, meu amado irmão não sabe. O que é difícil de acreditar, já que ele é mais sagaz do que aparenta.
Meu chefe saber que eu era gay não importava agora. Honestamente, não ligaria em me mostrar para todos se isso fosse manter minha família em segurança.
— Vou te dar esse fim de semana para pensar, secretário. É bom que reflita bem e faça uma escolha inteligente.
A porta ao meu lado foi aberta, nem ao menos percebi que o carro tinha parado.
— Fique com as fotos, irá ajudá-lo a tomar a melhor decisão. Até mais, secretário.
Saí do veículo tão atordoado que demorei para perceber onde estava.
Abraçando minha bolsa e aquela pasta, fiquei imóvel olhando o carro dobrar a esquina.
E agora? O que eu deveria fazer?
Droga. Por que aceitei esse emprego? Eu não devia ter sido tão ganancioso.
……
— Vamooosss, por favor. — Jiwon choramingou no pé do meu ouvido mais uma vez.
Não bastasse minha situação complicada, ainda tinha o “rolê” que de repente ela arrumou. Claro, em outros tempos, já teria me produzido todo para ir, mas hoje, depois de receber aquela “proposta”, não tinha cabeça para nada.
— Não vai rolar.
Nem me dei o trabalho de abrir os olhos, simplesmente cheguei e deitei na cama e dormi, isso até ela chegar. Eu ainda estava com a calça e a camisa social.
— Eu te contei da situação, vadia. Tenha mais empatia pelo seu amigo.
— Justamente por isso que você deve ir. Do que adianta ficar aí deprimido se vai morrer amanhã?
Olhei-a, incrédulo. Mas analisando suas palavras idiotas, tive que concordar.
Do que adiantava eu ficar na deprê?
De qualquer forma, não mudaria os fatos. E, essa talvez fosse minha última farra na vida.
Eu não tinha conseguido decidir nada, se eu traísse o meu chefe, iria morrer pelas mãos dele depois. Talvez ele poupasse minha família. Eu também poderia fugir do país, mas e se ele me encontrasse?
Ah… eu estava ferrado de todas as maneiras. Então acho que Jiwon tinha razão. Eu devia sair e curtir minha última noite.
Era isso!
— Me ajude a escolher um look, vadia! — Levantei da cama determinado.
— É isso aí!! Vamos encher a cara e pegar uns caras gostosos. — Jiwon bateu palma, animada.
Sim, não é possível que aconteça algo pior.