Mundo de ficçãoIniciar sessãoO novo escritório da Rede Borges Hotéis & Resorts ainda cheirava a tinta quando Anne atravessou a porta giratória da recepção, quinze minutos antes do horário combinado. O piso claro, os sofás em tons quentes e as plantas espalhadas por grandes vasos de cerâmica davam ao espaço uma aparência acolhedora. Em uma das paredes, fotografias mostravam as unidades da rede em outras cidades. Nenhuma parecia igual à outra: havia um prédio cercado por árvores, outro próximo ao mar e um terceiro no centro de uma cidade movimentada. Apesar das diferenças, todos transmitiam a mesma sensação de conforto, como lugares preparados para receber alguém depois de uma viagem longa.
— Chef Anne? — uma voz a chamou antes mesmo que ela terminasse de se anunciar na recepção. A mulher que se aproximava tinha um sorriso do tipo que se espalha antes mesmo de a pessoa perceber que está sorrindo de volta. — Sou eu, a Patrícia, conversamos por telefone.
— Ah sim, prazer — Anne apertou a mão estendida. — Pode me chamar só de Anne, sem formalidade.
— Combinado, Anne. — Patrícia gesticulou para o corredor à esquerda, já começando a andar. — Vem comigo, a sala que separamos para a reunião é logo ali.
Enquanto caminhavam até a sala de reuniões, Patrícia aproveitou para apresentar o evento.
Falava com naturalidade, sem pressa, conduzindo Anne pelos detalhes da inauguração. Explicou que seria a abertura da primeira unidade da Borges Hotéis & Resorts na cidade, um marco importante para a empresa. A lista de convidados reunia empresários, investidores, autoridades e a imprensa local. O desejo da diretoria era oferecer uma experiência elegante, mas acolhedora — um cardápio que impressionasse pela essência, e não pelo excesso.
Anne ouviu tudo em silêncio, absorvendo cada informação. Com o tempo, aprendera que, por trás de cada pedido, sempre existia uma expectativa que nem todos conseguiam colocar em palavras.
A sala reservada tinha uma mesa oval, cadeiras de couro claro, um quadro branco intocado numa parede e janelas grandes que davam para um pátio interno ainda sem paisagismo terminado. Nada ali chamava muita atenção, e Anne não deu muita importância à decoração — só se sentou na cadeira mais próxima da porta, por costume.
— Aceita alguma coisa? Café, chá?
— Só uma água, obrigada.
— Já volto — disse Patrícia, saindo da sala.
Alguns minutos depois, retornou com um copo de água e o colocou diante de Anne.
— O restante da equipe não deve demorar. Se precisar de alguma coisa, estarei logo ali.
Anne agradeceu, e Patrícia tornou a sair, fechando a porta com cuidado.
Sozinha, Anne tirou o tablet da bolsa e começou a registrar as ideias que haviam surgido durante a conversa. Anotou algumas possibilidades de pratos, fez observações sobre a proposta do evento e marcou um lembrete para perguntar se havia convidados com alguma restrição alimentar. Um menu elegante, mas sem excessos. Era exatamente o tipo de desafio que gostava de assumir.
Quando as ideias começaram a se esgotar, Anne tomou um pouco da água e consultou o relógio no pulso.
Três e meia.
A reunião estava atrasada havia meia hora.
A demora começou a incomodá-la. Quando ouviu vozes no corredor, Anne bloqueou o tablet e se levantou, decidida a perguntar quanto tempo ainda precisaria esperar.
Ao abrir a porta, encontrou Patrícia conversando em voz baixa com um homem de costas para a sala. Ele era alto, tinha os ombros largos sob o terno escuro e mantinha a cabeça um pouco inclinada para ouvi-la. O cabelo curto e bem aparado deixava a nuca exposta.
Anne não quis interromper. Recuou, decidida a voltar para a sala e esperar mais um pouco, mas a porta escapou de sua mão durante o movimento e bateu contra o batente. O estalo seco ecoou pelo corredor.
Patrícia deu um pequeno pulo. O homem se virou, surpreendido pelo barulho.
— Desculpa — Anne começou, ainda olhando para baixo, constrangida com o próprio descuido. — Eu não queria...
Quando tornou a encará-lo, as palavras desapareceram.
O tempo havia mudado alguns traços, endurecido outros e deixado marcas que ela não conhecia. Ainda assim, Anne reconheceria aquele rosto em qualquer lugar.
Oliver.







