Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio que tomou conta do restaurante parecia pesar sobre todos. Ninguém sabia o que dizer depois da revelação de Lucas. Os convidados, que poucos minutos antes esperavam assistir a um pedido de casamento, agora trocavam olhares constrangidos. Os pais de Alice permaneciam imóveis, incapazes de assimilar a vergonha que acabara de cair sobre a família.
Lucas, porém, não queria mais permanecer ali.
Romeu, que havia acompanhado tudo de perto, percebeu imediatamente que o amigo precisava sair daquele ambiente antes que a dor o consumisse diante de tantas pessoas.
Aproximou-se dele e tocou seu braço.
— Lucas, vamos embora. Aqui não é lugar para você continuar.
Lucas olhou para o amigo. Seus olhos estavam vermelhos, mas ele se esforçava para manter a expressão firme.
— Eu não quero falar com ninguém.
— Então não fale. Vamos sair daqui.
Lucas assentiu.
Os dois deixaram o restaurante sem dizer mais nada.
Do lado de fora, o ar da noite parecia diferente. Lucas respirou profundamente, como se estivesse tentando expulsar do peito tudo aquilo que havia acontecido nas últimas horas. Entrou no carro ao lado de Romeu e permaneceu em silêncio durante todo o trajeto.
Romeu conhecia o amigo há muitos anos. Sabia que Lucas não era homem de esconder sentimentos, mas também sabia que, quando sofria, preferia se fechar.
Por isso não o pressionou.
Depois de alguns minutos, o carro parou diante de um pequeno bar próximo à praia. O estabelecimento era tranquilo naquela noite, com poucas mesas ocupadas. Do lado de fora, era possível ouvir o som das ondas quebrando na areia.
Romeu olhou para Lucas.
— Vamos entrar?
Lucas abriu a porta.
— Vamos.
Os dois escolheram uma mesa mais afastada. Pouco depois, uma garrafa de uísque chegou acompanhada de dois copos.
Lucas serviu o primeiro.
Ficou observando o líquido por alguns segundos antes de levar o copo aos lábios.
Bebeu devagar.
Romeu permaneceu em silêncio.
Lucas serviu novamente.
— Sabe o que mais dói? — perguntou, finalmente.
Romeu apoiou os braços sobre a mesa.
— O quê?
— Eu não desconfiava de nada.
Sua voz falhou por um instante.
— Nada, Romeu. Eu estava planejando pedir aquela mulher em casamento.
Ele soltou uma risada amarga.
— Eu estava com um anel no bolso. Tinha organizado tudo. Liguei para os pais dela. Reuni pessoas naquele restaurante. Passei horas imaginando o rosto dela quando eu fizesse o pedido.
Lucas apertou o copo entre os dedos.
— E enquanto eu fazia tudo isso, ela estava com outro homem.
Romeu respirou fundo.
— Lucas, você não teve culpa.
— Eu confiei nela.
— E confiar em quem amamos não é um erro.
Lucas ficou alguns segundos olhando para o mar através da janela.
— Talvez seja.
— Não diga isso.
— Eu deveria ter percebido.
— Percebido o quê? Você amava Alice. Ela sabia esconder muito bem o que fazia.
Lucas abaixou os olhos.
— Durante quase cinco anos, eu fiz tudo por ela.
— Eu sei.
— Nunca faltou nada.
— Eu sei.
— Então por quê?
Romeu não encontrou resposta.
Lucas tomou outro gole.
— É isso que não consigo entender. O que faltou?
— Talvez nada tenha faltado a você. Talvez o problema sempre tenha estado nela.
Lucas permaneceu calado.
As palavras do amigo faziam sentido, mas naquele momento nenhuma explicação conseguia diminuir a dor.
Ele pegou a garrafa e serviu mais um pouco.
— Eu não vou passar por isso novamente.
Romeu ergueu os olhos.
— Lucas.
— Estou falando sério.
— Você acabou de descobrir uma traição. Não tome decisões para o resto da sua vida baseado no que aconteceu hoje.
Lucas balançou a cabeça.
— Não é apenas por causa de hoje. É por tudo.
— Tudo o quê?
Lucas encostou-se à cadeira.
— Mulheres como Alice não querem um homem. Querem o que ele pode oferecer.
Romeu franziu a testa.
— Não generalize.
— Você não viu o que eu vi.
— Sinto muito.
— Não sabe do que estou falando.
Romeu tentou interrompê-lo, mas Lucas continuou.
— Eu passei quase cinco anos acreditando que tinha encontrado alguém que me amava pelo homem que eu sou. Agora percebo que talvez ela tenha amado apenas a vida que eu podia proporcionar.
— Você não pode colocar todas as mulheres no mesmo lugar.
Lucas olhou para ele.
— Eu posso, sim.
— Não pode.
— Posso porque não vou permitir que outra pessoa tenha poder sobre mim desse jeito.
Romeu ficou sério.
— E o que pretende fazer?
Lucas demorou a responder.
Mais uma vez, olhou para o mar.
— Nunca mais vou me apaixonar.
— Lucas.
— Nunca mais.
— Você está machucado.
— Estou. E justamente por isso aprendi.
Ele apoiou os dois braços sobre a mesa.
— A partir de hoje, acabou. Não quero casamento, namoro, promessa, nada disso.
Romeu soltou o ar lentamente.
— E pretende viver sozinho?
Lucas deu de ombros.
— Posso viver muito bem sozinho.
— Você sempre disse que queria formar uma família.
— Eu queria. Com Alice.
A resposta saiu tão baixa que Romeu percebeu o tamanho da ferida.
Lucas fechou os olhos por alguns segundos.
— Aquela pessoa morreu para mim hoje.
Romeu não respondeu.
Lucas abriu os olhos novamente e continuou:
— Se algum dia eu quiser uma mulher, será apenas para uma companhia passageira. Nada de sentimentos. Nada de compromisso. Nada de colocar meu coração nas mãos de alguém novamente.
Romeu o encarou.
— Você está dizendo isso agora porque está ferido.
— Pode ser.
Lucas pegou o copo.
— Mas vou cumprir.
— Não faça uma promessa dessas.
Lucas levantou o copo diante do amigo.
— Eu faço uma promessa, Romeu. Nunca mais vou me apaixonar.
Romeu não brindou.
Apenas observou o amigo beber.
Porque conhecia Lucas o suficiente para saber que aquela promessa havia nascido da dor, não da razão.
E, naquele momento, parecia impossível convencê-lo do contrário.
A noite avançou lentamente.
Lucas continuou bebendo, mas sem perder completamente a consciência do que dizia. Entre um gole e outro, falava sobre os planos que havia feito, sobre o anel, sobre o jantar e sobre a vida que imaginara ao lado de Alice.
Romeu escutava.
Não havia conselho capaz de consertar aquilo naquela noite.
Quando finalmente se levantaram para ir embora, Lucas parou diante da porta do bar e olhou para o céu escuro.
O vento vindo do mar mexeu em seus cabelos.
— Amanhã eu vou voltar ao trabalho.
Romeu colocou as mãos nos bolsos.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Você deveria descansar.
— Descanso depois.
Lucas caminhou até o carro.
— Minha vida não vai parar por causa dela.
Romeu o acompanhou.
— Essa é a primeira coisa sensata que você disse hoje.
Lucas esboçou um sorriso.
— Eu não vou deixar Alice destruir minha vida.
Eles entraram e fecharam a porta do carro
Por alguns segundos, o sorriso desapareceu.
A imagem dela com outro homem voltou à sua mente.
Ele apertou os olhos, tentando afastá-la.
Não conseguiu.
Naquela noite, Lucas descobriu que algumas dores não desapareciam com uísque, distância ou silêncio, mas tinha uma única certeza. A certeza de que seu coração jamais voltaria a amar.
Romeu então se ofereceu de levá-lo para casa.







