Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 5
Lara Oliveira O carro parou em frente à torre de vidro e aço que cortava o céu noturno como uma lâmina negra. Meu estômago revirou assim que Alex abriu a porta. Ele saiu primeiro, o corpo grande bloqueando a luz dos postes, como se já estivesse pronto para enfrentar o mundo por mim. Loke estendeu a mão do outro lado. Seus dedos envolveram os meus com firmeza. — Vem, princesa. Você está segura aqui. Minhas pernas tremiam quando pisei no mármore frio do hall. O vestido de noiva sujo e amassado arrastava pelo chão, carregando o cheiro de suor, medo e o perfume deles ainda grudado na minha pele. Eu me sentia uma intrusa no próprio corpo. No elevador privativo, o silêncio era sufocante. Eu estava espremida entre os dois. Alex na frente, Loke atrás, os corpos deles me cercando como um escudo vivo. — Você está tremendo inteira — murmurou Loke, a voz grave. Ele deslizou a mão pelo meu braço, tentando me aquecer. — Estou apavorada — confessei, a voz falhando. — De tudo. Do que meu pai vai fazer… do que o André ainda pode fazer. Alex virou o rosto, os olhos escuros queimando de determinação. — Aqui ninguém encosta em você. Nem seu pai, nem aquele moleque, nem ninguém. Entendeu? As portas se abriram direto para a cobertura. O lugar era impressionante, paredes de vidro do chão ao teto, vista panorâmica da cidade acesa, sofás de couro escuro e uma lareira crepitando. Luxo frio, mas que, pela primeira vez, parecia um refúgio. Mal tínhamos entrado quando o elevador apitou novamente. Alex e Loke ficaram instantaneamente alertas. As portas se abriram com violência. André invadiu a cobertura, terno de noivo amarrotado, rosto deformado pela raiva. — Sua vadia desgraçada! — berrou ele, avançando direto para mim. Tudo aconteceu rápido demais. A mão dele acertou meu rosto com um tapa brutal. Minha cabeça virou com força. A dor explodiu no lado já machucado pelo meu pai. Caí de lado no sofá, o gosto metálico de sangue enchendo minha boca. — Você me humilhou na frente de todo mundo! — gritou ele, a voz rouca. — Fugiu do altar como uma puta barata enquanto sua irmã fazia escândalo! Você tinha que ter ficado ao meu lado. Não fugir, como uma vadia que é. Antes que ele pudesse dar mais um passo, o inferno se abriu. Loke foi o primeiro. Com um rosnado animal, agarrou André pela gola e o arremessou contra a parede de vidro com tanta força que o painel inteiro vibrou. — Seu filho da puta! — explodiu Loke, a voz carregada de fúria pura. — Você bateu nela na nossa frente?! Alex foi ainda mais selvagem. Agarrou o sobrinho pelo cabelo e deu uma joelhada violenta na barriga dele. — Seu covarde de merda! — rugiu Alex, o rosto contorcido de raiva. — Toca nela de novo e eu juro por Deus que te mato aqui mesmo! André tentou revidar, mas não tinha chance. Loke acertou um soco preciso no rosto dele, abrindo seu lábio. Alex segurou o braço do sobrinho e torceu, imobilizando-o contra o vidro. — Vocês estão loucos?! — gritou André, cuspindo sangue. — Ela é minha noiva! — Era! — berrou Alex, dando outro soco que fez a cabeça de André bater na parede. — Agora ela é nossa. E você nunca mais vai encostar um dedo nela, seu merdinha. Loke segurou o rosto de André com força, apertando as bochechas machucadas. — Olha bem pra ela. Olha o que você e o pai dela fizeram. Se eu te ver a menos de cem metros dela novamente, não vai ser só surra. Vou acabar com você devagar. André, mesmo sangrando, soltou uma risada baixa e desprezível, cheia de veneno. — Vocês acham que salvaram a princesinha? — Ele virou o rosto ensanguentado para mim, sorrindo com ódio. — Parabéns, Lara. Você se livrou do casamento. Mas adivinha? Aquela dívida de milhões que seu pai fez pra salvar a empresa de vocês… está toda no seu nome. Não no meu. No seu. Ele colocou tudo em seu CPF, sua idiota. Você pode até não casar comigo… mas vai pagar cada centavo sozinha. Sozinha! Ele riu mais alto, um riso cruel e debochado, mesmo com o sangue escorrendo pelo queixo. — Olha pra você… achando que meus tios vão te salvar. Eles não ficam com ninguém. Daqui a pouco vão te jogar fora como fizeram com todas as outras. Você não passa de uma vadia burra que abriu as pernas pra dois caras na véspera do casamento. A humilhação me acertou como outro tapa. Meu peito apertou tanto que eu mal conseguia respirar. Alex perdeu o resto de controle. Ele puxou André pelo terno e deu mais dois socos seguidos, brutais. — Cala essa boca suja! — gritou ele. — Ela não é nada do que você está falando! Loke arrastou André até o elevador, quase o jogando para dentro. — Some da nossa frente, porra! E avisa pro seu pai que se ele quiser vir tirar satisfações, estamos aqui esperando por ele. E vai ser tão bonita quanto a que demos a você. — Logo vocês vão perceber que ela não é nada do que vocês pensam. — ele puxou um celular do bolso interno e jogou contra meus tios. — Achou mesmo que meia dúzias de fotos minhas fodendo a sua irmã, iriam abalar alguma coisa? Você é ridícula. As portas do elevador se fecharam. O silêncio que caiu foi ensurdecedor. Eu tremia violentamente no sofá, o rosto latejando, lágrimas escorrendo sem parar. Alex se aproximou primeiro, ajoelhando na minha frente. Suas mãos grandes seguraram meu rosto com uma delicadeza impressionante, contrastando com a fúria de segundos atrás. — Ei, ei… olha pra mim, Lara — disse ele, a voz ainda rouca de raiva, mas tentando suavizar. — Respira. Ele se foi. Não vai voltar. Loke sentou ao meu lado e me puxou para um abraço apertado, quase desesperado, como se quisesse me proteger do mundo inteiro. — Aquele desgraçado… — murmurou Loke contra meus cabelos. — Eu queria ter batido mais. Ninguém, ninguém mesmo, tem o direito de te tratar assim. Eu solucei contra o peito dele. — A dívida… está no meu nome. Meu pai fez isso. Mesmo que eu não case com o André, eu ainda devo milhões. Eu não tenho nada… nada. Alex sentou do outro lado e me puxou para si também, os dois me envolvendo completamente. — A gente resolve essa dívida — disse ele com firmeza, quase uma promessa. Vamos descobrir o que eles fizeram. Se a dívida é da empresa, e está no seu nome, então a empresa é sua. — O quê? Não... eu não... — Deixa com a gente docinho, somos bons com negócios. Loke beijou o topo da minha cabeça. — Você foi corajosa pra caralho hoje. Fugiu de um inferno. Deixou aquele circo pra trás. Agora deixa a gente cuidar de você. Eu fechei os olhos, exausta, dolorida e emocionalmente esgotada, mas pela primeira vez sentindo algo diferente no meio do caos: Não estava mais sozinha.






