Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Cecília
Olhei instintivamente para as grandes portas de vidro do quarto que davam para as sacadas e os jardins escuros da mansão. O arrepio que subiu pela minha espinha misturava pavor e uma maldita e indesejada nostalgia.
Eu disse a mim mesma que não cederia. Fui até o banheiro, lavei o rosto com água fria e troquei o vestido de grife por um roupão de seda, amarrando-o firmemente na cintura. O relógio digital na mesa de cabeceira marcou 23:55.
Caminhei até a sacada com a intenção de trancar a porta e puxar as cortinas pesadas, encerrando aquele jogo estúpido. Mas, ao tocar na maçaneta de metal gelado, os meus dedos hesitaram. A memória do beijo no corredor escuro — a textura dos lábios dele, o desespero palpável — invadiu a minha mente.
Click.
Eu não a tranquei. Apenas a deixei encostada.
Afastei-me rapidamente, sentindo o coração bater na garganta, e sentei-me na beira da cama, envolta pelas sombras do quarto iluminado apenas pelo luar que invadia o vidro.
Exatamente à meia-noite, a brisa fria agitou a cortina de tecido fino. Uma sombra desprendeu-se da escuridão da sacada e deslizou para dentro do meu quarto em absoluto silêncio.
Rafael.
Ele usava roupas escuras, o cabelo levemente bagunçado pelo vento. Quando os olhos dele encontraram os meus, um alívio doentio cruzou as suas feições. Ele fechou a porta de vidro atrás de si sem fazer o menor ruído.
— Você deixou aberto — ele sussurrou, a voz tão baixa que mal passava de um sopro no ambiente silencioso.
— Você não deveria estar aqui, Rafael — sussurrei de volta, levantando-me rapidamente, a culpa e a adrenalina queimando nas minhas veias. — Se o seu irmão ou a sua mãe...
— Eu não me importo com eles — ele cortou, diminuindo a distância entre nós com passos predatórios e silenciosos. Parou a centímetros de mim. O cheiro da colônia francesa nublou a minha sanidade. — Eu me importo com o fato de que você está casada com outro homem. Debaixo do teto da mulher que arruinou a nossa vida.
— Fui eu que assinei o contrato. Para salvar o meu pai. Você perdeu o direito de se importar há três anos.
Rafael fechou os olhos, uma expressão de agonia pura contorcendo o seu rosto. Ele ergueu as mãos e segurou os meus ombros. O toque dele era febril.
— O que nós tivemos nunca me permitiram seguir em frente, Cecília. Eu tentei. Deus sabe como eu tentei te esquecer em Paris. Mas ver você hoje, com a marca daquele monstro na sua cintura... eu enlouqueci.
Eu ia mandar que ele soltasse, ia dizer que o odiava. Mas, quando abri a boca, ele não me deu chance.
As mãos dele desceram para a minha nuca, puxando-me com uma urgência devastadora. A boca de Rafael chocou-se contra a minha. Diferente do beijo raivoso do corredor, este carregava desespero, súplica e um desejo profundo.
O meu cérebro gritou para empurrá-lo, mas o meu corpo traidor derreteu contra o dele. Os nossos corações batiam descompassados e em uníssono, ensurdecedores. Abri os lábios, cedendo à pressão, e as mãos dele apertaram a minha cintura através da seda do roupão. O gosto familiar dele anestesiou o meu medo. Eu estava a cometer o maior erro da minha vida.
E então, o som ecoou como um tiro.
CLACK.
O barulho metálico e pesado da fechadura da porta comunicante sendo destrancada pelo lado de Alexander.
O sangue congelou nas minhas veias. O pânico explodiu no meu peito, roubando todo o ar.
Arranquei a minha boca da de Rafael num solavanco violento, os meus olhos arregalados de puro terror encontrando os dele. Rafael arregalou os olhos.
— Vai! — sussurrei, empurrando-o com toda a força em direção à sacada.
Rafael moveu-se com a agilidade do desespero. Ele cruzou o quarto num piscar de olhos, escorregou pela porta de vidro e desapareceu na escuridão da sacada, encostando a fresta no exato milésimo de segundo em que a maçaneta de carvalho maciço girou.
A pesada porta comunicante se abriu.
Apertei as mãos no tecido do roupão, virando-me bruscamente para tentar disfarçar a respiração ofegante e os lábios inchados.
Alexander estava ali, emoldurado pelo batente da porta.
A visão era desestabilizadora. A armadura de CEO implacável havia sumido. Ele vestia apenas uma calça de moletom preta, o peito largo e esculpido completamente nu, os músculos tensos. O cabelo escuro estava despenteado, como se ele tivesse passado as mãos por ele dezenas de vezes.
Ele deu dois passos para dentro do meu quarto. A presença dele sugou todo o oxigênio restante.
— Alexander... — a minha voz saiu mais aguda do que o normal. — O que está fazendo aqui?
Ele parou no centro do quarto. A pior parte era que ele estava de costas exatamente para as portas de vidro. Lá fora, escondido nas sombras profundas a poucos metros de distância, eu sabia que Rafael observava tudo, prendendo a respiração.
Alexander estreitou os olhos mortais, examinando o meu rosto. O silêncio dele era muito mais letal do que qualquer grito. Ele farejou o ar.
— Eu não consegui dormir — ele respondeu finalmente, a voz grave e áspera, as íris negras escurecendo ainda mais enquanto desciam para a minha boca. — Parece que você também não, esposa. E a sua respiração está acelerada.
Dei um passo para trás, sentindo as pernas bambas. Se Alexander virasse o rosto dez centímetros para a direita, ele veria a silhueta do irmão na sacada. E o meu pai morreria amanhã.
— Eu... eu tive um pesadelo — menti, a voz trêmula soando genuína devido ao meu estado de choque. — Acabei de acordar.
Alexander inclinou levemente a cabeça, como um lobo estudando a sua presa. Ele não acreditou em mim. Eu sabia que ele não tinha acreditado. Lentamente, ele caminhou na minha direção, forçando-me a erguer o rosto para encará-lo, enquanto o homem que eu acabara de beijar assistia a tudo da escuridão.







