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Capítulo 2: O Último Refúgio

O abraço da minha mãe cheirava ao mesmo sabão de lavanda de sempre, mas os meus braços fardados, duros como uma rocha que ela não conhecia, demoraram um pouco a ceder. Estávamos na casa dela em Miami, no almoço de despedida, antes de eu e Teresa nos pormos a estrada para um retiro de final de semana que a muito eu sonhara, lá, nos campos desérticos afegãos. O meu tio Joe deu-me um leve e amigável soco no ombro, daqueles que quase deslocam o gajo do sítio e apontou com o polegar para a cozinha.

— Deixa lá o rapaz respirar, Maria — resmungou o velho Joe, a rir-se com aquele sotaque arrastado que trazia de Boston. — O David passou quatro anos a levar ordens de sargentos mal-encarados. O que ele precisa agora é de silêncio, carne assada e de levar a noiva para longe desta confusão da cidade. Juízo nessa cabana, ouviram?

— Deixa estar, tio. Juízo é coisa que não me falta — respondi, forçando um sorriso limpo enquanto enfiava a última mala no banco de trás do jipe do meu pai.

Teresa despediu-se com dois beijos quentes na bochecha da minha mãe, rindo-se das recomendações parvas dos casacos que tínhamos que levar por causa do frio da noite da floresta. Ela estava linda. usava uns jeans simples e uma camisola verde de manga que faziam os olhos dela parecerem mais brilhantes sobre a luz da Flórida. quando entramos no jipe e fizemo-nos à estrada em direção ao norte, a mão dela colou-se logo a minha em cima do travão de mão.

— Finalmente a sós, Capitão — disse ela, apertando os meus dedos com carinho. — Duas noites sem telefone, sem listas de casamento e sem a minha mãe a ligar de cinco em cinco minutos a perguntar a cor dos guardanapos. Só tu, eu, as árvores e o barulho dos grilos.

— Parece-me um plano do caraças, miúda — respondi, e dei por mim a olhar pelo espelho retrovisor por puro instinto militar.

— Olha o linguajar, David. Já combinámos isso. Se começas a soltar asneiras no meio do mato, os ursos assustam-se.

Curvei os lábios, sentindo o calor da mão dela limpando um pouquinho do gelo que ainda trazia na alma. conduzi durante duas horas deixando Miami para trás e entrando para as estradas secundárias onde as árvores começavam a fechar o céu na abóbada densa e verde.

A cabine do jipe cheirava a couro e ao cheiro de baunilha dela. a Teresa passava o tempo a cantarolar as músicas parvas que passavam na rádio, a falar da horta que queria plantar na nossa casa nova e a debochar de como eu ainda conduzia como se estivesse a desviar de minas artesanais na província de Helmand. Havia uma cumplicidade tão leve e sólida entre nós que eu quase acreditei que o bicho da guerra tinha morrido lá longe no deserto. Nós estávamos felizes, no topo do mundo,a desenhar o futuro com a certeza de quem havia vencido o pior.

O problema é que o diabo não dorme.

A cabana de madeira ficava num vale isolado, cercada de pinheiros gigantes e a uns bons trezentos metros do vizinho mais próximo. O chão estava coberto de folhagem seca que estalava por debaixo dos pneus do jipe.

Desliguei o motor e o silêncio da floresta engoliu-nos. A Teresa saltou do carro com a alegria de uma miúda, correu para a varanda de madeira e abriu a porta de pinho, maravilhada com o interior que cheirava a lareira e a cera de abelha.

Enquanto ela desfazia a mala pequena na cama de casal perto da janela, eu fiquei na varanda fingindo que respirava o ar puro do mato, mas os meus instintos estavam a fazer a varredura completa da linha das árvores.

Lá ao fundo, no final do caminho de terra batida que dava acesso a estrada principal, o meu estômago deu um nó de ferro

A carrinha cinzenta de vidros fumados estava lá, imóvel e pronta para atacar quando o sinal sonoro fosse expelido da maquininha de bolso com visor minúsculo.

Estava imobilizada na escuridão dos ramos mais baixos a uns trezentos ou quatrocentos metros de distância. O motor estava desligado mas a silhueta do tejadilho e os reflexos nos vidros escuros eram inconfundíveis. aqueles filhos da puta tinham nos seguido desde a casa da minha mãe. Tinham cronometrado a nossa viagem, mapeado as nossas paragens para abastecimento e sabiam agora que estávamos completamente isolados aqui no meio do nada, sem rede de telefone decente e sem vizinhos para pedir socorro.

A minha respiração ficou pausada, curta. O ritmo cardíaco baixou por proteção e o frio do metal se apoderou de mim outra vez. O capitão de infantaria acordou com um estalo na minha nuca.

— David? Estás aí fora há que tempos. Vem cá ajudar-me com o lume da lareira, que isto está a ficar fresco — chamou a Teresa de dentro da cabana, com aquela voz doce que me esmagava o coração.

Soltei o corrimão da varanda devagarinho, cerrando os dentes. Voltei para dentro e forcei o sorriso mais limpo que consegui arrancar da minha cara fardada de tensão. Não a podia assustar. Não agora que ela estava a viver o sonho dela.

— Já vou, noiva — respondi, com a voz arrastada e calma. Agachei-me junto à lareira de pedra e comecei a empilhar os troncos de madeira seca. — O lume fica pronto num instante. Depois vou só dar uma volta ali atrás da casa para ver se o gerador de água tem combustível suficiente para a noite. Não vá esta merda falhar a meio do teu banho.

Teresa aproximou-se por trás, ajoelhou-se ao lado do tapete de pele, me dando um beijo quente na bochecha e se inclinando, aconchegada ao meu corpo, com o seu corpo quente.

— E tu não vais usar esses palavrões na presença do fogo, senão a lenha não arde — brincou ela, limpando uma lasca de madeira da minha t-shirt. — Relaxa esse corpo, David. Olha para mim. Estamos juntos. Ninguém vai nos incomodar aqui. É o nosso refúgio.

Olhei para os olhos verdes dela, tão cheios de planos e de amor puro, e engoli o pânico que me subia pela garganta. Dei-lhe um beijo demorado na testa, sentindo o peso da caixa do anel de noivado a queimar-me o bolso das calças.

— Tens razão, miúda — menti com suavidade, apertando-lhe a mão com força. — Ninguém nos vai incomodar.

Teresa sorriu, feliz da vida e levantou-se para ir buscar duas canecas de chá quentinho na cozinha improvisada. Fiquei ali, sentado a olhar para as chamas que cresciam na lareira, alheio ao calor do fogo, com a certeza quase absoluta de que a qualquer momento a caçada iria começar.

Lá fora, o vento calou-se de repente. Era a calmaria antes do primeiro golpe.

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