Lavínia franziu a testa.
— Do que você está falando?
Débora se aproximou depressa. Uma marca vermelha de tapa se destacava em seu rosto, ainda molhado de lágrimas.
— Por que aproveitou que Pietro foi ao banheiro para queimar os documentos? Ele não descansou nem no hospital por causa desse caso! Ficou procurando pistas o tempo todo. O retrato falado do suspeito estava no meio daqueles papéis. Sabe como essa pista era importante?
Lavínia encarou Débora com frieza.
— Eu não fiz isso. Fiquei o tempo todo no quarto. Nem saí de lá. Você está tentando me incriminar...
Pietro respondeu, frio e decepcionado:
— Está dizendo que Débora queimou os documentos só para jogar a culpa em você? Sabe o quanto ela se dedicou a esse caso? Virou várias noites seguidas na delegacia para encontrar esse suspeito o quanto antes! Sei que você nunca aceitou que eu fosse próximo dela e que ainda me culpa pelo que aconteceu com Clara. Mas isso não te dá o direito de atrapalhar uma investigação e colocar a segurança dos outros em risco!
Lavínia enrijeceu. Ergueu o rosto e encarou Pietro.
— E o que você pretende fazer?
A frieza daquele olhar doeu. Ele ficou ainda mais irritado.
— Já que se recusa a admitir o erro, vai passar dois dias no depósito do porão, pensando no que fez.
Os olhos dela ficaram vermelhos.
— Vai me trancar? Nem apurou o que aconteceu de verdade! Que direito você tem de me prender?
— Você não tem escolha.
Pietro segurou seu pulso, empurrou Lavínia para dentro do depósito e fechou a porta.
Ela ouviu a voz irritada do outro lado:
— Pensa bem no que fez! Só vai sair quando reconhecer seu erro!
Diante da porta fechada, Lavínia começou a rir.
As lágrimas vieram junto, num misto de desolação e alívio por finalmente não ter mais dúvidas.
Ficou trancada por dois dias.
No primeiro, Débora abriu a porta com uma marmita e despejou a comida no chão.
No segundo, voltou e jogou um saco para dentro. Alguns ratos saíram dele.
Ao ouvir os animais se movimentando no escuro, Lavínia perdeu a calma.
Rastejou até a porta e começou a bater desesperadamente.
— Pietro! Me tira daqui!
Ela não sabia quanto tempo passara quando a porta finalmente abriu.
Pietro ficou surpreso com o estado em que encontrou Lavínia.
Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, ela desmaiou, vencida pela fome e pelo pavor.
Quando acordou, estava deitada na cama, com Pietro ao lado.
Ele ajudou Lavínia a se sentar, ajeitou o travesseiro atrás das costas dela e trouxe uma tigela de sopa de legumes morna.
— Toma um pouco primeiro.
Ela não falou nem esboçou uma reação.
Apenas abriu a boca e engoliu as colheradas que ele oferecia.
Quando terminou, Pietro pegou um vestido vermelho.
— Hoje é seu aniversário. Pedi uma folga na delegacia só para levar você para jantar e comemorar.
Lavínia ergueu os olhos, distante.
— Não vou.
Em cinco anos de casamento, Pietro nunca tinha comemorado o aniversário dela em sua companhia, nem o aniversário de casamento dos dois.
Antes, seu maior desejo era que ele deixasse o trabalho de lado por algumas horas para passar ao menos um aniversário com ela.
Agora, já não precisava disso.
Ele insistiu:
— Vamos. Você anda muito triste desde que Clara morreu. Convidei alguns amigos. Você conhece todo mundo.
Pietro não desistiu de tentar convencer ela.
Por fim, Lavínia vestiu a roupa e acompanhou ele ao restaurante onde fizera a reserva.
Todos os convidados eram colegas da delegacia que ela já conhecia.
Pouco depois de começarem a comer, Débora entrou correndo.
— Pietro, surgiu uma ocorrência urgente!
Ele largou os talheres e olhou para Lavínia, culpado.
— Desculpa por isso. Você vai ter que voltar sozinha.
O grupo saiu às pressas e foi embora de carro.
Lavínia também deixou os talheres sobre a mesa.
Chovia muito. Quase não havia carros nem pessoas na rua.
Ela esperou por um longo tempo, mas o temporal não diminuiu.
A noite avançava. Quando o restaurante precisou fechar, Lavínia se levantou e saiu debaixo de chuva para voltar para casa.
Ao passar por um beco, uma mão surgiu por trás e tapou sua boca com força.
Antes que conseguisse reagir, ela começou a ser arrastada para o fundo da passagem.