Mundo de ficçãoIniciar sessãoELENA MORETTI
O trajeto de volta para o meu pequeno apartamento no Queens pareceu durar uma eternidade. O cartão de Julian Blackwood pesava na minha bolsa como um bloco de chumbo. Eu evitava olhar para o meu reflexo na janela embaçada do metrô; eu não queria ver a mulher que estava prestes a vender sua alma para um homem que cheirava a arrogância e pecado. Assim que fechei a porta de casa — um espaço minúsculo que cheirava a lavanda e à sopa que eu havia feito no dia anterior — a solidão me atingiu. Mas não era de silêncio que eu precisava. Liguei o tablet e iniciei a chamada de vídeo. Três toques depois, a imagem tremida de uma sala branca e asséptica na Suíça apareceu. — Elena? — A voz de Lorenzo era fraca, mas seus olhos, idênticos aos meus, brilharam ao me ver. — Oi, mio caro. Como você está se sentindo hoje? — Forcei um sorriso, sentindo meu coração se partir ao vê-lo preso àquela cadeira, com os eletrodos de fisioterapia ainda presos aos braços finos. — Os médicos dizem que os meus reflexos estão melhorando, sorella. Mas... — Ele hesitou, e o brilho em seus olhos diminuiu. — A assistente social veio aqui hoje. Ela falou sobre o pagamento do próximo trimestre. Elena, é muito dinheiro. Se você não puder... eu posso voltar para a Itália. Eu posso ficar em um hospital público. — Não! — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. Respirei fundo, tentando suavizar a expressão. — Você não vai a lugar nenhum, Lorenzo. A clínica na Suíça é o único lugar que pode te devolver os movimentos. O dinheiro... eu consegui um novo contrato. Um grande cliente. Um investidor de Manhattan. — Um investidor? — Ele franziu a testa, desconfiado. Lorenzo sempre foi o mais esperto de nós dois. — Tenha cuidado, Elena. Pessoas com muito dinheiro costumam ter corações muito pequenos. — Eu sei me cuidar — menti, sentindo o cartão de Julian queimar dentro da bolsa no sofá. — Eu te amo. Durma bem. Quando desliguei, as lágrimas que eu estava segurando finalmente caíram. Eu não estava apenas vendendo meu futuro; eu estava me jogando de volta no mar de tubarões do qual tínhamos fugido. Mas por Lorenzo, eu caminharia sobre brasas. O Dia Seguinte... Acordei antes do despertador. O sol de Manhattan parecia cinzento através da cortina fina. Passei horas me arrumando, um ritual que parecia mais como um soldado polindo sua armadura antes de uma execução. Escolhi um vestido de linho bege, discreto e fechado, e prendi o cabelo em um coque tão firme que chegava a doer. Eu precisava parecer profissional, inabalável. Mas, enquanto passava o batom nude, minhas mãos tremiam tanto que precisei apoiar os cotovelos na pia. O endereço no cartão me levou a um dos prédios mais exclusivos da Quinta Avenida. O porteiro de terno impecável me avaliou com uma mistura de cortesia treinada e desdém oculto antes de anunciar minha chegada. O elevador privativo subiu silenciosamente até a cobertura. Quando as portas se abriram, o ar condicionado me atingiu como um tapa frio. A sala de Julian Blackwood era um monumento ao excesso. Vidro do chão ao teto revelando o Central Park, obras de arte abstratas que pareciam gritar e um silêncio que só o dinheiro extremo consegue comprar. Julian estava de pé junto à janela, de costas para mim. Ele não usava paletó hoje, apenas uma camisa de seda preta com as mangas dobradas, revelando antebraços fortes. Ele não se virou de imediato. Ele sabia que eu estava ali. Ele estava saboreando a minha rendição. — Você está três minutos adiantada, Elena — a voz dele ecoou pelo espaço vasto, profunda e sem emoção. — Isso é bom. Mostra que o desespero é um excelente motor para a pontualidade. Ele se virou devagar. Seus olhos percorreram meu corpo, do coque apertado aos sapatos simples, com uma lentidão que me fez sentir nua. Ele caminhou em minha direção, parando a uma distância que era um insulto ao meu espaço pessoal. — Você trouxe a resposta que eu quero ouvir, ou veio apenas desperdiçar mais do meu tempo? Respirei fundo, sentindo o perfume de sândalo dele invadir meus sentidos e nublar meu julgamento. — Eu aceito — eu disse, a voz saindo mais firme do que eu esperava. — Mas eu tenho minhas próprias condições, Sr. Blackwood. Se eu vou ser a sua santa, você terá que aprender a respeitar o meu altar. Julian arqueou uma sobrancelha, um brilho de diversão genuína — e perigosa — cruzando seu rosto. — O altar está sendo comprado por dez milhões de dólares ao ano, Elena. Mas prossiga. Adoro ver o orgulho tentando negociar com a necessidade.






