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Capítulo 7: O Labirinto de Chumbo

Lincoln Spector

O corredor do quarto andar do Jackson Memorial Hospital cheirava a liso, desinfetante e café velho. A luz branca das lâmpadas tubulares piscava no teto, projetando sombras compridas no chão cinzento. Eu estava encostado à parede de gesso, com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco e o distintivo federal a pesar-me no peito. Tinha os olhos a arder.

Do outro lado do vidro da sala de observação, o velho Arthur d'Ávila estava sentado numa cadeira de plástico, com a cabeça escondida entre as mãos. Os ombros dele subiam e desciam num choro mudo, daqueles que não têm som porque a garganta já secou. Na cama de ferro, a dona Maria d'Ávila dormia sob o efeito de sedativos fortes, com uma ligadura enorme a tapar-lhe a têmpora esquerda. 

O monitor cardíaco apitava num ritmo lento e regular. Aquele som metálico era a única coisa que preenchia o vazio daquela ala. Afastei-me devagarinho e caminhei até à sala de espera no final do corredor, onde a minha equipa da divisão de raptos tinha montado um posto de comando temporário. 

O detetive Harris estava de pé, rodeado de copos de plástico vazios e relatórios espalhados por cima de uma mesa de metal.

— Diz-me que tens alguma coisa, Harris — pedi, com a voz rouca, massageando a nuca.

— Nada, chefe — o Harris negou com a cabeça, com uma expressão derrotada que me deu um soco no estômago. — A perícia limpou a berma da South Bayshore Drive de uma ponta à outra. Os gajos usaram luvas de látex espesso. Não há uma única impressão digital no Lincoln clássico, nenhum fio de cabelo, nenhum vestígio que não pertença à família ou ao motorista.

— E as marcas de pneu?— Cruzámos o rasto no sistema. São de uma carrinha de caixa fechada comum, mas o desenho morre mal entram no asfalto limpo da autoestrada. As câmaras do viaduto da I-95 foram desativadas por um corte de energia local precisamente dois minutos antes do ataque. Sabiam onde ficavam os pontos cegos da cidade. 

Foi um apagão planeado. Tudo indica que a polícia vai ter de carregar este fardo sozinha. Não há um único fio condutor.Apertei os dentes, sentindo uma frustração pesada. Éramos a melhor unidade do Estado e estávamos a correr às cegas atrás de fantasmas. 

Não tínhamos um nome, um suspeito, uma matrícula, nada. A única certeza era o rasto de sangue deixado no véu de seda branca que o David Mercer tinha levado consigo. O David. O jipe dele já devia estar longe. Dei ordens discretas para não o prenderem se uma patrulha o avistasse, mas sim para o seguirem. Eu sabia que se a polícia não encontrasse uma pista, o David ia transformar Miami num matadouro para arrancar respostas da terra. 

Nesse momento, a porta de vidro da ala bateu com força. Um agente da patrulha entrou a passo rápido, com a cara pálida e um saco de plástico transparente na mão direita. Ele vinha a arquejar, como se tivesse subido as escadas a correr.— Detetive Spector! 

— chamou o agente, parando à minha frente. — Isto acabou de ser deixado na recepção central por um estafeta de mota. O gajo recebeu trinta dólares em dinheiro de um homem de óculos escuros na bomba de gasolina da baixa para entregar isto em mão à equipa que investiga o caso D'Ávila. Olhei para o saco de plástico. Lá dentro havia uma fita cassete antiga, daquelas de formato VHS, com uma etiqueta branca sem nada escrito. 

Um método antigo, mas eficaz para evitar qualquer tipo de rastreio digital na rede.

— Harris, no nosso laboratório da central, o técnico de vídeo foi para Orlando e a sala está trancada até amanhã — comentei, farto da burocracia. — Pega nas chaves. Vamos àquela loja de penhores e antiguidades em Little Havana. O velho que gere aquilo coleciona tralha e tem sempre leitores de cassetes a funcionar nas televisões da montra.

Saímos do hospital a passo rápido e cruzamos a cidade no carro descaracterizado. Dez minutos depois, estávamos a empurrar a porta de vidro da loja sob o som de um carrilhão velho. O dono do espaço, um cubano idoso, assustou-se quando mostrei o distintivo, mas cedeu logo o balcão. Ele limpou o pó de um leitor de VHS antigo e ligou os cabos a uma televisão de caixa de madeira. Enfiei a fita na ranhura. O aparelho engoliu o plástico com um estalo e o ecrã encheu-se de estática cinzenta antes de focar a imagem.

A gravação era de má qualidade, tremida, iluminada apenas por um candeeiro a óleo. A Teresa d'Ávila estava sentada numa cadeira no centro da imagem. O vestido de noiva estava rasgado no ombro esquerdo e a seda branca estava coberta de poeira e salpicos escuros de sangue. Tinha os braços amarrados atrás das costas com corda grossa. 

Havia um hematoma roxo a crescer-lhe na bochecha direita e o cabelo castanho estava colado à testa pelo suor, mas os olhos verdes dela continuavam abertos, fixos na lente, com uma mistura de terror e uma dignidade que me fez engolir em seco. Ela não estava a chorar. Mantinha o queixo erguido, embora o peito subisse e descesse depressa. Atrás dela, na penumbra da parede de betão, estavam três homens de pé. 

Vestiam casacos militares pesados, verde-oliva, sem insígnias, e traziam lenços escuros a tapar-lhes o rosto, deixando apenas os olhos à vista. Dois deles seguravam espingardas AK-47 antigas, com as coronhas de madeira gastas.

O homem do centro deu um passo em frente, olhando diretamente para a câmara. Quando falou, a sua voz saiu arrastada, com um sotaque pesado da região sul do Afeganistão.

 Ele falava em inglês, pausadamente. —David Mercer — disse o homem, e o som daquela voz fez o sangue congelar-me nas veias. — O Coveiro de Helmand. Tu achaste que podias deixar o deserto para trás e esconder-te sob o sol da tua cidade. Achaste que o sangue dos nossos irmãos em Sangin ia ficar esquecido na areia.

O homem esticou o braço direito e colocou a mão no topo da cabeça da Teresa, puxando-lhe o cabelo castanho para trás com força para expor o pescoço dela à câmara. A Teresa soltou um suspiro curto pelo nariz, fechando os olhos por um segundo, mas não gritou.

— O teu juramento de paz não vale nada para nós — continuou o homem do lenço. — Esta mulher, a tua Teresa d'Ávila, foi arrancada da tua vida para pagar a dívida. Ela será sacrificada em praça pública, num altar de terra, como vingança pelas atrocidades que tu e o teu exército cometeram contra o nosso povo no Afeganistão. O sangue dela vai lavar a lama de Helmand. 

Não procures as autoridades. O tempo dela já começou a contar. A imagem tremeu por mais dois segundos e, de repente, o ecrã voltou a encher-se de estática cinzenta e barulho de chuva. O leitor deu um clique e parou. Naquele silêncio que se instalou na sala, uma linha de Jeremias 22:10 cruzou-me a mente, um texto que o meu pai lia quando a nossa família lidava com a perda de companheiros na polícia: «Não choreis o morto, nem o lamenteis; chorai amargamente aquele que vai para longe, porque não voltará mais.» Apertei os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos. 

A polícia de Miami não tinha pistas claras sobre a localização exata, mas as regras eram firmes: o caso pertencia inteiramente ao departamento. O FBI ia assumir as rédeas e a guarda costeira fecharia o porto de Miami de imediato. 

Não haveria espaço para civis ou veteranos paranoicos interferirem. O controlo seria total e exclusivo das autoridades oficiais. Olhei para o Harris, que estava paralisado ao meu lado, e retirei a fita do leitor com força, guardando-a numa bolsa. — Harris, liga para a central e emite um alerta máximo — ordenei, com a voz firme. 

— Quero todas as patrulhas focadas no perímetro do porto e mandem interceptar o jipe do David Mercer agora mesmo. Ele não vai mover um único dedo neste caso. A lei resolve isto por conta própria, nem que tenhamos de o algemar para o proteger dele mesmo.

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