Mundo de ficçãoIniciar sessãoO salão nobre do Centro de Convenções Aurum exalava o cheiro opulento de madeira de lei, couro legítimo e o perfume caro dos homens e mulheres que controlavam o destino financeiro da alta sociedade.
O consórcio para a disputa da patente de biotecnologia estética da DermoScience não era apenas uma transação comercial de alto nível; era um campo de batalha silencioso, onde reputações eram trituradas e impérios eram erguidos.
Sentado à cabeceira da mesa de carvalho maciço, Arthur Valente parecia um imperador entediado, embora seus olhos cinzentos, da cor de uma tempestade iminente, estivessem afiados como lâminas.
O terno sob medida cinza-escuro moldava seus ombros largos, e a postura impecável emanava uma autoridade inabalável.
No entanto, por trás da fachada de controle absoluto, havia uma rigidez quase dolorosa em seus músculos.
Ao seu lado, Lavínia Albuquerque exibia um sorriso polido e gélido, ajustando o caimento de seu vestido de alta costura azul-safira.
Ela sussurrava algo no ouvido de Arthur, uma tentativa deliberada de marcar território diante dos outros membros do consórcio, mas ele mal a ouvia.
A mente dele estava em outro lugar, presa em um limbo de ressentimento e deveres corporativos que há anos sufocavam sua alma.
— O representante da DermoScience está atrasado — comentou Thiago Valente, com o tom sarcástico de sempre, girando uma caneta de ouro entre os dedos compridos. Um sorriso cínico brincava em seus lábios. — Se essa empresa de biotecnologia pensa que pode fazer o Grupo Valente esperar como se fôssemos meros pedintes, eles têm uma audácia quase suicida.
Arthur não respondeu.
Apenas ergueu o copo de uísque que repousava ao seu lado, levando o líquido âmbar aos lábios.
Ele precisava de anestesia.
Há sete anos, seu coração havia se transformado em pedra, e ele pretendia manter as coisas exatamente assim.
O amor era uma fraqueza que ele havia arrancado de sua vida após ser traído da forma mais sórdida possível.
De repente, as grandes portas duplas de mogno do salão se abriram.
O murmúrio baixo que preenchia a sala de reuniões silenciou-se instantaneamente, cortado por uma súbita onda de tensão.
O som que se seguiu foi o ritmo firme e hipnótico de saltos altos contra o piso de mármore polido.
Toc. Toc. Toc.
Cada batida parecia ecoar diretamente no peito de Arthur, um batucar que fez seu coração falhar uma batida.
Um arrepio involuntário subiu por sua espinha, uma reação visceral que ele não sentia há quase uma década.
Ele conhecia aquele andar.
Ele conhecia o ritmo daquela presença, mesmo que sua mente lógica tentasse lhe dizer que era impossível.
Pela soleira, entrou uma mulher que parecia ter sido esculpida a partir da própria definição de poder e majestade.
Ela vestia um terno de alfaiataria verde-esmeralda que abraçava suas curvas com uma sofisticação letal.
Seus cabelos castanho-escuros caíam em ondas perfeitas até a metade das costas, brilhando sob as luzes do teto.
Mas foram os olhos que paralisaram o salão.
Verdes, intensos, altivos.
Olhos que carregavam a profundidade de um oceano que já havia sobrevivido a inúmeros naufrágios e emergido ainda mais profundo.
Helena Lacerda estava de volta.
Não a garota assustada, vulnerável e de coração despedaçado que foi expulsa debaixo de uma tempestade, acusada de uma traição que nunca cometeu.
Aquela menina ingênua havia morrido na mesma noite em que foi banida.
Em seu lugar, erguia-se uma soberana inabalável.
Arthur travou.
O copo de uísque congelou a milímetros de sua boca.
Seus olhos cinzentos se arregalaram sutilmente, as pupilas se dilatando enquanto o ar sumia de seus pulmões de forma brusca.
O tempo parecia ter dobrado sobre si mesmo.
O rosto que o assombrava em cada noite de insônia, a boca que ele havia jurado esquecer e odiar, o perfume sutil de jasmim e sândalo que agora invadia o ambiente...
era ela.
Real.
Viva.
E infinitamente mais deslumbrante e inacessível do que ele ousava lembrar.
— Boa tarde a todos — a voz de Helena ecoou pelo salão, rica, aveludada e desprovida de qualquer hesitação.
Ela não olhou diretamente para Arthur de imediato, embora pudesse sentir o calor do olhar dele queimando sua pele como ferro em brasa.
Cada fibra de seu corpo clamava para correr dali, para se esconder da intensidade daqueles olhos cinzentos que tanto amava.
Mas ela não podia.
O rosto pálido de seu pequeno Léo na cama do hospital, lutando contra a leucemia, era o escudo que protegia seu coração.
Ela precisava dessa patente.
Precisava do poder que ela trazia para salvar seu filho.
— Peço desculpas pelo breve atraso — continuou Helena, com um sorriso mínimo e cortante nos lábios. — O trânsito desta cidade continua tão imprevisível quanto a lealdade de seus habitantes.
Uma alfinetada sutil, mas que atingiu o clã Valente como um golpe de chicote bem direcionado.
Lavínia empalideceu sob a camada espessa de maquiagem, seus olhos azuis afiados estreitando-se em puro veneno e descrença.
Thiago parou de girar a caneta, a mandíbula caindo levemente, o pânico cruzando suas feições por uma fração de segundo antes de ser mascarado pela arrogância habitual.
Helena caminhou até a extremidade oposta da mesa, posicionando-se exatamente de frente para Arthur.
Ela deslizou uma pasta de couro preta sobre a madeira polida e sentou-se com uma elegância fluida, cruzando as pernas de forma deliberada.
— Meu nome é Helena Lacerda. Sou a diretora-executiva e detentora majoritária da patente de regeneração celular da DermoScience — ela declarou, sustentando o olhar de todos na sala, antes de finalmente fixar seus olhos verdes nos cinzentos de Arthur. — E estou aqui para decidir se o Grupo Valente é digno de fazer parceria com a minha empresa.
O silêncio que se instalou na sala era tão denso que era possível ouvir a respiração tensa dos presentes.
Os membros do consórcio se entreolhavam, chocados com a audácia daquela mulher que no passado foi o maior escândalo da cidade.
Arthur sentiu um soco invisível no estômago.
Helena.
A sua Helena.
A mulher que ele acreditava tê-lo vendido por trinta moedas de prata para a concorrência, a mulher que ele havia odiado com a mesma intensidade com que a amava, estava ali.
Ela não estava na miséria, como sua família havia garantido que ela estaria.
Ela era a dona do jogo.
— Helena... — o nome escapou dos lábios de Arthur em um sussurro rouco, quase inaudível, carregado de uma dor antiga e de uma urgência que ele não conseguiu conter.
— Para você, é Sra. Lacerda, Sr. Valente — ela o cortou imediatamente, a voz fria como o gelo ártico, embora por dentro seu peito estivesse em pedaços.
Olhar para ele de tão perto era uma tortura física.
O maxilar bem marcado, as feições esculpidas que ela tantas vezes acariciava nas madrugadas de amor, o aroma amadeirado que ainda a fazia se sentir segura...
tudo nele gritava passado.
E o pior:
o formato de seus olhos era idêntico ao de Léo.
A semelhança era uma bomba-relógio que ela precisava desarmar a todo custo.
— Isso é um absurdo! — Lavínia finalmente recuperou a voz, levantando-se parcialmente, a voz estridente de indignação. — Arthur, você não vai permitir essa palhaçada. Essa mulher é uma golpista! Ela foi banida desta família, desta sociedade por roubo de segredos industriais! Como ela ousa entrar aqui e ditar regras?
— Silêncio, Lavínia — a voz de Arthur ecoou pela sala, baixa, mas carregada de uma autoridade tão perigosa que a noiva se calou instantaneamente, com o rosto vermelho de humilhação.
Arthur não desviou os olhos de Helena por um único segundo.
Havia uma eletricidade estática entre eles, uma atração incontrolável, violenta e ressentida que ameaçava incendiar o próprio ar da sala.
Sete anos de separação, sete anos de mentiras e silêncio absoluto evaporaram diante daquela proximidade forçada.
— Sra. Lacerda — Arthur pronunciou o sobrenome dela como se estivesse mastigando vidro, a voz destilando uma raiva fria. Seus dedos se fecharam ao redor do copo de uísque com mais força. — Você voltou. E parece ter esquecido que o Grupo Valente tem o poder de esmagar qualquer startup que tente nos desafiar. A patente que você possui... nós podemos simplesmente replicá-la, ou comprá-la de você por uma fração do que ela vale se fecharmos as portas do mercado nacional para a sua empresa.
Helena inclinou-se ligeiramente para a frente, apoiando os cotovelos na mesa.
Um sorriso calmo, quase felino, brincou em seus lábios vermelhos.
— Tente, Sr. Valente — ela desafiou, a voz suave e mortalmente perigosa. — A fórmula da DermoScience é protegida por sete chaves criptografadas e registrada sob patentes internacionais de biotecnologia, que os seus advogados levariam décadas para tentar contornar. Enquanto vocês tentam me esmagar, suas ações continuam despencando devido aos escândalos internos que vocês tanto tentam abafar sob o tapete. Vocês precisam de mim para salvar o império de sua família. Eu não preciso de vocês para absolutamente nada!
Cada palavra dela era uma verdade dolorosa.
Ela conhecia os pontos fracos do Grupo Valente.
Ela havia estudado cada detalhe antes de pisar ali.
Ela não era mais a presa; ela era a predadora.
Thiago engoliu seco, olhando para o irmão com ansiedade.
Lavínia tremia de raiva silenciosa, percebendo que o controle que julgava ter sobre a situação estava escapando por entre seus dedos de forma irretocável.
Arthur sentiu o sangue ferver em suas veias.
O contraste entre a Helena doce, que ele guardava na memória, aquela que se aninhava em seu peito e sorria com simplicidade e essa mulher gélida, poderosa e inacessível, o estava enlouquecendo.
Ele queria gritar com ela, queria arrastá-la para fora daquela sala de reuniões, pressioná-la contra a parede e exigir respostas para todas as perguntas que o torturaram durante sete longos anos.
Por que você me traiu?
Por que foi embora com aquele suborno?
Por que seu olhar ainda me destrói desse jeito?
Mas o que mais o enfurecia era o fato de que, apesar do ódio, apesar do rancor que corroía sua alma, seu corpo clamava por ela com uma urgência primitiva.
A mera presença de Helena reacendia um fogo que ele julgava extinto.
Ela ainda era o seu vício mais destrutivo.
Helena levantou-se lentamente, fechando a pasta de couro e arrumando o paletó verde-esmeralda com um gesto aristocrático.
— Os termos da proposta de parceria estão na pasta — ela disse, mantendo a voz firme, embora por dentro estivesse prestes a desabar. A imagem de seu filho Léo no hospital passou por sua mente, dando-lhe a força necessária para dar o golpe final. — Vocês têm vinte e quatro horas para aceitar minhas condições. Caso contrário, levarei a patente para o grupo concorrente de vocês em Genebra. Tenham uma boa tarde, senhores.
Ela girou sobre os calcanhares, a silhueta esbelta movendo-se com uma graça majestosa em direção à saída, sem olhar para trás.
A provocação final, o desprezo absoluto com que ela o tratou, como se ele fosse apenas mais um obstáculo corporativo descartável, quebrou a última barreira do controle lendário de Arthur Valente.
A fúria, o desejo reprimido e a dor de rever o único amor de sua vida, colidiram dentro de seu peito como uma catástrofe inevitável.
A mão de Arthur, que envolvia o copo de uísque com uma pressão excessiva, tencionou-se ao limite extremo.
Os nós de seus dedos ficaram completamente brancos, as veias de seu antebraço saltando sob a pele.
CRAQUE.
O som agudo de vidro se partindo ecoou pelo salão silencioso.
O copo de cristal pesado trincou-se de cima a baixo sob a força bruta de seu aperto, estilhaçando-se parcialmente.
O uísque âmbar misturado a pequenos filetes de sangue de sua palma cortada espalhou-se violentamente pela mesa de carvalho, manchando os documentos intactos, enquanto Helena cruzava a porta sem olhar para trás.
E antes mesmo que ela desaparece-se de sua vista, Arthur disse:
— Sra. Lacerda, espere.
✨ Nota do autor: Leia essa história sem pressa. Sinta cada detalhe. Desconfie de tudo. Porque, a partir daqui, algumas verdades vão te encontrar, mesmo que você não esteja preparado. 🥀 O Poeta Viajante







