Mundo de ficçãoIniciar sessãoO abraço da minha mãe cheirava ao mesmo sabão de lavanda de sempre, mas os meus braços fardados, duros como uma rocha que ela não conhecia, demoraram um pouco a ceder. Estávamos na casa dela em Miami, no almoço de despedida, antes de eu e Teresa nos pormos a estrada para um retiro de final de semana que a muito eu sonhara, lá, nos campos desérticos afegãos. O meu tio Joe deu-me um leve e amigável soco no ombro, daqueles que quase deslocam o gajo do sítio e apontou com o polegar para a cozinha.
— Deixa lá o rapaz respirar, Maria — resmungou o velho Joe, a rir-se com aquele sotaque arrastado que trazia de Boston. — O David passou quatro anos a levar ordens de sargentos mal-encarados. O que ele precisa agora é de silêncio, carne assada e de levar a noiva para longe desta confusão da cidade. Juízo nessa cabana, ouviram?
— Deixa estar, tio. Juízo é coisa que não me falta — respondi, forçando um sorriso limpo enquanto enfiava a última mala no banco de trás do jipe do meu pai.
Teresa despediu-se com dois beijos quentes na bochecha da minha mãe, rindo-se das recomendações parvas dos casacos que tínhamos que levar por causa do frio da noite da floresta. Ela estava linda. usava uns jeans simples e uma camisola verde de manga que faziam os olhos dela parecerem mais brilhantes sobre a luz da Flórida. quando entramos no jipe e fizemo-nos à estrada em direção ao norte, a mão dela colou-se logo a minha em cima do travão de mão.
— Finalmente a sós, Capitão — disse ela, apertando os meus dedos com carinho. — Duas noites sem telefone, sem listas de casamento e sem a minha mãe a ligar de cinco em cinco minutos a perguntar a cor dos guardanapos. Só tu, eu, as árvores e o barulho dos grilos.
— Parece-me um plano do caraças, miúda — respondi, e dei por mim a olhar pelo espelho retrovisor por puro instinto militar.
— Olha o linguajar, David. Já combinámos isso. Se começas a soltar asneiras no meio do mato, os ursos assustam-se.
Curvei os lábios, sentindo o calor da mão dela limpando um pouquinho do gelo que ainda trazia na alma. conduzi durante duas horas deixando Miami para trás e entrando para as estradas secundárias onde as árvores começavam a fechar o céu na abóbada densa e verde.
A cabine do jipe cheirava a couro e ao cheiro de baunilha dela. a Teresa passava o tempo a cantarolar as músicas parvas que passavam na rádio, a falar da horta que queria plantar na nossa casa nova e a debochar de como eu ainda conduzia como se estivesse a desviar de minas artesanais na província de Helmand. Havia uma cumplicidade tão leve e sólida entre nós que eu quase acreditei que o bicho da guerra tinha morrido lá longe no deserto. Nós estávamos felizes, no topo do mundo,a desenhar o futuro com a certeza de quem havia vencido o pior.
O problema é que o diabo não dorme.
A cabana de madeira ficava num vale isolado, cercada de pinheiros gigantes e a uns bons trezentos metros do vizinho mais próximo. O chão estava coberto de folhagem seca que estalava por debaixo dos pneus do jipe.
Desliguei o motor e o silêncio da floresta engoliu-nos. A Teresa saltou do carro com a alegria de uma miúda, correu para a varanda de madeira e abriu a porta de pinho, maravilhada com o interior que cheirava a lareira e a cera de abelha.
Enquanto ela desfazia a mala pequena na cama de casal perto da janela, eu fiquei na varanda fingindo que respirava o ar puro do mato, mas os meus instintos estavam a fazer a varredura completa da linha das árvores.
Lá ao fundo, no final do caminho de terra batida que dava acesso a estrada principal, o meu estômago deu um nó de ferro
A carrinha cinzenta de vidros fumados estava lá, imóvel e pronta para atacar quando o sinal sonoro fosse expelido da maquininha de bolso com visor minúsculo.
Estava imobilizada na escuridão dos ramos mais baixos a uns trezentos ou quatrocentos metros de distância. O motor estava desligado mas a silhueta do tejadilho e os reflexos nos vidros escuros eram inconfundíveis. aqueles filhos da puta tinham nos seguido desde a casa da minha mãe. Tinham cronometrado a nossa viagem, mapeado as nossas paragens para abastecimento e sabiam agora que estávamos completamente isolados aqui no meio do nada, sem rede de telefone decente e sem vizinhos para pedir socorro.
A minha respiração ficou pausada, curta. O ritmo cardíaco baixou por proteção e o frio do metal se apoderou de mim outra vez. O capitão de infantaria acordou com um estalo na minha nuca.
— David? Estás aí fora há que tempos. Vem cá ajudar-me com o lume da lareira, que isto está a ficar fresco — chamou a Teresa de dentro da cabana, com aquela voz doce que me esmagava o coração.
Soltei o corrimão da varanda devagarinho, cerrando os dentes. Voltei para dentro e forcei o sorriso mais limpo que consegui arrancar da minha cara fardada de tensão. Não a podia assustar. Não agora que ela estava a viver o sonho dela.
— Já vou, noiva — respondi, com a voz arrastada e calma. Agachei-me junto à lareira de pedra e comecei a empilhar os troncos de madeira seca. — O lume fica pronto num instante. Depois vou só dar uma volta ali atrás da casa para ver se o gerador de água tem combustível suficiente para a noite. Não vá esta merda falhar a meio do teu banho.
Teresa aproximou-se por trás, ajoelhou-se ao lado do tapete de pele, me dando um beijo quente na bochecha e se inclinando, aconchegada ao meu corpo, com o seu corpo quente.
— E tu não vais usar esses palavrões na presença do fogo, senão a lenha não arde — brincou ela, limpando uma lasca de madeira da minha t-shirt. — Relaxa esse corpo, David. Olha para mim. Estamos juntos. Ninguém vai nos incomodar aqui. É o nosso refúgio.
Olhei para os olhos verdes dela, tão cheios de planos e de amor puro, e engoli o pânico que me subia pela garganta. Dei-lhe um beijo demorado na testa, sentindo o peso da caixa do anel de noivado a queimar-me o bolso das calças.
— Tens razão, miúda — menti com suavidade, apertando-lhe a mão com força. — Ninguém nos vai incomodar.
Teresa sorriu, feliz da vida e levantou-se para ir buscar duas canecas de chá quentinho na cozinha improvisada. Fiquei ali, sentado a olhar para as chamas que cresciam na lareira, alheio ao calor do fogo, com a certeza quase absoluta de que a qualquer momento a caçada iria começar.
Lá fora, o vento calou-se de repente. Era a calmaria antes do primeiro golpe.