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Capítulo 1: Sombras do Passado

Caminho vagarosamente pelo pátio amplo da faculdade, meus passos lentos ecoando sobre as pedras antigas que conheço tão bem. O sol da manhã b**e suave nas árvores altas, espalhando sombras que dançam ao vento — sombras que me lembram muito da minha própria vida: escuras, presas e sempre presentes. Sorrio ao relembrar da minha época de estudante, época essa em que eu realmente era feliz, me sentia viva, tinha um brilho nos olhos e um sorriso espontâneo que iluminava todo o meu rosto. Hoje, esse sorriso é apenas uma sombra, e esse brilho… eles conseguiram arrancar tudo de mim, junto com a minha esperança, a minha voz e a minha vontade de viver. Parece que foi ontem, mas se passaram dez anos desde que tudo mudou.

 

Flashbacks — on....

— Susana, você tem que se impor! Essa história tem que acabar de qualquer jeito. Você vai aceitar, vai casar com quem escolheram para você, e todo esse tempo, tudo o que a gente já viveu… isso não pode importar mais. Nós não temos condições de lutar contra a sua família.

— Eu não tenho escolhas — respondi, com a voz embargada, sentindo o coração se partir em mil pedaços dentro do peito. As lágrimas escorriam quentes pelo meu rosto, enquanto eu segurava as suas mãos como se fossem a única coisa que me mantinha viva.

— Então vamos fugir? — ela segurava minhas mãos com força, os olhos brilhando de determinação e um amor tão grande que chegava a doer. — Eu não tenho muito dinheiro, mas posso trabalhar, fazer qualquer coisa. Nós duas damos conta. Ficamos longe por algum tempo, até que a poeira abaixe. Depois voltamos. Se eles virem que não nos separam, que o que sentimos é mais forte do que tudo, seus pais não vão ter escolha a não ser aceitar. Eu não consigo viver sem você, Susana.

— Será que vai dar certo? — perguntei, o medo apertando a garganta, fazendo difícil respirar. — E se eles me mandarem para bem longe, para outro estado, outro país? E se eles fizerem mal a você, à sua mãe, aos seus irmãos? Eu tenho medo, muito medo de que por minha causa, vocês sofram ainda mais.

— Você sabe que faço tudo por você, que daria a minha vida sem pensar duas vezes — ela sussurrou, aproximando o rosto do meu, os lábios quase se tocando. — Eu te amo, Susana… e nada, nem ninguém, vai mudar isso. Nós vamos ficar juntas, custe o que custar.

Flashbacks — off.

 

Essa foi a última vez que eu a vi. Naquela noite, tínhamos combinado de fugir, de deixar tudo para trás e finalmente sermos livres, donas do nosso próprio destino. Mas alguém ouviu a nossa conversa, escondido atrás da porta da sala, e correu imediatamente para contar aos meus pais. Quando o sol nasceu no dia seguinte, eu já estava trancada no quarto, as janelas fechadas com tábuas grossas, sem poder sair, sem poder falar com ninguém, vigiada a cada segundo. E o pior de tudo, o que me assombra até hoje: dias depois, recebi a notícia que destruiu qualquer resto de paz que ainda existia em mim.

A família da Lívia perdeu tudo num incêndio devastador. Era o que todos diziam na cidade, nos jornais, nas conversas sussurradas pelos cantos. Ela só tinha a mãe e dois irmãos pequenos, crianças de seis e oito anos, que ela amava mais que tudo no mundo. Anos depois, consegui descobrir a verdade completa, através de uma antiga empregada da minha casa que ainda tinha contato comigo: além de perder a casa, ela perdeu todos eles naquela noite. A mãe e os meninos dormiam no andar de baixo e não conseguiram sair a tempo. E ela… Lívia não estava em casa, pois estava me esperando ansiosa no lugar combinado, com as malas prontas.

Convivo com essa culpa todos esses anos, como uma sombra pesada que nunca me abandona. Se ela estivesse lá, talvez também tivesse morrido — ou talvez, com a coragem que sempre teve, tivesse conseguido salvá-los. Mas há algo que grita dentro de mim, uma intuição forte, dolorosa, que me faz acordar de madrugada suando frio: esse incêndio não foi acidental. Ninguém provou nada, a polícia arquivou o caso como um descuido com velas ou fogão, mas eu sei. Eu sinto. E é essa certeza, esse segredo que carrego sozinha, que me assusta mais do que qualquer coisa.

Conheci Lívia quando tínhamos dez anos de idade. Desde o primeiro momento, existiu uma ligação entre nós, algo que ia muito além da amizade, uma sintonia que ninguém mais conseguia entender ou explicar. A mãe dela trabalhava havia anos na casa dos meus pais, como empregada doméstica, e foi assim que crescemos juntas, como irmãs de almas, brincando nos jardins, estudando juntas, dividindo todos os segredos. Tudo mudou quando eu completei quinze anos: meus pais descobriram sobre a nossa relação. O que começou como uma amizade doce, uma cumplicidade inocente, tinha se transformado num amor profundo, verdadeiro e imenso. Eu a amava com tudo o que eu era, mas para a minha família, aquilo era vergonha, desonra, algo que devia ser apagado da existência.

Eles a humilharam na minha frente, com palavras cruéis e cheias de ódio, chamando-a de tudo o que é ruim. Mandaram a mãe dela embora, sem direito a nada, depois de mais de quinze anos de serviço fiel. Ficamos separadas por alguns meses, até que conseguimos nos encontrar escondidas, longe de olhares vigilantes, nos fundos da igreja ou na beira do rio. Passamos dois anos assim: encontros rápidos, cartas trocadas às escondidas, segredos guardados a sete chaves. Ela sempre vinha me ver perto da faculdade, no caminho da escola, em lugares afastados. Mas meus pais eram persistentes e desconfiados. Mais uma vez, tentaram nos separar de vez. E dessa vez, conseguiram. Pouco tempo depois, fui obrigada a aceitar o noivado com Arthur, um homem que eu não conhecia, que eu não queria, e com quem fui forçada a me casar no ano seguinte. Não tive escolhas, nunca tive.

continua...

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