Mundo de ficçãoIniciar sessãoDepois do almoço, seu Antônio se ofereceu para levar Lucas e Romeu ao lago, eles ainda estavam terminando o café.
— Então, senhores, estão prontos para conhecer uma das maiores riquezas do nosso povoado?
Romeu levantou os olhos.
— Se estiver falando de outro prato daquele restaurante, estou pronto.
Antônio riu.
— Não é comida.
— Então o que é?
— O lago e a cachoeira.
Lucas ficou interessado.
— Ficam muito longe?
— Não. Uns dez minutos caminhando.
Romeu olhou para os próprios sapatos.
— Caminhando?
— Sim.
— E como está o caminho depois daquela chuva?
Antônio fez uma expressão divertida.
— Com bastante lama.
Romeu olhou para Lucas.
— Está vendo? Já estou arrependido.
Lucas riu.
— Você reclama demais.
— Eu trouxe sapato para uma viagem de negócios, não para atravessar uma fazenda.
Seu Antônio continuou sorrindo.
— O lugar só é acessível a pé. Não conseguimos passar veículos pela trilha. Mas garanto que vale a pena.
Lucas levantou-se.
— Então vamos.
Romeu suspirou.
— É claro que vamos.
Os três deixaram o restaurante e seguiram pela pequena rua que levava à entrada da trilha.
Logo perceberam que seu Antônio não havia exagerado.
A chuva da noite anterior havia transformado o caminho em uma mistura de terra úmida e lama. Em alguns pontos, pequenas poças de água se acumulavam entre as pedras.
— Eu avisei — comentou Antônio.
Romeu olhou para o próprio sapato.
— Meu sapato nunca mais será o mesmo.
Lucas soltou uma risada.
— Depois compramos outro.
— Você fala isso porque pode comprar uma loja inteira.
— Não exagera.
— Para você, comprar outro sapato não é um problema.
Antônio ria enquanto caminhava à frente.
— Vocês dois parecem irmãos.
— Somos amigos há muitos anos — respondeu Romeu.
— Às vezes acho que ele é meu irmão mais velho — brincou Lucas.
— Eu sou mais velho por apenas alguns meses.
— Mesmo assim.
A trilha ficou mais estreita conforme avançavam.
As árvores formavam uma espécie de corredor natural acima deles. A luz do sol atravessava as folhas em pequenos feixes, iluminando partes do caminho.
O som dos pássaros era constante.
Havia pequenos insetos voando entre as flores e o cheiro da terra molhada deixava o ar completamente diferente.
Lucas diminuiu o passo.
Não estava acostumado com aquele silêncio.Na capital, o silêncio praticamente não existia.
Sempre havia buzinas, motores, pessoas conversando, telefones tocando, sirenes ao longe.
Ali, os sons eram outros, o canto dos pássaros e o vento passando pelas folhas.
O barulho dos próprios passos sobre a terra úmida.
Era uma paz que Lucas não lembrava ter experimentado há muito tempo.
— Bonito, não é? — perguntou Antônio.
Lucas olhou ao redor.
— Muito.
Romeu, que vinha atrás, concordou.
— É completamente diferente da cidade.
— Por isso muitas pessoas vêm aqui nos fins de semana — explicou Antônio. — Principalmente depois que descobrem o lago.
Continuaram caminhando.
A cada minuto, a vegetação ficava mais densa.
Flores pequenas apareciam nas laterais da trilha. Algumas tinham cores fortes, outras eram tão delicadas que pareciam ter sido colocadas ali cuidadosamente.
Lucas passou a mão por uma folha molhada.
— Tudo parece mais vivo aqui.
Antônio sorriu.
— Porque é.
Romeu olhou para ele.
— Isso foi profundo.
— Estou apenas dizendo a verdade.
Mais alguns minutos de caminhada e o som da água começou a aparecer.
Primeiro, distante.
Depois, cada vez mais claro.
Lucas parou por um instante.
— Estamos chegando.
Antônio apontou para a frente.
— Logo ali.
A trilha terminou diante de uma pequena abertura entre as árvores.
Lucas ficou imóvel.
Diante deles havia um lago de águas cristalinas.
A superfície refletia o céu e as árvores ao redor. Em um dos lados, algumas pedras formavam uma pequena margem natural. Mais adiante, a água seguia até a cachoeira.
O som da queda d'água preenchia o espaço.
Romeu ficou alguns segundos sem dizer nada.
Depois soltou um assobio baixo.
— Agora entendi por que você disse que valia a caminhada.
Antônio sorriu.
— Eu falei.
Lucas se aproximou lentamente da margem.
A água era tão transparente que conseguia enxergar algumas pedras no fundo.
— Isso aqui é incrível.
— Durante o verão fica ainda mais movimentado — explicou Antônio. — Famílias vêm passar o dia. Alguns moradores montam pequenas barracas e vendem doces, comidas e bebidas. O restaurante também fica cheio.
Lucas olhou ao redor.
— Poderia ser melhor aproveitado.
— Esse é um dos objetivos do projeto. Queremos melhorar o acesso sem destruir a natureza.
Lucas assentiu.
— É importante manter isso preservado.
Romeu tirou o celular do bolso.
— Vou tirar algumas fotos.
— Pode tirar, mas não jogue nada na água — brincou Antônio.
— Eu tenho educação.
— Estou apenas garantindo.
Lucas caminhou alguns metros pela margem.
Uma pequena corrente de água passava entre as pedras.
Ele respirou profundamente.
Por alguns minutos, esqueceu completamente os problemas da empresa.
Esqueceu a promessa que havia feito.
Esqueceu até que precisava voltar à capital em poucos dias.
Ali, cercado pela natureza, sentiu uma tranquilidade que não encontrava havia meses.
Talvez fosse justamente aquilo que precisava.
Um lugar onde ninguém conhecesse sua história.
Ninguém soubesse da traição.
Ninguém o tratasse como o CEO Monteiro.
Ali, era apenas Lucas.
Romeu aproximou-se.
— Está pensando em alguma coisa?
— Não.
— Mentira.
Lucas sorriu.
— Estou pensando que talvez eu tenha passado tempo demais dentro da cidade.
Romeu olhou para a cachoeira.
— Talvez essa viagem faça bem.
Lucas permaneceu em silêncio.
O vento passou pelas árvores, fazendo as folhas balançarem.
Por um momento, fechou os olhos era estranho.
Ele havia chegado ao povoado apenas por causa de um projeto.
Não esperava encontrar nada além de trabalho.
Mas, desde que chegou, pequenas coisas começaram a mexer com ele.
Romeu percebeu e falou assim do nada.
— Mas uma coisa eu sei.
— O quê?
— Você está diferente desde que chegou aqui.
Lucas olhou novamente para o lago.
— Talvez eu só esteja cansado da capital.
— Talvez.
Os dois permaneceram alguns minutos em silêncio.
Depois, seu Antônio avisou que era melhor retornarem antes que escurecesse.
A caminhada de volta foi ainda mais tranquila.
Lucas já não se importava com a lama no caminho.
Pela primeira vez em muito tempo, não sentia pressa para voltar à cidade.
Aquele lugar simples começava a mostrar a ele que a vida podia existir longe dos arranha-céus, das reuniões e dos luxos.
E, sem que Lucas percebesse, enquanto caminhava de volta pela trilha, uma nova fase de sua vida começava a se desenhar.
Ainda havia muita coisa que ele não conhecia sobre aquele povoado.
Principalmente sobre uma jovem chamada Teresa Silva.







