Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio que se instalou na sala de reuniões após a saída dos últimos diretores, não era um vazio; era uma presença física, espessa e sufocante, que parecia drenar todo o oxigênio do ambiente.
Helena permaneceu imóvel perto da cabeceira da mesa de mogno polido, com os dedos longos e firmes pressionando a borda da madeira para ocultar o tremor sutil que ameaçava traí-la.
Sete anos.
Sete anos de um exílio forçado na escuridão, alimentando-se de migalhas de coragem para manter a si mesma, e mais tarde, ao pequeno Léo, vivos.
E agora, ali estava ele.
Arthur Valente não se moveu desde que a porta se fechou.
Ele permanecia de pé diante da imensa parede de vidro que revelava a silhueta cinzenta e imponente da metrópole, de costas para ela.
Os ombros largos, estruturados perfeitamente sob o paletó de corte italiano feito sob medida, pareciam carregar a rigidez de uma estátua de mármore.
O cabelo preto, impecavelmente cortado, contrastava com o colarinho branco e rígido.
Quando ele finalmente se virou, Helena sentiu o impacto físico de seu olhar.
Aqueles olhos.
Cinzentos, gélidos, carregando a turbulência de um céu que antecede o pior dos furacões.
O olhar cor de tempestade que outrora a envolvia em seus braços, mas agora, a congelava onde estava.
— Sete anos, Helena — a voz de Arthur ecoou, baixa, rouca, carregada de um magnetismo perigoso que ecoou diretamente na espinha dela. Ele deu um passo à frente, as mãos elegantemente guardadas nos bolsos da calça social, mas a postura era a de um predador que encurralava sua presa. — Sete anos sem deixar um único rastro. E agora você ressurge do absoluto nada, vestida com a arrogância de quem dita as cartas no meu tabuleiro?
Helena ergueu o queixo, sustentando o olhar dele com uma dignidade que esculpiu à custa de muitas lágrimas.
Seus olhos verdes faiscaram como uma floresta em chamas contra o oceano cinzento dele.
— O tabuleiro nunca foi exclusivamente seu, Arthur — ela respondeu, sua voz saindo firme, embora o coração batesse tão forte contra as costelas que ela temia que ele pudesse ouvir. — A tecnologia da DermoScience é minha. Eu a desenvolvi. Eu a sangrei. Se o Grupo Valente quer o controle da patente para salvar suas próprias ações em declínio, terá que aprender a negociar nos meus termos.
Arthur soltou uma risada curta, um som desprovido de qualquer humor, cortante como uma lâmina de vidro.
Ele deu mais dois passos largos, diminuindo a distância entre eles.
O perfume dele, uma mistura inconfundível de sândalo, chuva e couro, invadiu o espaço pessoal de Helena, despertando memórias sensoriais que ela passou quase uma década tentando enterrar sob camadas de negação.
— Seus termos? — ele sussurrou, parando a pequenos centímetros dela. A diferença de altura a obrigava a inclinar a cabeça para trás para encará-lo. A mandíbula dele estava tão tensionada que um músculo tremia sob a pele bronzeada. — Você fala de termos como se tivesse alguma moral para exigir algo nesta casa. Você esqueceu o que fez? Esqueceu que vendeu os segredos industriais da minha família antes de fugir como uma ladra covarde no meio da noite?
A acusação injusta atingiu o peito de Helena como um soco físico.
A dor antiga, misturada com a injustiça que a destruiu no passado, subiu por sua garganta, transformando-se em pura indignação.
Ela deu um passo à frente, reduzindo a distância a zero, o calor do corpo dele quase queimando a sua pele.
— Eu nunca vendi nada, Arthur! — ela exclamou, a voz trêmula de paixão e ódio reprimido. — Você acreditou em mentiras arquitetadas, preferiu o veneno da sua família ao amor que jurava sentir por mim! Você me expulsou! Deixou que me jogassem na sarjeta sem me dar o benefício da dúvida!
— Eu vi as provas! — ele rugiu, a máscara de frieza finalmente se estilhaçando para revelar a fúria incandescente que o consumia há anos. — Eu vi as transferências bancárias em seu nome, Helena! Eu vi os documentos assinados com a sua caligrafia! Eu quis morrer quando percebi que a mulher que eu colocava no meu altar era apenas uma oportunista barata!
A proximidade entre eles era agora uma tortura insuportável.
A respiração de Arthur vinha rápida, o peito subindo e descendo, quase tocando o dela.
Helena podia ver as pequenas partículas douradas misturadas ao cinza dos olhos dele, a dilatação de suas pupilas que denunciava que, por trás de todo aquele ódio destrutivo, havia uma corrente elétrica de atração incontrolável, um desejo primitivo que nenhum dos dois conseguia apagar.
Era uma atração violenta, um magnetismo que desafiava a lógica.
Sete anos de rancor e saudade mútua, colidindo em um espaço tão pequeno.
A mão de Arthur subiu, os dedos longos e fortes hesitando por uma fração de segundo no ar antes de segurarem o queixo de Helena com uma firmeza que era ao mesmo tempo uma carícia e um castigo.
A pele dela formigou sob o toque dele.
Uma corrente de eletricidade estática pareceu disparar por suas veias, enfraquecendo seus joelhos.
Ela queria empurrá-lo, queria gritar que o odiava, mas sua boca apenas se entreabriu em um suspiro mudo, os olhos fixos nos lábios dele, que estavam a centímetros dos seus.
— Solte-me... — ela sussurrou, mas a palavra carecia de qualquer autoridade. Parecia mais um apelo desesperado para que ele a salvasse de si mesma.
— Por que voltou, Helena? — ele perguntou, a voz descendo para um tom perigosamente suave, quase um murmúrio íntimo que arranhou os sentidos dela. Seus olhos cinzentos desceram para a boca dela, famintos, antes de voltarem a fitar os verdes dela. — Por que agora? Para terminar de destruir o que restou de mim?
Helena engoliu seco.
A imagem de Léo, pálido em uma cama de hospital, lutando por cada sopro de vida, passou diante de seus olhos como um farol de realidade no meio daquela névoa de luxúria e ressentimento.
Ela não estava ali por si mesma.
Não estava ali para reviver o amor morto deles.
Estava ali para salvar o filho dele.
O filho que ele nem sabia que existia.
Com um esforço sobre-humano, ela segurou o pulso dele e o afastou com força.
— Voltei pelos negócios, Arthur. Apenas pelos negócios. O que quer que tenhamos tido no passado está morto e enterrado. Eu não sinto absolutamente nada por você além de desprezo pela sua falta de fé em mim.
A mentira flutuou entre eles, fria e falsa.
Arthur estreitou os olhos.
O orgulho dele, ferido pela rejeição e pela aparente indiferença dela, rugiu.
O desejo que brilhava em seu olhar transformou-se instantaneamente em uma determinação implacável e possessiva.
Ele deu um passo rápido, ágil como um felino.
Helena recuou instintivamente, mas seu espaço acabou rápido demais.
Suas costas colidiram suavemente contra a imensa porta de vidro que dividia a sala de reuniões do escritório privativo dele.
O vidro frio contra seus ombros contrastou violentamente com o calor abrasador do corpo de Arthur, que no segundo seguinte, a encurralou.
Ele apoiou as duas mãos no vidro, uma de cada lado da cabeça dela, prendendo-a em um casulo de sua própria presença física.
O corpo dele estava tão próximo que Helena podia sentir a rigidez de seus músculos, o calor emanando de seu peito largo, o cheiro de tempestade que a entorpecia.
Ela estava encurralada, sem escapatória, sob o domínio absoluto daquele homem que era seu maior inimigo e, ao mesmo tempo, o único que possuía a chave para a vida de seu filho.
Arthur inclinou o rosto, aproximando os lábios do ouvido dela.
O calor de sua respiração roçou a pele sensível de seu pescoço, enviando arrepios involuntários por todo o corpo de Helena.
Ela fechou os olhos, lutando para manter o controle, para não se entregar àquele toque que tanto conhecia e desejava.
O silêncio na sala era tão denso que o som da respiração irregular de ambos parecia ensurdecedor.
Arthur pressionou levemente o corpo contra o dela, uma promessa silenciosa de submissão e posse que fez o ventre de Helena se contrair de puro desejo reprimido.
Ele segurou o queixo dela novamente, forçando-a a abrir os olhos e encarar a tempestade cinzenta que rugia nos dele.
Não havia espaço para mentiras naquele espaço milimétrico que os separava.
A tensão era tão alta que estava prestes a quebrar.
Com a voz reduzida a um sussurro rouco, carregado de uma suspeita sombria e uma curiosidade perigosa que ameaçava desenterrar todos os segredos que ela jurou proteger, ele perguntou:
— Quem financiou seu retorno das cinzas, Helena?
E antes mesmo que ela pudesse responder...
o celular em sua bolsa tocou, incansavelmente.
Helena correu para atender...
Era do Hospital, onde Léo estava internado.
✨ Nota da autor: Eles não esqueceram. Só fingiram bem demais. 🥀 O Poeta Viajante







