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Capítulo 5 — Se eu descobrir que você está dando corda para as provocações infantis do Rafael, o nosso acordo acaba.

POV Cecília Mendes

O restante do jantar foi uma marcha fúnebre disfarçada de evento social. Rafael não dirigiu mais a palavra a mim, mas os seus olhos castanhos encontravam os meus a cada oportunidade, brilhando com a promessa perigosa e silenciosa que havia nascido no escuro daquele corredor.

Quando a sobremesa finalmente foi retirada, Alexander levantou-se, sinalizando o fim da tortura.

— A noite foi longa — ele declarou, a voz dominando o ambiente sem nenhum esforço. — Cecília teve um dia exaustivo. Vamos nos recolher. Boa noite, mãe. Vanessa.

Eleonora apenas apertou os lábios, enquanto Vanessa desviou o olhar, o ódio irradiando de cada poro do seu corpo. Rafael forçou um aceno contido, as mãos afundadas nos bolsos da calça.

Assim que deixamos a sala de jantar, o ar pareceu ficar mais rarefeito. Alexander não me soltou. Em vez de seguirmos direto para as escadas, ele guiou-me pelo corredor principal, os nossos passos ecoando contra o mármore italiano.

— Antes que se recolha à sua suíte, é necessário que conheça o seu território, esposa — ele disse, o tom estritamente profissional, embora a mão dele ainda queimasse na minha cintura. — Amanhã, a mídia estará em polvorosa. Você precisa saber mover-se por esta casa como se tivesse nascido nela.

O tour pela Mansão Vilar foi um vislumbre de um mundo de riqueza incalculável e frieza monumental. Alexander mostrou-me os salões de recepção, a sala de charutos e a imensa biblioteca com estantes de mogno que iam do chão ao teto.

— Os empregados têm ordens para atender a todos os seus pedidos — Alexander continuou, parando de frente para as escadarias duplas. — Mas o meu escritório, na ala oeste, é estritamente proibido. Ninguém entra lá sem a minha autorização expressa. Entendido?

— Perfeitamente — respondi, o queixo erguido. — Há mais alguma masmorra secreta que eu deva evitar, Sr. Vilar?

Ele parou no primeiro degrau da escada e olhou para baixo, na minha direção. Um sorriso cínico curvou o canto dos seus lábios.

— Não me teste, Cecília. O meu limite de paciência com as atitudes da minha família já foi esgotado hoje. Não queira esgotar a cota que reservei para você.

Subimos para o segundo andar em silêncio. Alexander parou em frente a uma porta dupla e branca na ala leste, abrindo-a para revelar uma suíte gigantesca, decorada em tons de creme, dourado e veludo. Era maior do que o meu antigo apartamento inteiro.

— Este será o seu quarto — ele anunciou, entrando logo atrás de mim.

Ele caminhou devagar até uma porta discreta de carvalho maciço na parede direita.

— Aquela é a porta comunicante — a voz dele abaixou um oitavo, tornando-se perigosamente suave. — Leva diretamente aos meus aposentos. Ela permanecerá trancada. Você tem a sua privacidade, eu tenho a minha. E, a menos que haja uma emergência, você não deve cruzá-la. O contrato é claro sobre os nossos limites físicos.

Cruzei os braços, uma faísca de rebeldia ascendendo no meu peito. A arrogância dele era insuportável.

— Pode ficar tranquilo, Alexander. Eu não tenho o menor interesse em cruzar essa porta. Diferente da sua "quase noiva" Vanessa, eu não pretendo me jogar nos seus braços.

Alexander estreitou os olhos. A distância entre nós desapareceu em dois passos largos. O instinto gritou para que eu recuasse, mas os meus pés ficaram colados no chão. Ele parou tão perto que o cheiro do seu perfume amadeirado preencheu completamente os meus pulmões.

— Vanessa não significa nada para mim — ele murmurou, a voz grave vibrando no espaço minúsculo que nos separava. — Mas preste muita atenção nas minhas próximas palavras, Cecília. Eu não sou cego. Eu vi a forma como o Rafael olhou para você durante todo o jantar.

O meu coração parou de bater. O sangue fugiu do meu rosto e um frio paralisante tomou conta do meu corpo. Ele sabe, o meu cérebro gritou em pânico. Ele descobriu tudo.

Alexander ergueu a mão. O meu corpo enrijeceu quando o nó dos seus dedos roçou levemente a pele nua do meu ombro.

— O meu irmão — Alexander continuou, o tom carregado de um desprezo letal — sempre teve o péssimo hábito de invejar tudo o que me pertence. Ele é um irresponsável que acha que pode testar a minha autoridade usando as minhas coisas. E agora, ele acha que tentar seduzir a minha esposa recém-chegada é uma forma de me atingir.

Os meus pulmões voltaram a funcionar num suspiro trêmulo e silencioso. O alívio me atingiu com tanta força que quase fechei os olhos. Ele não sabe. Alexander achava que os olhares de Rafael eram apenas rivalidade entre irmãos, a típica inveja doentia do caçula pelo primogênito. O meu segredo ainda estava a salvo.

— Não caia no jogo dele, esposa — Alexander avisou, os olhos negros cravados nos meus, exigindo submissão. — Se eu descobrir que você está dando corda para as provocações infantis do Rafael, o nosso acordo acaba. E a cirurgia do seu pai também.

Ele recuou abruptamente, a frieza retornando aos seus olhos como se a intensidade do momento anterior nunca tivesse existido.

— As suas malas chegarão amanhã de manhã. Boa noite.

Ele virou as costas e atravessou a porta de carvalho. O som da fechadura sendo trancada do lado dele ecoou pelo quarto silencioso. Fui até à porta e girei a chave do meu lado também, garantindo uma dupla barreira de proteção.

Exausta, arrastei-me até à penteadeira de mármore para tirar o colar de diamantes que parecia pesar uma tonelada no meu pescoço.

Mas quando acendi a luz do espelho, a minha respiração travou.

Ali, perfeitamente centralizado sobre o banco de veludo da penteadeira, onde eu tinha a absoluta certeza de que não havia nada há cinco minutos, estava um pequeno bilhete de papel timbrado. E ao lado dele, uma única e solitária flor de cerejeira — a mesma flor que enfeitava o campus da faculdade onde eu e Rafael costumávamos nos esconder.

Com as mãos trêmulas, peguei no bilhete. A caligrafia era inconfundível.

"Os rastros que você deixou me trouxeram até aqui. Ele pode ter a fechadura, Cecília. Mas eu sempre terei a chave. Deixe a porta da sacada aberta à meia-noite."

Olhei instintivamente para as grandes portas de vidro do quarto que davam para as sacadas e os jardins escuros da mansão. O arrepio que subiu pela minha espinha misturava pavor e uma maldita e indesejada nostalgia. O verdadeiro inferno tinha acabado de começar.

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