Mundo de ficçãoIniciar sessãoO rádio da patrulha estava com a estática e gritos abafados que eu não conseguia decifrar. A poeira vermelha de Helmand estava por todo lado, colada aos meus dentes, e a queimar-me aos olhos misturada com o cheiro a querosene do jipe capotado a nossa frente. O Miller estava caído na berma da estrada de terra batida, a berrar agarrado a uma perna que já não estava lá, enquanto o som dos tiros de metralhadoras PKM dos talibans batia na rocha como granizo. Eu estava deitado na vala com o cano da minha espingarda de precisão a ferver contra os dedos, a tentar focar no atirador na montanha cinzenta. Mas sempre que eu olhava pela mira telescópica, o deserto desaparecia por milésimos de segundos e eu via o vestido amarelo da Teresa a flutuar no meio do fumo das explosões. Ela chamava por mim. Gritava o meu nome enquanto o chão se abria. Puxei o gatilho mas a arma prendeu com um estalo seco e com tom a ferro contra ferro que ecoou na minha cabeça como um tiro de canhão.
Dei um salto no banco do jipe, com o peito a arquejar e as mãos a agarrarem com tanta força o volante de couro com tanta força que o plástico estalou. O suor quente escorria-me pela testa colando a t,shirt preta as costas fardadas de pânico.
Olhei em volta completamente desorientado. Não havia poeira vermelha. Não havia tiros.O jipe do meu pai rolava macio pela autoestrada 95, deixando o verde escuro da floresta para trás e caminhando em direção ao betão frio e ao vidro de Miami que ficava bem ao alcance do horizonte a nossa frente. O sol do fim da tarde batia de lado no para-brisas, aquecendo a cabine de forma pacífica.
— David! — a voz da Teresa soou assustada ao meu lado. Ela largou a revista de noivas que trazia no colo e agarrou-me no braço direito, apertando os dedos com força. — Calma, foda-se! Tu deste um estalo no volante que quase nos mandavas contra a berma! Estás a tremer todo, gajo. Olha para mim. Olha para mim, David!
Respirei fundo três vezes, sentindo o ar condicionado do carro arrefecer-me a pele. O meu coração batia a duzentos por hora, mas o Capitão de infantaria começou a ceder espaço ao homem civil outra vez. Soltei o ar pelo nariz e curvei os lábios num sorriso desajeitado, limpando o suor da bochecha com as costas da mão esquerda.
— Desculpa, miúda... — a minha voz saiu rouca, arrastada. — Adormeci de olhos abertos por dois segundos. Aquela porcaria daquela estrada em linha reta dá-me cabo do juízo. Foi só um pesadelo parvo com o Miller e Helmand. Já passou.
Teresa não desgrudou do meu braço. Os olhos verdes dela examinaram a minha cara com uma preocupação tão densa que me quebrou o peito. Ela esticou a mão e me pegou na nuca, com uma suavidade que me tirou o resto do terror da mente.
— Tu tens de falar com alguém sobre isso, David. A guerra já acabou. Tu conseguiste dormir na cabana, mas esse deserto continua a vir atrás de ti sempre que fechas os olhos. Mostrou-te que os fantasmas de lá não têm passaporte para a Flórida, mas tu continuas a deixar a porta aberta para eles entrarem.
Conduzi em silêncio por uns minutos, sentindo o calor dos dedos dela na minha pele. Usei a mão direita para lhe agarrar a mão, apertando-a contra a minha coxa com carinho.
— Eu sei, Teresa. Tens razão. Fez-me ver que estou a carregar o peso de lá sem necessidade nenhuma. O mundo aqui fora não quer saber de patrulhas ou de minas. Só preciso de me habituar à calmaria.
— É bom que te habitues depressa — brincou ela, tentando quebrar o gelo da cabine com um sorriso doce, inclinando-se para me dar um beijo rápido no ombro. — Tu agora és só o David. O gajo que vai trabalhar com o meu pai na segunda-feira, o gajo que vai levar um fato cinzento apertado no próximo mês e que vai ter de sorrir para as fotografias sem parecer que está a planear uma execução em massa.
— O fato cinzento é que vai ser o meu verdadeiro teste de sobrevivência, noiva — respondi, e senti finalmente a leveza voltar ao meu peito. A paranoia da noite anterior na floresta tinha evaporado por completo. Olhava para os carros que passavam por nós na autoestrada e só via civis normais, famílias a ir para a praia, pessoal descontraído a viver as suas vidas pacatas. A solidez da nossa relação tinha saído daquela cabana blindada contra qualquer dúvida ou assombração. Nós estávamos felizes, felizes como nunca tínhamos sido, prontos para assinar o raio dos papeis e fechar a tampa do passado de uma vez por todas.
Em vez de irmos para nossa moradia, fomos direto à casa dos pais da Teresa em Coral Gable para um jantar em família que já estava combinado. A vivenda deles era daquelas típicas de Miami, com paredes brancas, telhas de argila vermelha e uma varanda enorme coberta de buganvílias. Mal estacionei o jipe, o meu sogro, o velho Arthur, saiu pela porta dos fundos com um avental de churrasco e uma pinça metálica nas mãos, com os dentes todos escancarados num sorriso de quem estava morto por abrir uma cerveja comigo.
— O herói voltou! — exclamou o Arthur, dando-me aquele abraço de urso que quase me descolava as costelas. — Entrem, entrem, que as costeletas já estão no ponto e a Maria passou a tarde a fazer aquela tarte de limão que tu devoraste inteira na semana passada.
A janta foi uma daquelas cenas limpas, barulhentas e cheias de calor humano que me faziam sentir que a farda já não me pertencia. Sentámo-nos na mesa do pátio exterior, com o cheiro da carne grelhada a misturar-se com o aroma das flores do jardim. A mãe da Teresa, a dona Maria, não parava de me encher o prato com carinho, enquanto me mostrava os catálogos dos arranjos de mesa para o copo d'água.
— David, meu querido, os convites que enviámos para os teus tios em Boston já foram confirmados — dizia ela, com os óculos de leitura caídos na ponta do nariz. — Mas eu preciso que tu me digas se a tua lista de camaradas do exército está fechada. O bife da festa tem de ser encomendado com antecedência e aqueles rapazes da tua unidade devem comer por três.
— Não se preocupe com isso, dona Maria — respondi, limpando a boca com o guardanapo de pano e recebendo um olhar de aprovação da Teresa por não ter largado nenhuma asneira à mesa. — Só convidei o Miller e o sargento do meu pelotão. O resto do pessoal ainda está em rotação de serviço. Dois gajos brutos já chegam para dar trabalho ao barman da festa.
O Arthur soltou uma gargalhada e estendeu-me uma garrafa de cerveja escura bem gelada.
— Deixa lá os rapazes comerem, Maria! O David conquistou o direito de ter a mesa cheia. E por falar em trabalho, David, amanhã de manhã passas pela oficina. Chegou um Chevrolet de sessenta e sete com um problema crônico na caixa de velocidades e eu quero que sejas tu a deitar as mãos àquilo. Os computadores novos dão-me cabo da cabeça, mas tu tens paciência de fuzileiro para parafusos velhos.
— Estou lá às sete em ponto, sogro — curvei os lábios, batendo com a minha garrafa na dele.
Olhei para Teresa no outro lado da mesa. Ela estava a olhar para mim com um orgulho tão óbvio, com os olhos verdes a brilharem sob as luzes de candeeiros do pátio, que o meu estômago voltou a dar aquele nó, mas desta vez era de pura felicidade. Nós tínhamos uma estrutura ali. Uma família a sério, planos reais, um emprego pacato a minha espera no dia seguinte. o bicho da caserna estava morto e enterrado.
Depois do jantar, o Arthur pediu-me para o ajudar a carregar umas caixas de ferramentas pesadas que ele tinha trazido no banco de trás da carrinha dele. Caminhámos até à frente da casa, na calçada escura da rua residencial. O bairro estava no silêncio habitual de domingo à noite, com o barulho dos aspersores de água a regar os relvados vizinhos.
Agarrei na caixa de ferro mais pesada com facilidade. Mas quando me ia levantar, o meu olhar tático — aquela porcaria de mecanismo de sniper que eu achava que tinha deixado na floresta — fez o scan da rua de forma automática.
A uns cinquenta metros de distância, debaixo da sombra de uma árvore grande, estava um carro. Não era a carrinha cinzenta dos guardas florestais. Era um sedã preto, vulgar, com os vidros completamente escuros. O motor estava desligado, mas quando passei pela linha de visão do para-brisas, notei o brilho rápido, quase imperceptível, de um visor digital de telemóvel a iluminar o rosto de um gajo no banco do condutor. O homem não estava a olhar para o telefone; estava com a cabeça virada diretamente para a entrada da casa do Arthur. A monitorizar-me.
O meu ritmo cardíaco falhou uma batida. O frio do metal tentou voltar a entrar-me nas veias, mas eu forcei-me a respirar fundo, fechando os olhos por um segundo longo no escuro da calçada.
Para com esta merda, David, ordenei a mim próprio, sentindo uma raiva surda da minha própria cabeça. É o lixo do deserto outra vez. É um gajo qualquer a namorar no carro ou a esperar por alguém do bairro. Os gajos da floresta provaram que estás passado da cabeça. Não comeces outra vez com asneiras para estragar o dia à miúda.
— Está tudo bem, rapaz? Essa caixa é pesada de caras, podes deixar que eu levo o resto — disse o Arthur, batendo-me nas costas.
— Está tudo ótimo, sogro — menti, forçando a voz a sair normal. Carreguei o metal para dentro da garagem e fechei o portão atrás de nós, recusando-me a olhar para a rua outra vez. Eu não ia estragar a noite da Teresa. Eu não ia voltar a ser o bicho paranoico que quase matou dois inocentes no mato por causa de um relatório de fogos.
Despedimo-nos dos pais dela com promessas para a manhã seguinte. Entrámos no jipe e conduzimos os dez minutos de volta para a nossa moradia em Miami, com a Teresa a segurar-me a mão e a falar sobre o sabor do bolo de chocolate. Estávamos na segurança do nosso lar, felizes, consolidados e no topo do mundo. Desliguei o motor do jipe em frente à nossa porta, crente de que o mundo era um lugar limpo. Mal eu sabia que o lobo real não estava na floresta, e que o sedã preto já tinha feito o sinal de rádio para o início da operação.