Capítulo 4 — Um Novo Caminho

Os meses que se seguiram à descoberta da traição foram os mais difíceis da vida de Lucas. Nos primeiros dias, ele praticamente se refugiou no trabalho. Chegava cedo à empresa e era quase sempre o último a sair. Quando alguém perguntava se estava bem, respondia que sim, mesmo quando por dentro ainda lutava contra as lembranças daquela tarde.

A notícia sobre o fim do relacionamento com Alice havia se espalhado rapidamente pela alta sociedade. O jantar que deveria anunciar o noivado transformou-se em assunto durante semanas. Algumas pessoas comentavam com pesar, outras com curiosidade e havia aquelas que simplesmente gostavam de saber dos problemas alheios.

Lucas não dava atenção.

Depois de alguns meses, os comentários diminuíram, mas as marcas permaneceram.

Alice ainda tentou procurá-lo algumas vezes.

Na primeira, apareceu na empresa sem avisar. Lucas pediu à secretária que não permitisse sua entrada.

Na segunda, mandou uma longa mensagem dizendo que precisava explicar o que havia acontecido.

Lucas sequer respondeu.

Na terceira, conseguiu falar com ele por telefone.

— Lucas, você precisa me ouvir.

— Não tenho nada para ouvir, Alice.

— Eu errei, mas você também teve culpa.

Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, tentando acreditar no que acabara de ouvir.

— Minha culpa?

— Você vivia viajando. Eu passava dias sozinha naquela casa. Você estava sempre trabalhando.

Lucas fechou os olhos.

— Então essa é a sua justificativa?

— Não estou justificando. Estou dizendo que você me deixou sozinha.

— Eu trabalhava para construir a vida que acreditava que teríamos juntos.

— E eu precisava de você.

Lucas soltou uma risada amarga.

— Enquanto eu estava viajando, você estava com outro homem.

Alice ficou em silêncio.

— Não me procure novamente — completou Lucas.

 — O que existia entre nós terminou no dia em que eu abri aquela porta.

Ele desligou.

Depois disso, não voltou a falar com ela.

Aos poucos, Lucas conseguiu recuperar a rotina. Continuou sendo o homem educado e responsável de sempre, mas alguma coisa havia mudado dentro dele.

A promessa feita naquela noite continuava viva.

Ele não permitiria que ninguém voltasse a ocupar aquele espaço.

Romeu percebeu a mudança, mas não insistiu no assunto. Conhecia o amigo o bastante para saber que Lucas precisava descobrir sozinho que nem todas as feridas permaneciam abertas para sempre.

Os dois continuaram trabalhando juntos e, além dos negócios da empresa, mantinham alguns projetos sociais. Tinham dinheiro suficiente para investir em empreendimentos muito maiores, mas preferiam direcionar parte dos recursos para iniciativas que realmente pudessem melhorar a vida de outras pessoas.

Romeu era filho de uma família tradicional e muito rica, assim como Lucas. Apesar disso, os dois nunca tiveram interesse em política ou em usar o dinheiro para aparecer.

Gostavam de ajudar.

Foi justamente durante uma reunião sobre novos investimentos que surgiu uma oportunidade inesperada.

Lucas estava sentado diante de uma grande mesa de reuniões, analisando alguns documentos, quando Romeu entrou na sala carregando uma pasta.

— Tenho uma proposta para você.

Lucas levantou os olhos.

— Se for mais uma reunião interminável, vou fingir que não estou aqui.

Romeu riu.

— Não é uma reunião. É um projeto.

— Que tipo de projeto?

Romeu colocou a pasta sobre a mesa.

— Social.

Lucas se interessou.

— Fale mais.

— Recebi informações sobre um pequeno povoado que precisa de praticamente tudo. As casas são antigas, a escola está em péssimas condições, o posto de atendimento é pequeno e o comércio quase não existe.

Lucas abriu a pasta.

Havia fotografias do local.

Casas simples, ruas de terra, uma pequena igreja e uma escola que parecia precisar de reformas urgentes.

— Eles procuraram investidores? — perguntou Lucas.

— Procuraram parceiros. Existe um projeto para transformar o lugar.

— Transformar como?

Romeu puxou uma cadeira.

— Construir casas melhores para algumas famílias, ampliar e reformar a escola, melhorar a estrutura do pequeno restaurante, reformar a pousada e restaurar a igreja matriz. Também querem melhorar algumas áreas de convivência e criar oportunidades de trabalho.

Lucas passou os olhos pelos documentos.

— É um projeto grande.

— É muito grande.

— E quem vai financiar?

— Precisam de patrocinadores.

Lucas fechou a pasta.

— Quanto?

Romeu sorriu.

— Eu sabia que você perguntaria isso primeiro.

— Não vou entrar em um projeto sem saber o investimento.

Romeu apresentou os números.

Lucas analisou cada página com atenção.

O valor era significativo, mas estava longe de comprometer os negócios dos dois.

— Podemos fazer.

Romeu sorriu.

— Eu sabia.

— Mas quero acompanhar de perto.

— Também pensei nisso.

Lucas levantou os olhos.

— Não quero colocar dinheiro e simplesmente esperar relatórios. Se vamos fazer isso, precisamos conhecer o lugar.

— Concordo.

Romeu apontou para um trecho do documento.

— O problema é que fica longe da capital.

— Quanto?

— Aproximadamente cinco horas de carro.

Lucas fez uma careta.

— Cinco horas?

— É.

— Não gosto da ideia.

— Você não precisa ficar lá o tempo inteiro. O projeto permite trabalho remoto. Os documentos mais importantes podemos trazer para você assinar na capital.

Lucas voltou a olhar as fotografias.

Havia algo naquela proposta que o incomodava e, ao mesmo tempo, despertava sua curiosidade.

Talvez porque, pela primeira vez em meses, tenha encontrado algo que não envolvia negócios, festas ou lembranças de Alice.

— Quando precisamos ir?

— O responsável pelo projeto quer uma reunião com os patrocinadores e os moradores.

Lucas suspirou.

— Quando?

Romeu abriu um sorriso.

— Depois de amanhã.

— Você já estava planejando tudo, não estava?

— Claro.

Lucas balançou a cabeça, divertido.

— Está bem. Vamos.

Dois dias depois, Lucas e Romeu pegaram a estrada.

O carro deixava a capital para trás enquanto os prédios altos desapareciam pouco a pouco da paisagem. No começo, Lucas permaneceu concentrado no notebook, respondendo mensagens da empresa.

Depois de algum tempo, fechou o computador.Pela janela, começou a observar a mudança no cenário.

A estrada ficou mais tranquila. As áreas urbanas deram lugar a campos, pequenas propriedades e árvores que se estendiam até onde os olhos alcançavam.

— Está arrependido? — perguntou Romeu.

— Ainda não.

— Então está gostando.

— Estou apenas observando.

— Isso, para você, já é bastante.

Lucas riu.

A viagem seguia tranquila até que o céu começou a escurecer.

Nuvens carregadas se acumularam rapidamente.

— Parece que vai chover — comentou Lucas.

Romeu olhou para a estrada.

— O aplicativo dizia que a chuva chegaria só à noite.

— O tempo não costuma consultar aplicativos antes de mudar.

Pouco depois, algumas gotas começaram a bater no para-brisa.

O GPS continuava indicando o caminho.

Até que, sem aviso, o sinal desapareceu.

— Perdeu a conexão? — perguntou Lucas.

Romeu olhou para a tela.

— Sim.

— Ótimo.

— Não se preocupe. Ele tinha atualizado a rota há pouco.

— Espero que tenha atualizado o suficiente.

Continuaram seguindo pela estrada indicada na última orientação.

O temporal se aproximava.

Depois de alguns quilômetros, chegaram a um trevo onde duas estradas seguiam em direções diferentes.

Romeu reduziu a velocidade.

— E agora?

Lucas olhou para a tela.

— O GPS não mostra mais nada.

— Perfeito.

Os dois ficaram olhando para as duas estradas.

Foi então que Lucas viu alguém caminhando pelo acostamento.

Era uma jovem.

Ela carregava um feixe de lenha sobre a cabeça e vinha acompanhada por duas crianças.

Romeu reduziu o carro.

— Vamos perguntar para ela.

Lucas observou a moça se aproximar.

Ela parecia jovem, simples e muito tímida.

Quando o carro parou perto dela, a moça imediatamente ficou tensa.

Seus olhos foram primeiro para Lucas e Romeu.

Depois para as duas crianças.

Ela se aproximou apenas o suficiente para ouvir a pergunta.

— Boa tarde — disse Lucas, abaixando o vidro. — Pode nos ajudar? Estamos tentando chegar ao povoado e o GPS perdeu o sinal.

A moça apertou os lábios.Olhou novamente para as crianças.Havia medo em seu olhar.Não por ela mas pelas crianças.

— O senhor precisa seguir pela estrada da esquerda — respondeu baixinho. — Depois do morro, vai encontrar uma ponte. É só continuar.

Romeu agradeceu.

— Obrigado.

Lucas, porém, percebeu a chuva ficando mais forte.

— Se quiser, podemos levar vocês.

A moça negou imediatamente.

— Não precisa.

— Está começando a chover.

Ela ergueu os olhos para o céu.

— Eu gosto da chuva.

E, antes que qualquer um pudesse insistir, continuou seu caminho com as duas crianças.

Lucas acompanhou aquela figura pelo retrovisor.Não sabia por quê, mas algo naquela jovem havia chamado sua atenção.Talvez fosse o jeito desconfiado.Talvez fossem as crianças.

— Que moça estranha — comentou Romeu.

Lucas continuou olhando pela janela.

— O pessoal do interior deve ser mais desconfiado mesmo.

O carro seguiu pela estrada.

Atrás deles, a chuva finalmente começou a cair com força.

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