Mundo de ficçãoIniciar sessãoO dia está corrido desde cedo. A mesa fica cheia de papéis, e-mails e prazos apertados. Revisamos contratos, organizamos processos e atendemos pedidos urgentes de advogados. Mal paro para respirar. Minha cabeça está cheia de informações e meus ombros doem de tanto ficar inclinada na tela do computador. Ajusto os óculos várias vezes, tentando me concentrar.
Perto das quatro da tarde, o assistente me pede para levar uns papéis importantes para o senhor Bitencourt junto com o café dele. Pego a pasta, o copo de café e sigo pelo corredor sem pensar muito. Abro a porta da sala dele sem bater, achando que estava sozinho. Entro e paro no meio do caminho. Michel Bitencourt está em reunião com quatro homens. Todos viram para mim. Um deles, um homem de uns cinquenta anos, terno cinza e cabelo penteado para trás, me olha de cima a baixo com um sorriso malicioso. Seus olhos param no meu corpo de forma descarada. Sinto um frio na barriga. Velho infeliz. Michel Bitencourt percebe na hora. Seu rosto fica duro. Ele me olha com raiva e fala alto: — O que você pensa que está fazendo, Ravena? Saia agora! Não te ensinaram a bater antes de entrar em reunião? Fora! A voz dele sai grossa e cortante. Fico sem graça, com o rosto queimando de vergonha. Minhas mãos tremem. Deixo o café e a pasta na mesa mais próxima e baixo a cabeça. — Desculpe, senhor. Peço licença. Saio da sala o mais rápido possível e fecho a porta. Meu peito aperta. Corro pelo corredor até o banheiro feminino. Entro em uma cabine, tranco a porta e começo a chorar. As lágrimas descem quentes. Ninguém nunca tinha me tratado daquele jeito na frente de outras pessoas. Sinto-me humilhada. Alguns minutos depois, ouço a porta do banheiro abrir. É Julia, uma das estagiárias. — Ravena? É você aí? O que houve? Fico em silêncio por um momento, limpando o rosto com as mãos. — Nada. Só um dia ruim. — Tem certeza? Você saiu correndo da sala do Bitencourt. Ele te deu bronca? — Não é nada, amiga... está tudo bem! Ela espera mais um pouco e acaba saindo. Lavo o rosto com água fria, seco com papel toalha e respiro fundo várias vezes. Meus olhos ainda estão vermelhos. Ajusto os óculos, arrumo o cabelo e volto para minha mesa. Sento e continuo o trabalho em silêncio, sem falar com ninguém. A cabeça lateja. O resto da tarde passa devagar. Cada minuto parece uma hora. Termino as tarefas que me pediram, mas meu ânimo ficou lá atrás, na sala de reunião. Quando o relógio marca sete e meia, começo a arrumar minhas coisas. A maioria das pessoas já foi embora. Saio do prédio cansada, com os pés doendo e o coração pesado. Caminho até o ponto de ônibus. A rua está escura e o vento sopra frio. Fico esperando. Mais um dia vencido, mas me sinto pela forma que o chefe me tratou. Não sou acostumada com grosseria. De repente, a Mercedes-Benz Classe S preta para na minha frente. A janela desce e Michel Bitencourt me olha. — Ravena, entre. Eu te levo para casa. — Não precisa, senhor. Obrigada. O ônibus está vindo. — Está tarde. Entre no carro. — Sério, não precisa. Vou esperar o ônibus. Ele insiste, com a voz firme: — Você já teve um dia ruim. Não precisa voltar de ônibus agora. Vamos, entre. — Não, senhor Bitencourt. Prefiro ir sozinha. Ele fica me olhando por mais alguns segundos, depois balança a cabeça. Se eu aceitar prova que aceito ser tratada desse, mas nem a pau, não sou capacho de ninguém. — Como quiser. Ele fecha a janela e vai embora. Fico sozinha no ponto novamente. O ônibus não chega. Espero dez minutos, vinte, trinta. Olho o celular várias vezes. São quase dez horas da noite quando o ônibus finalmente aparece. Entro exausta, sento no fundo e encosto a cabeça no vidro. O caminho de duas horas parece eterno. Chego em casa depois das onze. Abro a porta devagar. Tiro os sapatos, vou direto para o quarto e me jogo na cama ainda vestida. As lágrimas voltam. Choro baixinho, abraçando o travesseiro. Hoje foi muito difícil. Ninguém nunca me tratou daquela forma, com tanta grosseria na frente de outras pessoas. O olhar malicioso daquele homem, a voz dura do senhor Bitencourt… tudo ficou martelando na minha cabeça. Mas era de se esperar no mundo corporativo, penso. Aqui não é faculdade. É um grande escritório, cheio de pressão e de gente exigente. Preciso aguentar. Não posso desistir agora. Fico olhando o teto por um tempo, cansada, triste e com o corpo todo dolorido. Amanhã preciso acordar cedo de novo. Fecho os olhos e tento dormir, mas o sono demora a chegar.






