Eles me apagaram da família.

Capítulo 6

Acordei sobressaltada, o corpo inteiro pesado e dolorido como se tivesse sido espancada durante a noite. A luz dourada da manhã invadia o quarto de hóspedes pela janela panorâmica, iluminando cada detalhe luxuoso: os lençóis de cetim macios contra minha pele, o lustre de cristal pendurado no teto alto, os móveis de design que gritavam riqueza. Mas nada disso conseguia aquecer o gelo que se espalhava pelo meu peito. Meu rosto latejava no lugar exato onde André tinha me acertado. Cada pulsação era uma lembrança ardente da humilhação.

Sentei na cama devagar, o coração martelando forte contra as costelas. O vestido de noiva amassado sobre a poltrona ao canto do quarto parecia me encarar, um fantasma branco e sujo do inferno que eu tinha vivido. Eu me sentia vazia. Traída. Apagada. Forçada a um casamento que nunca quis, mesmo depois de descobrir a traição nojenta do André com minha própria irmã.

Peguei o celular com as mãos trêmulas. Precisava ouvir a voz da minha mãe. Só uma palavra dela para não desmoronar completamente. Disquei o número, prendendo a respiração.

Tocou. Uma vez. Duas.

— Lara? Meu amor... — A voz da minha mãe saiu fraca, carregada de medo.

— Mãe... — Minha voz quebrou no mesmo instante. Lágrimas quentes queimaram meus olhos. — Como você está? O que aconteceu depois que eu fugi da igreja? Eu não aguentava mais...

Antes que ela pudesse responder, ouvi um movimento brusco. O celular foi arrancado com violência.

— Sua ingrata desgraçada! — A voz do meu pai explodiu no meu ouvido como um trovão, cheia de nojo e fúria. — Tem coragem de ligar pra essa casa depois da vergonha que você trouxe pra gente?

Meu estômago se revirou violentamente. Senti um frio nauseante subir pela espinha e se espalhar pelo corpo inteiro.

— Pai... por favor, só quero falar com a mamãe...

— Falar o quê?! — ele berrou, a voz destilando veneno. — Você foi obrigada a casar, sim! Te demos tudo! Mas em vez de aguentar calada como uma filha decente, você fugiu feito uma covarde quando aquela vadia da sua irmã invadiu a igreja gritando que estava grávida do André!

As lágrimas escorriam pelo meu rosto sem controle. Meu peito apertava tanto que eu mal conseguia respirar.

— Eu descobri tudo dias antes... As mensagens, as fotos... Vocês sabiam e mesmo assim me forçaram a entrar naquela igreja! Quando a Yara apareceu fazendo aquele escândalo, eu não consegui mais fingir. Eu corri. Eu só... corri.

Ele soltou uma risada baixa, cruel, que me cortou por dentro.

— E agora vai se foder sozinha com aquela dívida milionária. Eu não vou pagar nem um centavo. A Yara é o orgulho dessa família. Está grávida do André e vai casar com ele. Em breve a empresa do Max Farias inteira vai ser dele. Você? Você não vale nada. Esquece que eu sou seu pai, porque eu já esqueci que você existe. Sua mãe também. Ela não quer mais saber de você. Bloqueei seu número agora. E suas coisas? Já mandei entregar nessa cobertura de luxo onde você está se prostituindo com aqueles dois. Não precisa nem vir buscar. Some da nossa vida de uma vez!

A ligação caiu.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Fiquei parada por alguns segundos, o celular escorregando da minha mão trêmula. Depois, o choro veio como uma avalanche. Um soluço gutural, doloroso, que rasgou minha garganta. Meu corpo inteiro sacudia. Eu me levantei da cama cambaleando, as pernas fracas, e fui até a poltrona onde o vestido de noiva estava jogado.

Peguei a tesoura que estava sobre a penteadeira — uma tesoura grande, afiada. Minhas mãos tremiam tanto que quase a deixei cair. Com um grito abafado de raiva e dor, comecei a cortar.

O tecido branco rasgou com um som satisfatório, liberando anos de repressão. Cortei as mangas, o corpete, a saia longa. Lágrimas grossas caíam sobre o vestido enquanto eu atacava o tecido como se pudesse destruir toda a dor que ele representava.

— Eu te odeio! — gritei entre soluços, cortando freneticamente. — Eu te odeio por me forçar! Por me trair! Por me jogar fora!

O tecido voava em pedaços ao meu redor. Meus dedos apertavam a tesoura com tanta força que os nós ficaram brancos. Em algum momento, a lâmina escorregou e roçou meu braço, fazendo um corte superficial. O sangue escorreu quente, mas eu mal senti. A dor interna era muito maior.

A porta do quarto se abriu com força.

— Lara! — A voz de Loke ecoou, alarmada.

Alex e Loke entraram correndo. Alex foi o primeiro a me alcançar, tentando segurar meus pulsos com cuidado.

— Princesa, para! Pelo amor de Deus, para com isso! — A voz dele estava rouca de preocupação.

Loke se aproximou pelo outro lado, os olhos arregalados.

— Você vai se machucar! Lara, solta a tesoura!

Eu me debati, o choro misturado com raiva pura.

— Me deixem! Eu preciso destruir isso! Tudo que me obrigaram a ser! — gritei, tentando cortar mais um pedaço. A tesoura balançava perigosamente perto do meu corpo.

Alex conseguiu segurar meu pulso com firmeza, mas sem machucar. Loke envolveu meus ombros por trás, puxando-me contra o peito dele num abraço forte.

— Respira, amor... — murmurou Loke contra meus cabelos, a voz tremendo de tensão. — Estamos aqui. Você não está sozinha. Solta a tesoura... por favor.

Meu corpo tremia violentamente contra o dele. A tesoura caiu no chão com um barulho metálico. Eu desabei nos braços deles, soluçando descontroladamente. O corte no braço sangrava devagar, manchando a camiseta de Loke.

— Eles me jogaram fora... — chorei, a voz falhando. — Meu pai disse que eu não existo mais. Que a Yara está grávida e vai casar com o André. Que a empresa vai ser dele. Que eu me lasque com a dívida sozinha...

Alex pressionou um lenço contra o corte no meu braço, os olhos escuros cheios de fúria e dor.

— Aquele desgraçado... — rosnou ele baixo. — Como ele tem coragem de falar assim com você? Depois de te forçar a casar com um traidor?

Loke acariciava minhas costas em círculos firmes, tentando me acalmar, mas eu sentia que ele também estava tenso, lutando contra a vontade de explodir.

— Você foi corajosa, Lara. Descobriu a traição, foi pressionada até o altar, e quando sua irmã fez aquele circo na igreja, você escolheu fugir. Escolheu viver. Isso não é fraqueza. Isso é sobrevivência.

O interfone tocou. O caminhão de mudança tinha chegado.

Descemos para a sala ainda com o corte no meu braço enfaixado por Alex. Quando abri as caixas, o mundo desabou de novo.

Minhas roupas estavam amassadas, rasgadas e manchadas de café e mostarda, como se tivessem sido destruídas com ódio. Meu laptop tinha a tela completamente estilhaçada. Todos os meus produtos de beleza — cremes, perfumes, maquiagens — estavam quebrados, vazados, misturados numa bagunça pegajosa. Apenas os documentos vieram inteiros, jogados de qualquer jeito.

Caí de joelhos no meio da bagunça, um choro novo e ainda mais profundo saindo do peito. Meu corpo inteiro convulsionava.

— Eles destruíram tudo... — solucei, segurando uma blusa manchada. — Como se eu fosse lixo...

Alex se agachou na minha frente e me puxou para um abraço apertado, quase desesperado.

— Não olha pra isso agora. Isso não é você. Eles que são podres.

Loke se juntou, abraçando-me por trás. Os dois me envolviam como um escudo.

— Vamos comprar tudo novo — disse Loke, a voz rouca. — Roupas, tudo que você quiser. Isso aqui é só coisa material. O que eles tentaram destruir foi sua dignidade, mas não conseguiram.

Eu levantei o olhar entre lágrimas, o peito ainda apertado.

— Eles me apagaram da família... Como se eu nunca tivesse existido.

Alex segurou meu rosto com as duas mãos, os polegares limpando minhas lágrimas.

— Então a gente constrói uma nova família pra você. Aqui. Com a gente. Sem pressão, sem pressa. Mas você nunca mais vai estar sozinha.

Fiquei ali, entre os dois, cercada pelos destroços da minha antiga vida. O corte no braço ardia. O peito doía. A raiva ainda queimava. Mas no meio daquele caos, senti um calor diferente, pequeno, frágil, mas real. Pela primeira vez, alguém lutava por mim. Alguém me via.

E isso, mesmo no meio da dor mais profunda, me dava um motivo para não me quebrar completamente.

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