Mundo de ficçãoIniciar sessãoA reunião começou às nove da manhã e, para surpresa de Lucas e Romeu, terminou muito melhor do que ambos esperavam. Os moradores chegaram cedo, ocupando quase todas as cadeiras disponíveis no salão comunitário. Havia idosos, jovens, mães com crianças e trabalhadores que haviam deixado suas atividades por algumas horas para participar daquele momento.
No início, alguns demonstravam desconfiança. Não era difícil entender o motivo. Durante anos, muitas promessas haviam sido feitas ao povoado, mas poucas realmente saíram do papel. Por isso, quando Lucas começou a explicar o projeto, algumas pessoas permaneceram caladas, observando cada palavra.
Ele não tentou impressioná-las com números ou com o tamanho de sua empresa.
Falou de maneira simples.
— Nós não viemos aqui apenas para construir casas ou reformar prédios. Queremos que o povoado tenha condições de crescer. Queremos que as pessoas possam trabalhar aqui, que as crianças tenham uma escola melhor e que o comércio local também seja beneficiado.
Uma senhora levantou a mão.
— E essas obras realmente vão acontecer?
Lucas olhou para ela.
— Vão.
— O senhor promete?
Lucas sorriu discretamente.
— Eu prefiro não fazer promessas. Prefiro fazer o trabalho e deixar que a senhora veja.
A resposta arrancou alguns sorrisos.
Romeu tomou a palavra em seguida e explicou como seriam as etapas do projeto. Primeiro começariam os levantamentos das áreas, depois as reformas e construções. Algumas casas precisariam ser demolidas para dar lugar a novas moradias, mas ninguém seria retirado sem que houvesse uma solução adequada.
Um dos moradores perguntou sobre empregos.
— Quem vai trabalhar nas obras?
Romeu respondeu:
— Sempre que possível, vamos contratar moradores daqui. Também teremos profissionais que virão de fora, principalmente engenheiros, arquitetos e técnicos, mas queremos que o povoado participe diretamente desse crescimento.
A notícia foi recebida com entusiasmo.
Outro homem perguntou sobre a escola.
— As crianças vão continuar estudando durante a reforma?
Um dos engenheiros que acompanhava a reunião explicou que o cronograma seria organizado para que as aulas não fossem interrompidas.
Pouco a pouco, a tensão inicial desapareceu.
Os moradores começaram a fazer perguntas, apresentar sugestões e falar sobre as necessidades do lugar.
Lucas escutava tudo com atenção.
Em determinado momento, percebeu que aquele projeto seria muito maior do que imaginara.
No final da reunião, Antônio se levantou.
— Quero agradecer ao senhor Lucas e ao senhor Romeu. Durante muito tempo, esperamos por uma oportunidade como essa.
Lucas respondeu:
— Nós também agradecemos a confiança.
Quando a reunião terminou, os moradores começaram a sair satisfeitos.
Antônio aproximou-se dos dois.
— Daqui a alguns dias começam os trabalhos.
— Já? — perguntou Romeu.
— Sim. As primeiras máquinas devem chegar dentro de poucos dias. Depois virão os arquitetos, engenheiros e as equipes responsáveis pelas diferentes etapas.
Lucas assentiu.
— Quero estar aqui quando começarem.
Antônio sorriu.
— Tenho certeza de que os moradores vão gostar disso.
— Vamos acompanhar de perto.
— Então teremos muito trabalho pela frente.
— É exatamente isso que queremos — respondeu Lucas.
Depois da reunião, Antônio convidou os dois para almoçar no pequeno restaurante do povoado.
— Vocês precisam conhecer a comida daqui.
Romeu colocou a mão sobre a barriga.
— Depois daquela reunião, aceito qualquer convite que envolva comida.
Lucas riu.
— Vamos.
O restaurante ficava próximo à praça. Era simples, mas tinha um ambiente agradável. Algumas mesas estavam ocupadas por moradores e trabalhadores que haviam aproveitado o horário do almoço para comer.
Assim que entraram, Lucas percebeu que o lugar estava bastante movimentado.
— Pelo visto, a comida é boa mesmo — comentou Romeu.
Antônio sorriu.
— Pode acreditar.
Os três escolheram uma mesa.
Foi então que Lucas viu uma jovem passando entre as mesas com uma bandeja nas mãos.
Por um instante, seu olhar ficou preso nela.Ele a reconheceu imediatamente.Era a moça da estrada.
A mesma que havia encontrado no dia anterior, carregando lenha e acompanhada por duas crianças.
Ela estava com os cabelos presos de maneira simples e vestia um avental sobre a roupa. Movia-se rapidamente entre as mesas, servindo os clientes e recolhendo pratos.
Lucas permaneceu em silêncio.
Romeu também a observou.
— Não pode ser — murmurou.
Lucas olhou para o amigo.
— O quê?
— É ela.
— Quem?
Romeu apontou discretamente com o olhar.
— A moça de ontem.
Lucas voltou a olhar para Teresa.
— É mesmo.
Os dois acompanharam seus movimentos.
Alguns homens que estavam sentados perto do balcão fizeram comentários quando ela passou.
— Teresa, essa comida está cada dia melhor.
Ela sorriu timidamente.
— Obrigada.
Outro homem brincou:
— Se continuar cozinhando assim, vou começar a vir aqui todos os dias.
Teresa apenas abaixou os olhos e continuou trabalhando.
Lucas percebeu a maneira discreta como ela reagia aos elogios.
Ela não parecia gostar da atenção.Também não parecia querer criar qualquer intimidade com aqueles homens.
Apenas fazia seu trabalho.
— Ela trabalha aqui? — perguntou Romeu.
Antônio respondeu:
— Sim. Teresa ajuda no restaurante nos fins de semana.
— E nos outros dias?
— Ela ajuda a família.
Lucas continuava observando.
Não havia nada de extraordinário naquela cena. Era apenas uma jovem trabalhando em um restaurante simples.
Mesmo assim, havia algo nela que chamava sua atenção.
Talvez fosse a tranquilidade ou a timidez.
Ou simplesmente o fato de ser tão diferente das mulheres que ele conhecera na capital.
Antônio percebeu que os dois estavam olhando para Teresa.
— Vou apresentar vocês.
Lucas imediatamente voltou os olhos para a mesa.
— Não precisa.
— Por quê?
— Ela está trabalhando.
— Não tem problema.
Antônio levantou a mão.
— Teresa!
A jovem virou-se.
— Sim, seu Antônio?
— Venha aqui um instante.
Teresa aproximou-se devagar.
Quando viu Lucas e Romeu, reconheceu os dois.
Seu olhar demonstrou surpresa.
Antônio sorriu.
— Quero apresentar nossos patrocinadores. Este é Lucas Monteiro e este é Romeu Tavares.
Teresa segurou a bandeja contra o corpo.
— Prazer.
Lucas levantou-se.
— Prazer em conhecê-la.
Romeu sorriu.
— Nós já nos conhecemos.
Teresa franziu levemente a testa.
— Conhecemos?
— Ontem, na estrada.
Ela imediatamente ficou séria.
— Ah...
— Você nos deu a direção.
Teresa assentiu.
— Lembro.
Romeu riu.
— Foi você quem nos salvou de ficar perdidos.
Ela deu um pequeno sorriso.
— Eu só mostrei o caminho.
Antônio olhou para Teresa.
— Quero que você cuide deles enquanto estiverem aqui.
Ela arregalou um pouco os olhos.
— Eu?
— Sim. Sirva o almoço deles, veja se precisam de alguma coisa.
Teresa assentiu.
— Claro, seu Antônio.
Lucas percebeu que ela parecia desconfortável com a atenção.
— Não precisa se preocupar — disse ele. — Podemos pedir normalmente.
— Não é preocupação.
Teresa sorriu de leve.
— Vou trazer o cardápio.
Ela se afastou.
Romeu esperou alguns segundos antes de olhar para Lucas.
— Então era ela mesmo.
Lucas pegou o cardápio e tentou se concentrar no pedido
Mas, quando Teresa voltou para anotar os pedidos, seus olhos encontraram os dela por alguns segundos.
Ela desviou primeiro.
E muito menos sabia que aquela jovem tímida, que naquele momento apenas anotava o pedido de almoço, carregava uma história que faria Lucas enxergar a vida de uma maneira completamente diferente.
Por enquanto, para ele, Teresa era apenas a moça que encontrara na estrada.
Mas, sem perceber, começava a prestar atenção demais nela. E Romeu percebeu.







