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🧸Cap. 3: De Volta ao Ninho de Cobras

O ar de SĂŁo Paulo sempre teve um sabor diferente.

Para Helena, no entanto, aquela névoa cinzenta e úmida que pairava sobre a pista de pouso do Aeroporto de Congonhas, tinha o gosto amargo de cinzas e de promessas quebradas.

Ao dar o primeiro passo fora da aeronave, a brisa fria chocou-se contra seu rosto, desordenando os fios castanhos de seu cabelo e fazendo-a encolher-se instintivamente dentro de seu sobretudo bege.

NĂŁo era apenas o clima.

Era o peso invisível de uma cidade que, sete anos atrás, havia mastigado sua alma e a cuspido sem qualquer vestígio de piedade.

— Mamãe... está frio — uma voz pequena, rouca e terrivelmente frágil murmurou ao seu lado.

Helena olhou para baixo imediatamente, seu coração apertando-se em um espasmo de dor física pura.

Leonardo estava de pé, segurando sua mão com força desproporcional para o seu corpinho debilitado.

A máscara de proteção cirúrgica cobria metade de seu rosto miúdo, mas não conseguia esconder a palidez assustadora de suas bochechas, nem as olheiras profundas que emolduravam seus olhos.

Olhos que eram uma cópia exata, de um cinza-tempestade magnético, do homem que Helena jurara nunca mais ver na vida.

— Eu sei, meu anjo. — Helena ajoelhou-se na altura dele, ignorando o fluxo de passageiros apressados que desviavam deles com impaciência. Com dedos trêmulos, ela ajeitou a gola do casaco de lã de Léo e acariciou sua testa. Estava fria, úmida de suor. — Nós já vamos entrar no carro. A mamãe está aqui. Eu sempre vou estar aqui.

Léo assentiu, os cílios longos pesando sobre os olhos cansados.

Ele nĂŁo reclamava.

Nunca reclamava.

E era essa resiliência silenciosa de uma criança de apenas seis anos que dilacerava Helena por dentro, transformando sua angústia em uma determinação feroz, quase assassina.

Ela faria qualquer coisa.

Entregaria sua dignidade, rastejaria no vidro e sangraria se isso significasse salvar a vida de seu filho.

Caminhando pelo saguĂŁo barulhento do aeroporto, o eco dos saltos de Helena no chĂŁo de granito polido parecia bater em sincronia com as batidas descompassadas de seu peito.

Cada canto daquele lugar parecia sussurrar fantasmas do passado.

Foi exatamente ali, naquele mesmo aeroporto, que ela chorou até perder as forças sete anos atrás, grávida, desamparada e com uma mala barata cheia de roupas e ilusões despedaçadas.

A lembrança a atingiu como um soco no estômago, tão vívida que Helena quase cambaleou.

— Você achou mesmo que uma órfã insignificante como você faria parte da nossa família? — A voz de Geraldo Valente, o patriarca implacável da Construtora Valente, ecoava em sua mente com a força de um trovão de ferro. — Olhe para você, Helena. Você cheira a poeira e mediocridade. E agora tenta nos extorquir com essa mentira de gravidez?

Naquele dia, na biblioteca imensa e sufocante da mansão dos Valente, Helena tremia dos pés à cabeça.

Ela havia estendido o teste de gravidez positivo com as mĂŁos trĂŞmulas, esperando acolhimento, esperando o amor que acreditava partilhar com Arthur.

Em vez disso, encontrou um tribunal de carrascos.

— Eu amo o Arthur... e esse filho é dele! — ela soluçara, a voz embargada pelo pânico.

— O Arthur sabe exatamente quem você é. Uma golpista barata — Geraldo dissera, arremessando sobre a mesa de mogno um envelope pardo com fotos forjadas dela recebendo dinheiro de um concorrente, além de um falso extrato bancário. — Ele mesmo assinou a sua ordem de despejo da vida dele. Se você não sumir de São Paulo hoje, eu garanto que o seu bebê nunca verá a luz do dia. Eu destruo você, Helena. Eu posso fazer você desaparecer e ninguém nunca vai procurar pelo seu corpo.

A frieza nos olhos do velho Geraldo a aterrorizara até a medula.

Mas o que realmente quebrou a espinha dorsal de Helena, o que arrancou o ar de seus pulmões e a fez querer morrer ali mesmo, foi o silêncio de Arthur.

Ele nĂŁo estava na sala.

Ele não atendeu suas dezenas de ligações.

Ele a abandonara Ă  prĂłpria sorte, permitindo que seu pai a expulsasse como um animal doente.

— Com licença, senhora? — A voz do motorista de aplicativo a trouxe abruptamente de volta ao presente.

Helena piscou, percebendo que já estava do lado de fora do terminal de desembarque.

O motorista segurava a porta do sedĂŁ preto, olhando-a com uma mistura de pressa e curiosidade.

— Ah, sim. Desculpe — Helena respondeu, a voz saindo mais firme do que se sentia.

Ela ajudou Léo a subir no banco traseiro, acomodando-o com cuidado extremo, antes de deslizar para o lado dele.

Quando a porta se fechou, isolando-os do barulho ensurdecedor do aeroporto, Helena soltou um suspiro trĂŞmulo.

Seu corpo inteiro doĂ­a pela tensĂŁo acumulada.

"Eu mudei", ela repetiu para si mesma, como um mantra de sobrevivência, enquanto o carro começava a se mover em direção ao centro de São Paulo.

"Eu nĂŁo sou mais aquela garota ingĂŞnua que aceitava os golpes sem revidar. Sou uma cientista premiada. Sou mĂŁe. E vou salvar o meu filho, mesmo que precise arrancar a medula daquele monstro com minhas prĂłprias mĂŁos."

O medo de ser descoberta, no entanto, corria por suas veias como veneno gelado.

Se os Valente descobrissem que Léo existia...

se Arthur soubesse que tinha um herdeiro, o que eles fariam?

Thiago, o irmão calculista de Arthur, e Lavínia, a mulher que sempre rondara a família como um abutre aristocrático, não hesitariam em destruir Léo para proteger seus próprios interesses financeiros.

Helena precisava agir nas sombras.

Ela precisava encontrar Arthur, conseguir o teste de compatibilidade sob total sigilo e desaparecer antes que o império Valente percebesse sua presença.

O carro avançou pela Rodovia Ayrton Senna, entrando no fluxo caótico de veículos que se espremiam nas artérias da maior metrópole do país.

Léo encostou a cabecinha no ombro de Helena, os olhos semicerrados enquanto observava a paisagem cinzenta passar pela janela.

— Mamãe... a cidade do meu pai é muito grande — o menino comentou baixinho, a voz abafada pela máscara.

Helena sentiu um nĂł apertar sua garganta.

Ela nunca revelara o nome de Arthur para Léo, mas sempre dissera que o pai morava em São Paulo, uma meia-verdade necessária para aplacar as perguntas dolorosas da infância.

— É sim, meu amor. É muito grande — ela murmurou, beijando o topo dos cabelos castanhos e sedosos do filho. — Mas nós só viemos fazer um tratamento rápido. Logo, logo vamos voltar para casa.

"Por favor, que isso seja verdade", ela implorou mentalmente a qualquer divindade que estivesse ouvindo. "Que eu consiga sair daqui sem que ele me veja. Sem que ele quebre o que restou de mim."

O trânsito diminuiu o ritmo à medida que se aproximavam da região central.

O veículo subiu o viaduto e, finalmente, dobrou em direção à icônica Avenida Paulista, o coração financeiro e pulsante de São Paulo.

Os arranha-céus de vidro espelhado erguiam-se como gigantes de concreto, refletindo a luz pálida do final de tarde.

Foi então que o trânsito parou completamente.

Helena olhou pela janela lateral, tentando acalmar a ansiedade que fazia suas mĂŁos suarem dentro das luvas de couro.

A avenida estava congestionada, cercada por pedestres apressados de terno e telas digitais monumentais que cobriam as fachadas dos edifĂ­cios mais luxuosos.

De repente, a iluminação de um dos maiores outdoors luminosos da avenida mudou, banhando o interior do táxi com uma luz branca e intensa.

O coração de Helena não apenas falhou uma batida; ele pareceu congelar em seu peito, parando o fluxo de sangue em suas veias.

Na imensa tela de LED de alta definição, que se estendia por vários andares de um edifício comercial de prestígio, a imagem de um homem surgiu.

As feições eram esculpidas, o maxilar marcado exibia uma rigidez quase aristocrática, e os olhos cinzentos, os mesmos olhos que Helena via todas as manhãs no rosto de seu filho, fitavam a câmera com uma frieza magnética, desprovida de qualquer calor humano.

Era Arthur Valente.

Ele usava um terno de corte impecável feito sob medida, exalando um poder bruto e intimidador.

Ao seu lado, com a mão possessivamente apoiada em seu braço, estava Lavínia Albuquerque.

Ela exibia um sorriso gélido e triunfante, seus cabelos loiros platinados perfeitamente alinhados, brilhando sob os flashes dos fotógrafos fictícios da campanha publicitária.

Acima deles, letras douradas gigantescas e brilhantes começaram a piscar contra o fundo preto, anunciando para toda a cidade:

“O Casamento do Século: Arthur Valente e Lavínia Albuquerque confirmam a união das maiores dinastias do país neste sábado. O amor que reconstrói o império.”

Helena sentiu o ar desaparecer de seus pulmões.

Suas unhas cravaram-se na palma das mãos com tanta força que ela quase rasgou o couro das luvas.

Sete anos.

Sete anos de dor, exĂ­lio e luta pela sobrevivĂŞncia, enquanto ele simplesmente continuara sua vida de luxo, prestes a se casar com a mulher que arquitetara sua ruĂ­na.

Ao seu lado, alheio ao colapso interno da mãe, Léo apontou com o dedinho pálido para a imensa tela luminosa.

— Olha, mamãe... aquele homem ali na foto. Os olhos dele são parecidos com os meus, não são?

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