Mundo de ficçãoIniciar sessãoO sol da manhã bateu nas portadas de madeira da cabana, cortando a escuridão do quarto com linhas de luzes douradas que flutuavam cheias de poeira. Acordei por volta das cinco e alguma coisa, com o corpo em sentido e os olhos abertos fixado no teto de vigas, mas a tensão militar sumiu, assim que senti o corpo quente de Teresa, deitada bem juntinha a mim. Ela estava forrada a dormir, com o edredom puxado até a cabeça e o braço atirado por cima da minha barriga. O cabelo castanho estava todo espalhado pelo meu ombro, colado a minha pele sobre o sour leve da noite. Fiquei aí quieto, contemplando os movimentos de subir e descer do seu peito devido à ação da sua respiração, a tentar convencer-me de que já não precisava saltar da cama com a espingarda em mãos. Naquele momento, o deserto parecia pertencer a outro planeta.
Algumas horas mais tarde, o calor da manhã já começava a se fazer sentir lá fora. A Teresa abrira a janela da cozinha e a brisa semi quente trazia o cheiro a terra e a erva abundante por aquelas paragens para dentro da cabana. Ela estava de pé junto à bancada, preparando um café fresco na cafeteira de metal, vestindo apenas uma t-shirt preta minha que lhe chegava a meio das coxas e com o cabelo apanhado num coque desleixado.
Aproximei-me por trás, sem fazer barulho no chão de madeira, e envolvi-lhe a cintura com os braços, puxando-a para junto de mim e contra o meu peito. Ela deu um pequeno sobressalto, soltando uma gargalhada curta enquanto o cheiro a café e a baunilha invadia minhas narinas.
— Que mania de gajo do exército, David. Pareces um felino a andar por esta casa — queixou-se ela, mas encostou as costas contra o meu peito fardado de músculos, virando o rosto para trás para me olhar. — Já tens os olhos limpos ou ainda queres ir escavar trincheiras no quintal?
— Os meus olhos estão ótimos, miúda — murmurei, descendo os lábios até à curva do pescoço dela, sentindo a pele macia arrepiar-se instantaneamente com o toque da minha barba por fazer. — E o quintal pode esperar. Esta t-shirt fica-te bem. Fica-te melhor a ti do que a mim, foda-se.
Teresa virou-se depressa dentro do meu abraço, metendo as duas mãos no meu peito, com aquela ruga familiar a aparecer no meio das sobrancelhas.
— Olha o linguajar, senhor fuzileiro. O combinado foi deixar as asneiras da caserna na areia. Se começas com esses modos brutos no meio da floresta, os bichos assustam-se. E para além disso, a t-shirt é minha agora. Podes ir esquecendo-a.
— É o que tu quiseres, noiva — curvei os lábios, segurando-a pela curva das ancas e puxando-a um bocado mais para mim, sentindo a eletricidade sexual subir-me pelas pernas com o contacto das nossas peles. — Mas vais ter de pagar o aluguer da roupa.
Os Olhos verdes dela escureceram um bocado, ganhando aquele brilho pesado de quem sabia perfeitamente o efeito que tinha sobre mim. Ela esticou os braços e entrelaçou os dedos na minha nuca, puxando-me para baixo com uma lentidão provocadora. O beijo começou calmo, com o gosto a café quente e com a intimidade de quem conhecia de cor, mas o ritmo mudou depressa. A fome que tínhamos acumulado durante os quatro anos de separação estava mesmo ali, latente em cada toque. A mão dela subiu pelas minhas costas, arranhando levemente a pele enquanto a minha língua descia sobre a linha da sua mandíbula, fazendo-a soltar um grito curto que ecoou no silêncio sobre as paredes daquela cabana.
— O café vai arrefecer... — sussurrou ela contra os meus lábios, sem fazer o mais pequeno esforço para se afastar.
— Que se lixe o café — respondi com a voz mais rouca, pegando nela ao colo com um único movimento de força. A Teresa prendeu as pernas à volta da minha cintura, rindo-se baixinho com a surpresa, e caminhamos de volta para o quarto à luz do dia.
O que se seguiu foi uma tarde inteira de pegação bruta, lençois torcidos e uma atração carnal que parecia queimar as paredes da cabana. Nós não fazíamos amor; nós devorávamo-nos. A Teresa arranhava-me os ombros a cada investida, soltando gemidos que eu abafava com a minha boca para não quebrar o transe daquele quarto. O corpo dela encaixava no meu como se tivéssemos sido desenhados pelo mesmo engenheiro. Fizemos sexo na cama, encostados à parede de madeira e de volta à cozinha, ignorando o almoço, deixando-nos levar por um chamego suado e violento que limpava qualquer vestígio de dor ou distância que a guerra tivesse tentado meter entre nós. A química era palpável, pesada como o bafo da Flórida. Ao final da tarde, exaustos e agarrados no tapete da sala, a Teresa dormitava com a cabeça no meu peito, com um sorriso de pura satisfação. Nós estávamos no auge do nosso mundo.
Meu cérebro de militar nunca se desligou totalmente daquele ambiente. Era a minha pior porcaria de defeito.
Assim que Teresa adormeceu profundamente na cama depois daquela maratona, o sol começou a desaparecer por trás dos pinheiros, deixando aquela floresta num tom afogueado que lentamente foi sendo substituído por um azul fresco. Olhei de relance pela janela. A carrinha cinzenta permanecia parada lá ao fundo do caminho.
Chega desta merda, pensei. O Capitão de infantaria assumiu o controlo. Eu precisava limpar o terreno. Melhor tirar isso a limpo agora do que pôr a minha noiva em risco.
Sai da cabana sem fazer um único ruído na madeira, descalço, vestido apenas com os jeans velhos. Abri a mochila e tirei a minha faca de combate Ka-Bar. O metal escuro não refletia nada. Deslizei pela cabana e entrei no mato como uma sombra. O treino de infiltração anfíbia e caça noturna em Helmand corria-me nas veias. Movi-me entre os troncos pela floresta quase sem pisar um ramo seco sequer, controlando a respiração e usando a caruma para abafar os passos.
Em poucos minutos, estava a escassos metros da carrinha cinzenta.
Apanhei os vultos lá dentro pelo vidro lateral. Dois gajos. Um deles com um rádio na mão; o outro olhava uns papeis com uma lanterna de luz vermelha.
O meu coração baixou o ritmo. Frieza tática. Avancei pelo lado cego do jipe, saltei para cima do estribo lateral e, antes que o gajo do lado do passageiro pudesse piscar os olhos, estortei a janela aberta, enfiei o meu braço esquerdo pelo pescoço dele e enterrei a ponta da Ka-Bar mesmo por baixo do queixo do gajo do volante.
— Um pio e rebento-vos a traqueia aos dois, caralho! — sibilei, com a voz que usava para interrogar prisioneiros no deserto. — Quem é que vos mandou? Quem vos deu a minha localização? Falem, foda-se!
O gajo do rádio congelou, de olhos arregalados, com as mãos no ar. O gajo com a faca no pescoço engoliu em seco, sentindo o gume afiado a picar-lhe a pele. Mas em vez de sacarem de armas da máfia ou de falarem em códigos de carteis, o homem da faca soltou um gemido de puro terror e gaguejou:
— Calma, pá! Calma! Nós somos da Proteção Florestal! Olha o distintivo no painel, foda-se! Estás maluco ou quê?
Fiquei imóvel por um segundo longo. Desviei os olhos para o tablier do carro. Lá estava um crachá de metal dourado com o brasão do Estado da Flórida e um maço de relatórios sobre risco de incêndio e focos de fogo posto na região. Olhei para as fardas deles: eram camisolas verdes com o símbolo dos guardas florestais do parque. Não eram mafiosos. Não eram snipers. Não eram ninguém do submundo.
A carrinha cinzenta pertencia ao departamento florestal do Estado. Eles andavam a vigiar o quarteirão e a estrada secundária porque a zona estava sob alerta máximo de seca e fogos postos por causa dos turistas parvos que deixavam lareiras acesas.
Retirei a faca do queixo do homem devagarinho, sentindo o sangue congelar-me no corpo de uma maneira completamente diferente. Uma vergonha brutal e pesada abateu-se sobre mim.
— Desculpem lá... — murmurei, guardando a lâmina atrás das costas. — Pensei que... pensei que eram outra malta.
— Tu és o gajo militar que alugou a cabana do Joe, não és? — o guarda do rádio limpou o suor da testa, a tremer. — O Joe avisou-nos que vinhas para cá descansar da guerra, mas tu estás completamente passado da cabeça, caralho! Ia-nos matando por causa de uma ronda de rotina! Sai mas é daqui antes que eu chame a polícia estadual!
Não disse mais nada. Saltei do estribo do carro e voltei para trás, caminhando pelo mato com os pés a pisar a caruma sem me importar com o barulho. O bicho da guerra na minha cabeça tinha-me pregado a maior partida da minha vida. Não havia conspiração nenhuma. Não havia mafiosos em Miami. A carrinha do aeroporto era apenas uma coincidência parva de trânsito, e esta aqui era só trabalho do Estado.
Toda aquela tensão, toda a paranoia que me tinha roído o estômago desde que aterrei, era apenas o lixo do Afeganistão enfiado dentro da minha mente de civil. Eu estava limpo. O mundo estava seguro.
Entrei na cabana, fechei a porta e guardei a faca no fundo da mala, sentindo um alívio ridículo a subir-me pelo peito. Caminhei até ao quarto e deitei-me ao lado da Teresa, que se mexeu no colchão e me abraçou pelo pescoço, ainda meio a dormir.
— Onde foste?... Estás frio — murmurou ela, colando o corpo quente ao meu.
— Fui só ver o gerador, miúda — respondi, e pela primeira vez o meu sorriso foi 100% verdadeiro. Beijei-lhe os cabelos com ternura. — Dorme lá. Está tudo bem. Está tudo calmo na floresta.
Fechei os olhos e adormeci como já não adormecia há anos, crente de que o inferno tinha finalmente ficado para trás. Mal eu sabia que, enquanto o lobo de verdade esperava em Miami pela nossa volta, a minha guarda tinha acabado de cair por completo.