Mundo de ficçãoIniciar sessãoO jardim da igreja em Coral Gables virou um cenário de guerra num segundo. O quarteto de cordas parou a música a meio de uma nota desafinada. O arco do violoncelo rangeu contra as cordas como um travão de mão puxado à pressa. O silêncio que veio a seguir tinha o peso do ar que se sente antes de cair uma tempestade.
— David, repete lá isso... — a voz do velho Arthur D'Ávila sumiu ao meu lado. O telemóvel escorregou-lhe dos dedos e caiu na relva, com o ecrã virado para cima a brilhar no escuro.
— O que aconteceu à Maria? Onde está a minha filha, Spector? O Lincoln Spector ignorou o Arthur. Continuou com os olhos cravados nos meus. Tinha aquela expressão cinzenta de quem já carregou demasiados corpos em sacos e sabe que a verdade, às vezes, destrói mais do que a mentira.
— A tua mulher está a caminho do Jackson Memorial, Arthur — disse o Spector, baixinho, para os convidados não ouvirem, mas o peito dele subia e descia como se tivesse corrido uma maratona. — Está viva. Levou uma pancada na cabeça, mas os médicos dizem que está estável. O motorista também. Mas a Teresa... seja lá quem for que o tenha feito, sabia bem o que estava fazendo. Foi uma extração limpa. Três minutos. Ninguém viu nada.
Ao meu lado, o sargento Miller bateu com os punhos nos braços da cadeira de rodas, soltando um palavrão bruto da caserna que fez duas tias da Teresa recuarem assustadas. O burburinho entre os bancos subiu de tom. As fofocas pararam e o pânico espalhou-se. Os convidados começaram a levantar-se, a olhar para os polícias federais de casaco escuro junto ao portão.
Olhei para as minhas próprias mãos. Estavam perfeitamente calmas. O tremor do noivo fardado de linho desapareceu. Aquela dormência fria — o gelo do deserto que a Teresa D'Ávila tinha passado dias a tentar afastar com o cheiro a baunilha e os beijos na cozinha — travou-me o peito de uma vez só.
O noivo tinha saído de cena. O Capitão David Mercer estava de volta.
— Arthur — chamei, sem olhar para ele. O meu sogro chorava baixinho, agarrado ao telemóvel na relva. — Vai para o hospital. Fica com a tua mulher.
— E a Teresa, David?... O que é que fazemos? — gaguejou o velho, completamente desfeito.
— Eu vou trazê-la de volta — respondi, andando depressa para a saída do jardim, deixando os gritos e os convidados para trás.
O Miller empurrou as rodas da cadeira com força, a tentar acompanhar-me pela calçada.— Coveiro! Espera aí, caralho! — gritou o meu camarada, com os olhos a arder de raiva.
— Não vais sozinho. Aquilo foi uma emboscada planeada. Os gajos tinham cobertura, equipa de fuga e sabiam o caminho que o Lincoln ia fazer. Isto é trabalho de profissionais, pá. Tem o dedo do pessoal da província.Travei o passo junto ao jipe do meu pai, parado na berma.
O Lincoln Spector vinha a correr atrás de nós, com a mão no coldre, a gritar para os agentes me bloquearem a passagem.
— David, se saíres daqui, sou obrigado a meter o teu nome no relatório por obstrução! — berrou o Spector, parando a dois metros do jipe, com o distintivo da Flórida a brilhar sob a luz dos candeeiros de rua que se tinham acabado de acender. — Deixa a lei trabalhar, caralho!
Olhei para ele por cima do tejadilho. Meti a mão no bolso das calças de linho, puxei a caixa de veludo azul com o anel de noivado e atirei-a para cima do banco do passageiro.
— A minha lei ficou em Helmand, Spector — respondi, rodando a chave. O motor do jipe deu um rugido bruto que abafou os gritos dos polícias.
— E eles acabaram de pisar a minha linha.
Meti a primeira e arranquei, deixando um rasto de borracha queimada no asfalto da igreja. A caçada tinha começado. A primeira paragem era a berma da estrada onde o véu da Teresa tinha ficado. Eu precisava de ver o terreno antes de começar a cobrar.