Capítulo 4 - Meias Verdades

Simples. Sem assinatura, mas ele sabia.

Henrique sentiu o canto da boca se curvar involuntariamente.

Ela mandou mensagem.

Ele imaginou Lívia deitada com o celular, talvez ainda com o vento da estrada nos cabelos, talvez revirando os olhos enquanto fazia aquilo que dissera que talvez não faria.

Ele digitou a resposta com cuidado.

Fico aliviado. Obrigado por avisar.

A mensagem foi visualizada quase no mesmo instante.

Pensei que você fosse dizer que eu era dramática.

Ele soltou um sopro de riso baixo, controlando o impulso de parecer leve demais dentro daquela casa.

Eu só não queria que você estivesse sozinha numa rodovia.

Alguns segundos se passaram.

Contou pra sua esposa?

Direta.

Ele apoiou as costas na cadeira antes de responder.

Contei que parei para ajudar alguém com o pneu furado.

A resposta demorou um pouco mais dessa vez.

E que me chamou pra jantar?

Ele passou a mão pelo queixo.

Você não aceitou.

Isso não era exatamente o que eu estava perguntando.

Henrique respirou fundo antes de digitar.

Eu não escondi que parei. Mas não entrei em detalhes.

As três bolinhas surgiram quase imediatamente.

Meias verdades contam como verdade?

Ele encarou a pergunta por um momento mais longo. A cozinha parecia pequena demais.

Não aconteceu nada.

Então por que parece que aconteceu?

Ele ficou alguns segundos olhando para aquela frase.

Porque tinha acontecido.

Não fisicamente, mas alguma coisa tinha se deslocado dentro dele.

Você gosta de provocar?

Gosto de respostas claras.

Ele sorriu de lado.

Eu explico melhor no nosso segundo encontro.

A resposta demorou mais dessa vez. Ele quase achou que ela tinha desistido.

Eu não sei se quero sair com um homem casado.

A honestidade dela era quase desconcertante.

Não é um convite para um motel. É só um jantar.

Alguns segundos longos demais.

Tenho que responder agora?

Ele apoiou os cotovelos na mesa.

Não. Pode pensar.

Mais uma pausa.

Então amanhã eu respondo. Boa noite, Henrique.

Ele ficou olhando para o próprio nome na tela por alguns segundos antes de responder.

Boa noite, Lívia.

A conversa terminou ali.

Mas a sensação não.

Henrique levantou-se, levou o prato até a pia e deixou a água correr sobre a louça sem realmente prestar atenção.

A casa parecia ainda mais silenciosa.

E ele não tinha certeza se o silêncio era paz… ou ausência.

Henrique voltou para o quarto quando a casa já parecia definitivamente recolhida ao silêncio da noite. As luzes estavam apagadas, mas ele reconhecia aquele tipo específico de quietude. Lilian não dormia. Nunca dormia quando ele chegava tarde.

Entrou no banheiro sem dizer nada, fechou a porta com cuidado e apoiou as mãos na pia por alguns segundos antes de escovar os dentes. O reflexo no espelho parecia distante, quase alheio. Havia linhas novas no rosto que não vinham do tempo, mas da repetição, dos mesmos dias, das mesmas conversas, das mesmas tentativas fracassadas de fingir normalidade.

Quando voltou para o quarto, Lilian estava deitada de lado, o corpo voltado para ele, os olhos atentos no escuro. Observava-o como quem espera algo que já sabe que não virá.

Henrique se deitou na própria metade da cama. Havia um espaço invisível entre eles que nenhum dos dois atravessava mais.

O silêncio se alongou até ficar incômodo.

— Por que você estava rindo? — ela perguntou, finalmente.

A pergunta não carregava raiva. Carregava insegurança.

Henrique virou o rosto devagar na direção dela, sem pressa, sem surpresa.

— Não posso mais rir?

— Pode… — ela respondeu, hesitante. — Mas você estava sozinho na cozinha.

Ele entendeu o que ela queria dizer antes mesmo que ela dissesse.

— Então deixa eu perguntar direito — Lilian continuou, a voz um pouco mais firme, quase defensiva. — Pra quem você estava rindo, Pedro Henrique?

O nome completo soou como um pedido desesperado por atenção.

Henrique respirou fundo. Não respondeu de imediato. O teto parecia mais seguro do que encará-la.

Ali, naquele quarto, ele não sentia raiva. Nem culpa. Sentia apenas um cansaço antigo, acumulado, que já tinha ultrapassado o ponto de retorno.

— Lilian… — começou, a voz baixa. — Você não acha que já passou da hora da gente conversar sério sobre o divórcio?

Ela se ergueu na cama como se a palavra tivesse peso físico.

— Divórcio? — repetiu, incredulidade misturada a medo. — Só porque eu perguntei com quem você estava falando?

Ele virou-se um pouco mais para ela.

— Não. — A voz saiu firme, mas sem dureza. — Porque esse casamento não tem mais sentido.

Ela balançou a cabeça, negando antes mesmo de pensar.

— Não… não diz isso.

Henrique fechou os olhos por um instante.

— A gente só briga, Lilian. Não conversa mais. Não se toca. Isso aqui… — ele fez um gesto vago com a mão, indicando o quarto, a cama, a vida — …isso aqui não é mais um casamento. E faz muitos anos que não é.

Ela aproximou-se um pouco, como se a proximidade pudesse mudar algo.

— Você não pode me deixar — disse, a voz embargada. — Estamos juntos há dezoito anos. Você não pode simplesmente me abandonar agora.

A palavra “abandonar” caiu pesada demais.

— Não é abandono — ele respondeu, com paciência quase triste. — Não se trata disso. Nós somos jovens demais pra viver desse jeito. Presos. Infelizes. Você pode encontrar alguém. Eu também. A gente continua amigo. Pelas meninas.

Ela o encarou como se ele estivesse falando outra língua.

— É isso então? — perguntou, o coração acelerando. — Você encontrou alguém?

Henrique não desviou o olhar.

— Não, Lilian. Não tem ninguém.

— Então por que isso agora?

Porque eu não sinto mais nada — ele pensou, mas não disse.

Em vez disso, falou.

— Eu estou falando do futuro.

Ela negou de novo, mais rápido, mais desesperado.

— Não. Eu te amo. Eu quero continuar com você.

Henrique permaneceu em silêncio.

Não porque não soubesse o que dizer, mas porque não havia resposta que não fosse cruel.

— Você me ama também — ela insistiu, quase suplicante.

O silêncio dele foi a resposta.

Lilian respirou fundo, os olhos brilhando.

— Se você me deixar… — a voz falhou — …as meninas vão te odiar. Você sabe disso, não sabe?

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