OS TEMORES DE EIVA

A volta para casa após o evento foi tranquila, sem as cenas de rivalidades entre Uriel e Marcel, o sedan de luxo deslizando pelas ruas desertas da madrugada curitibana, onde o asfalto úmido refletia as luzes alaranjadas dos postes solitários, e uma névoa fina pairava no ar fresco, carregando o cheiro de orvalho e folhas molhadas dos parques próximos. Os prédios altos do centro, com janelas esporadicamente iluminadas como olhos vigilantes, criavam uma atmosfera de quietude opressiva, interrompida apenas pelo zumbido distante de um ou outro veículo noturno, evocando uma cidade adormecida, vulnerável aos segredos que a escuridão guarda.

Eliot, imerso em uma turbulência interior profunda, marcada pela empatia visceral pelas vítimas e uma determinação feroz de desvendar o horror, contou para Marcel sobre o serial que o secretário de segurança havia mencionado, explicou os crimes e fez uma pergunta, sua voz ecoando com uma curiosidade ansiosa, como se cada palavra fosse um passo em direção a uma verdade sombria que o consumia.

- O que vocês acham que pode ser esse serial? A forma como o secretário Pedrosa descreveu a brutalidade com que o coração é arrancado não me parece obra de um humano comum.

Uriel respondeu de imediato, pois desde o momento em que escutara o secretário falar já formava uma ideia do que poderia ser, uma convicção ardente pulsando em seu peito, temperada por uma lealdade inabalável que o impulsionava a proteger seu senhor como um escudo vivo, misturando receio primal com uma excitação calculada pelo desafio.

- A forma de atacar lembra um Nerak. Nesse caso, precisamos descobrir quem o invocou, o que é meio difícil. Mas seria a forma correta de bani-lo.

Eliot ponderou no que Uriel falou, uma reflexão tormentosa o invadindo, como ondas de dúvida e resolução colidindo em sua mente, e ergueu a cabeça encarando Marcel pelo retrovisor interno, buscando uma perspectiva que equilibrasse sua própria inquietude crescente.

- E você, Marcel? Concorda com o Uriel ou tem outra teoria?

Marcel respirou fundo, uma pausa carregada de ponderação sincera e uma empatia aguçada pelas almas traídas, pela memória de injustiças que o moldaram, e quando parou no sinal ele se virou para trás e respondeu, seus olhos brilhando com uma intensidade protetora, como um narrador de lendas antigas revivendo horrores para alertar os vivos.

- Concordo com o Uriel, as características são de um Nerak, mas os demônios ligados a traições são muitos, porém, só um não induz o casal à infidelidade para depois puni-los. Um Akaran caça casais que traem, mas sempre voltado para a traição feminina, enquanto os outros não se importam quem traiu, eles apenas os caçam. O Akaran leva as traidoras como troféu e tenta aliviar a dor masculina arrancando o coração de carne e dando um de papel. Os Akarans raramente atacam, apesar de serem demônios menores, são justos. A única forma de atrair a atenção dele é por um excesso de traição.

Uriel, de braços cruzados, concordou com Marcel e comentou, uma admiração relutante o atravessando, acentuada por uma rivalidade fraterna que se dissipava em momentos de união, revelando uma vulnerabilidade compartilhada perante o sobrenatural.

- O mundo hoje em dia é um prato cheio para esse demônio. Como vamos caçá-lo, senhor Lessan?

Eliot recostou no banco e respondeu, uma fadiga resoluta o dominando, como um líder exaurido mas inflamado pela urgência de justiça, impulsionado por uma compaixão inquebrantável que o tornava guardião das sombras ocultas.

- Cancele minha agenda de amanhã, menos a entrevista, passaremos o resto do dia investigando. Marcel, você se encarrega de descobrir as informações tanto da polícia quanto do secretário de segurança. E você, Uriel... tente ter acesso aos corpos e aos locais dos crimes, descubra tudo sobre as vítimas. Eu ficarei com a pesquisa sobre o Akaran.

Chegando ao bairro Batel, o sedan de luxo deslizou pelas ruas silenciosas e impecáveis, onde a madrugada curitibana envolvia tudo com uma quietude densa, pontuada apenas pelo brilho suave dos postes de luz que projetavam sombras alongadas nas calçadas de pedra. O bairro, coração pulsante de sofisticação em Curitiba, exibia sua opulência mesmo na escuridão: fachadas de vidro de arranha-céus refletiam o céu nublado, enquanto restaurantes de alta gastronomia, já fechados, deixavam no ar um leve aroma de especiarias exóticas misturado ao frescor úmido da noite. Lojas de grife, com vitrines iluminadas exibindo joias e roupas de alta costura, pareciam sentinelas de um mundo de luxo adormecido, contrastando com a energia latente de uma cidade que nunca para completamente. O sedan seguiu para a garagem exclusiva do One Batel, um edifício imponente que se erguia como um monstro de vidro e aço no centro do bairro, suas luzes discretas realçando a modernidade austera.

No elevador exclusivo, Eliot digitou um código personalizado, o silêncio entre ele, Uriel e Marcel carregado de uma introspecção exausta, cada um perdido em suas emoções. Eliot sentia uma tensão persistente, uma mistura de alívio por estar voltando ao santuário de seu lar e uma inquietude visceral pelo caso do Akaran, como um guardião dividido entre proteger o mundo e sua própria filha. Uriel, ao seu lado, carregava uma lealdade feroz, temperada por uma preocupação silenciosa, como um irmão mais velho que teme falhar na vigilância. Marcel, sentia uma determinação resiliente, causada por uma imensa necessidade de provar seu valor, mesmo que o cansaço da noite o fizesse sentir-se à margem.

Os três subiram para o vigésimo nono andar, parando no hall de entrada do apartamento, onde o silêncio da madrugada era absoluto, quebrado apenas pelo zumbido suave do elevador e pelo eco distante de um trovão ao longe, prenunciando uma tempestade. Eram mais de duas da manhã, e Eliot se dirigiu ao corredor que levava aos quartos, uma urgência paternal o impulsionando, como se cada passo o aproximasse do único refúgio verdadeiro em sua vida. Antes de entrar no seu quarto, foi até o quarto de sua filha Eiva, uma garotinha de dez anos, cuja inteligência brilhante e sensibilidade aguçada o enchiam de um orgulho agridoce, em meio a dor de saber que ela carregava um legado sobrenatural que ele selara para protegê-la. Eiva não era como ele, não totalmente, gerada com uma humana, puxara mais a mãe, mas na aparência era quase sua cópia, um reflexo vivo que o fazia sentir amor e vulnerabilidade em igual medida.

Quando ele entrou no quarto, o ambiente estava imerso em penumbra, a luz pálida da lua infiltrando pela janela e dançando nas cortinas brancas, que ondulavam levemente com a brisa que entrava por uma fresta. Eiva estava sentada na cama, olhando para a janela, e Eliot sentiu de imediato o medo que emanava dela, uma onda de pavor infantil que o atravessou como uma faca, despertando um instinto protetor avassalador. Ele se aproximou e acendeu a luz do abajur, o brilho quente revelando o rosto pálido da filha, seus olhos assustados e marejados brilhando como lagos sob a luz. Eliot sentou ao lado dela e a abraçou forte, um calor humano intenso o consumindo, como se pudesse absorver todo o medo dela com seu próprio corpo, e perguntou, sua voz suave carregada de uma ternura desesperada.

- Foi um pesadelo?

Eiva o abraçou forte, balançando a cabeça em afirmação, seu pequeno corpo tremendo com uma vulnerabilidade crua, diante da confiança absoluta que depositava no pai, como se ele fosse o único escudo contra as sombras do mundo. Eliot tirou os sapatos e deitou na cama, envolvendo-a em seus braços, e enquanto enrolava um dos cachos loiros da filha entre seus dedos, perguntou, uma curiosidade delicada misturada a uma necessidade urgente de protegê-la.

- Quer falar sobre ele?

Eiva suspirou, e após um curto silêncio, começou, sua voz trêmula carregada de uma angústia infantil que partia o coração, como se reviver o sonho fosse enfrentar novamente o terror que a acordara.

- Começou como um sonho bom... como sempre. Eu tinha asas bem grandes e brancas. Estava voando, sentia o vento frio bater no meu rosto, até que comecei a voar por aquele parque que você me levou uma vez, que tem um grande lago.

- O Barigui? - Eliot perguntou, uma memória afetuosa do parque invadindo-o, misturada a uma apreensão crescente, como se o sonho da filha fosse um presságio que ele não podia ignorar.

- Sim, esse mesmo... eu voei perto do lago e toquei a água, aí tudo mudou.

Eiva apertou o abraço, segurando firme a camisa do pai por baixo do paletó, uma necessidade desesperada de segurança a consumindo, como se o toque dele fosse a única coisa que a ancorava à realidade. Eliot a envolveu e beijou sua cabeça, uma promessa silenciosa de proteção pulsando em seu peito, e disse, sua voz um porto seguro em meio à tempestade emocional dela.

- Está tudo bem, meu amor... seja o que for, não pode te tocar. Você está segura. Eu estou aqui.

Eiva continuou, agora com a voz chorosa, cada palavra carregada de um terror puro, deixando clara a fragilidade de uma criança enfrentando o desconhecido.

- Tinha um som... como uma árvore... sabe quando o vento b**e forte nas árvores e faz aquele som? Era assim. Ele estava de pé numa árvore, eu o vi, mas só lembro dos olhos, eram redondos e vermelhos como o farol de um carro... e ele chamou meu nome.

Ela começou a soluçar, e Eliot a manteve em seu abraço protetor, um amor inabalável misturado a uma fúria contida contra qualquer força que ousasse ameaçar sua filha, até que ela se acalmasse, o silêncio do quarto agora preenchido apenas pelo som suave da respiração dela e pelo tamborilar distante da chuva que começava a cair lá fora.

- Eu sei que foi assustador, meu amor... mas ele não pode te machucar. Lembre-se disso. - disse Eliot enquanto acariciava os cabelos de sua filha e beijava o topo de sua cabeça, tentando acalmá-la.

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