Mundo de ficçãoIniciar sessãoUriel pegou o celular e abriu na galeria, onde tinha a foto de três currículos com fotos, sentindo uma satisfação profissional intensa, um sentiment de lealdade que o impulsionava a proteger Eliot e Eiva como se fossem sua própria família, uma dedicação que mascarava uma vulnerabilidade profunda por temer falhar.
- Não foram muitos os currículos que chegaram para o cargo noturno, mas essas três candidatas me pareceram as mais qualificadas, com uma observação especial para a terceira. Eliot pegou o celular e começou a olhar as imagens com algumas anotações sobre as candidatas, como nome, idade, escolaridade, endereço, entre outros, uma curiosidade misturada a uma fadiga emocional que o fazia questionar cada detalhe em sua intensa busca por alguém confiável para cuidar do que mais amava. Ao chegar na terceira, perguntou a Uriel, com um tom de intriga genuína que revelava sua confiança no julgamento do assessor. - O que tem de especial na terceira? Uriel respondeu direto, já mostrando que a terceira candidata seria a melhor escolha, sua convicção carregada de um pragmatismo afiado, mas também uma empatia sutil, como se visse na solitude dela um reflexo de sua própria devoção isolada. - Não tem família, mora de aluguel, é formada em medicina e nutrição, não tem problema em morar no emprego e o lema dela é esse dos três macaquinhos: "não vejo, não ouço, não falo". Na minha humilde opinião, ela é a melhor candidata, já seria só pelo fato de não ter família. Marcel olhou pelo retrovisor interno e disse, sentindo uma indignação intensa, como um defensor das injustiças cotidianas, sua empatia pelo desconhecido misturada a uma frustração por ver desigualdades perpetuadas, mesmo em um ambiente de luxo. - Mas que cruel, Uriel. Dar emprego para uma pessoa só por não ter família. Uriel encarou Marcel de volta e disse num tom autoritário, uma raiva contida explodindo em defesa de sua posição e pelo ciúme protetor que o fazia se sentir ameaçado, como se cada interferência questionasse sua autoridade conquistada com anos de serviço. - Você deveria prestar atenção no trânsito e não na conversa que não diz respeito a um motorista. Marcel fechou a cara, encarando Uriel pelo retrovisor e respondeu sarcasticamente, uma mágoa profunda o invadindo, como um irmão mais novo rechaçado, misturando humor defensivo com uma dor de ser subestimado. - Não seja ridículo, Uriel. Você só é o mordomo porque eu perdi no palitinho... - Chega, vocês dois... - disse Eliot, se incomodando com a pré-discussão. Uma irritação intensa o estava consumindo, como um líder exausto de mediar conflitos familiares, carregando o peso de manter a harmonia em meio ao caos emocional. Olhou para Uriel e disse, com uma firmeza temperada por uma certa decepção. - Foi desnecessária a resposta que deu ao Marcel. Não se esqueça que ele e você são a mesma coisa, ocupam o mesmo cargo, um não é melhor que o outro. Espero não ter esse tipo de conversa novamente, ou vou contratar um mordomo e um motorista humanos e vocês dois serão reduzidos a seguranças, do tipo que não dá opinião. O silêncio dentro do sedan só foi quebrado por Eliot devolvendo o celular para Uriel, um vazio carregado de tensão não resolvida, onde cada um lidava com suas emoções internas: Eliot com uma resolução cansada, Uriel com um remorso relutante e Marcel com uma resiliência ferida, enquanto as luzes noturnas de Curitiba continuavam a dançar lá fora, indiferentes ao drama humano no interior do veículo. - Amanhã pela manhã, chame a terceira candidata. Eu quero conversar com ela pessoalmente. Ao chegar no FIEP, o Centro de Eventos pulsava com a elegância de uma noite beneficente em Curitiba, onde o ar fresco e úmido de setembro infiltrava pelas portas envidraçadas, carregando o perfume de chuva recente misturado ao aroma de pratos refinados e vinhos caros. O salão principal, amplo e iluminado por lustres cristalinos que projetavam reflexos dourados no piso polido, estava repleto de convidados trajados em smokings e vestidos longos, conversas murmuradas ecoando como um zumbido sofisticado sob o som suave de uma orquestra de cordas tocando melodias clássicas. Lá fora, a noite curitibana se estendia como um véu escuro e misterioso, com as luzes dos arranha-céus do centro piscando como estrelas artificiais contra o céu nublado, o tráfego distante emitindo um ronco abafado que contrastava com a serenidade interna do evento... uma bolha de solidariedade e networking, onde o brilho das taças de cristal e os flashes discretos de fotógrafos capturavam momentos de generosidade, mas também de ambições veladas. Marcel saiu e abriu a porta para que Eliot saísse junto com Uriel, sentindo uma mistura intensa de orgulho e isolamento, aguçados pela lealdade que o ancorava ao seu papel, como um guardião solitário que observava o mundo glamoroso de longe, uma pontada de inveja sutil o atravessando ao ver Eliot entrar no holofote. Eles seguiram para a entrada, e Marcel estacionou o carro e ficou dentro, uma resignação cansada o invadindo, como se o confinamento no veículo espelhasse sua posição periférica na vida de Eliot. A chegada de Eliot causou uma comoção nos presentes, um imigrante ucraniano ilustre, cuja empresa de tecnologia de ponta, voltada para diversos setores do comércio, o tornava uma figura de admiração e curiosidade, uma onda de excitação percorrendo a multidão, como se sua presença injetasse uma dose de autenticidade ao evento. Alguns políticos importantes e empresários estavam ali, trocando cartões e sorrisos calculados sob as luzes quentes do salão. O prefeito não compareceu, mas mandou seu assessor, que recebeu Eliot com um sorriso de orelha a orelha, sentindo uma ansiedade servil e intensa, carregada pela pressão de representar a autoridade ausente, como um mensageiro ansioso por aprovação. - Senhor Lessan, o prefeito teve que viajar, mas enviou sua doação. Eliot agradeceu e sorriu cordialmente, uma gratidão genuína misturada com a fadiga emocional de noites em claro, enquanto puxava na memória as lembranças de sua própria jornada como refugiado, tornando cada gesto de solidariedade um eco pessoal de suas perdas. Durante o evento, acordos comerciais foram assinados, parcerias firmadas e muitas arrecadações para os refugiados da Ucrânia foram doadas naquela noite, uma atmosfera de otimismo coletivo pulsando no ar, mas temperada pela urgência, como se cada cheque assinado carregasse o peso de vidas distantes. A noite já estava avançada, e Eliot junto com Uriel ocupavam uma mesa junto com um empresário do ramo automobilístico, Aurélio Mendonça, e o secretário de segurança, Raimundo Pedrosa, quando Aurélio perguntou, sentindo uma curiosidade mórbida e intensa, fascinado por mistérios que contrastavam com sua vida de luxo, como um homem entediado buscando adrenalina em conversas sombrias. - E então Pedrosa, como anda o caso dos desaparecimentos? Tem alguma pista do que seja ou do paradeiro das vítimas? Pedrosa virou o resto de uísque e respondeu, uma frustração profunda o consumindo, como um guerreiro exausto enfrentando um inimigo invisível, o peso da responsabilidade latejando em suas veias. - Não, e o maior desafio desse caso é não vazar para a imprensa. Seria um caos. Mas infelizmente, nenhuma pista, elas simplesmente desapareceram. Eliot se inclinou curioso e perguntou, uma intriga intensa o invadindo, como se o mistério tocasse uma corda sombria em sua alma, misturando empatia pelas vítimas com uma inquietude primal. - Pode me explicar do que se trata, secretário Pedrosa? Claro, se puder compartilhar o caso. Pedrosa pediu outro uísque ao garçom e começou, sua voz carregada de uma angústia profissional quase palpável, como se cada palavra reabrisse feridas de cenas de crime que o assombravam à noite. - O primeiro desaparecimento foi há um mês. Um casal voltava de uma casa noturna, já era madrugada quando foram atacados. O corpo do homem foi encontrado dentro do carro, sem o coração, e a namorada dele desapareceu. Sem corpo, sem rastro, sem ligação para os pais indicando um sequestro... nada. Depois dessa ocorrência, mais quatro aconteceram, sempre o mesmo modus operandi. Os ataques sempre acontecem longe de lugares com câmeras ou boa iluminação. Seja quem for esse serial killer, nem digitais no corpo deixa, e a forma grotesca de como arranca os corações é assustadora. O peito é praticamente arrombado de fora para dentro. Em anos de trabalho policial até chegar a esse cargo, nunca vi um crime como esse. Eliot trocou um olhar discreto com Uriel, sentindo uma tensão elétrica, como se o relato evocasse sombras de seu próprio passado turbulento, uma mistura de compaixão e alerta instintivo. Uriel, por sua vez, disse para o secretário de segurança, uma indignação protetora intensa o impulsionando, causada pela lealdade que o fazia ver ameaças em todo canto, como um guardião vigilante. - Senhor Pedrosa, mas isso é grave demais, e eu penso que não avisar a população é entregar vítimas para esse indivíduo. Eliot reforçou, sua voz carregada de uma empatia urgente como um homem que conhecia o custo do silêncio, impulsionado por uma dor pessoal que o tornava defensor dos vulneráveis. - O senhor nem precisa entrar em detalhes, explique as mortes e os desaparecimentos, e avise as pessoas para evitarem lugares como os que os ataques aconteceram. O secretário Raimundo Pedrosa suspirou, balançando levemente o copo de uísque, fazendo as pedras de gelo baterem na lateral do copo emitindo um barulho tilintante, bebeu um gole e sentenciou, com uma resignação pesada o dominando, como um líder sobrecarregado pelo medo do pânico coletivo, o conflito interno entre dever e caos latejando em seu peito. - Será um caos daqueles.






