Mundo de ficçãoIniciar sessãoA empresa está em festa. Conseguimos bater a meta trimestral e fechamos uma grande parceria com o Al-Khalifa Investment Group, do Catar. O salão principal virou um espaço de comemoração. Tem música alta, luzes coloridas, mesas cheias de comidas variadas: salgadinhos, carnes nobres, sushi, doces e bebidas. Todo mundo ri e conversa.
Estou me divertindo com meus colegas. Danço com Julia e Letícia, canto junto quando toca uma música que conheço e provo várias comidas. Lucas traz um copo de refrigerante para mim e brinca: — Ravena, você merece. Trabalhou demais essa semana. Rio e continuo na festa. Depois de um tempo, sinto calor e decido sair um pouco. Passo por uma porta nos fundos da enorme sala e chego à cobertura. O ar da noite é fresco. Fico perto da grade, observando a cidade de Goiânia iluminada. Os prédios brilham, os carros passam lá embaixo como pequenas luzes. Respiro fundo, aliviada por um momento de silêncio. Ouço passos atrás de mim. É Lucas. — Ei, te encontrei. Posso ficar aqui um pouco? — pergunta ele, parando ao meu lado. — Claro. Lucas apoia os braços na grade e olha a vista também. — Impressionante, né? Quando comecei aqui achava que nunca ia me acostumar com o ritmo. Mas depois de seis meses a gente aprende a sobreviver. E você? Como está se sentindo depois de quase um mês? — Cansada, mas feliz por ter conseguido ficar. O trabalho é pesado, mas estou aprendendo bastante. Ele vira o corpo para mim e sorri. — Você aprende rápido. Vi como revisou aqueles contratos na semana passada. O doutor Paulo até elogiou. E fora do trabalho, o que você faz? Tem algum hobby ou só faculdade e escritório? — Quase só faculdade e escritório. Quando sobra tempo, estudo para a OAB. Quero passar logo. E você? — Eu gosto de academia e de viajar quando dá. Ano passado fui para o Nordeste. Preciso te contar uma história engraçada que aconteceu lá… Lucas começa a contar sobre a viagem, faz piadas e ri. Conversamos sobre séries que assistimos, sobre a faculdade e sobre como é difícil equilibrar tudo. Ele é gentil e fala de forma leve. Rio de algumas coisas que ele diz. O papo flui fácil. — Você tem algum hobby, Havena? — Bem que gostaria. — Sorrio — Mas infelizmente não me sobra tempo pra nada... mas olha, gosto de ler, adoro ler bons livros. — Nunca parei pra ler um livro assim, só os da faculdade. — respondeu Lucas. — Ultimamente só leio esses também. De repente, ouvimos a porta da cobertura abrir com força. Michel Bitencourt aparece. Ele nos vê juntos e para por um segundo. Seu maxilar fica tenso. Os olhos estreitam ao olhar para Lucas e depois para mim. A expressão dele fica dura. — Senhorita Ravena. — diz ele com voz seca. — Volte para o salão. Preciso que você organize a mesa principal de bebidas. Verifique se todas as garrafas estão cheias, arrume os copos e certifique que os garçons estejam servindo corretamente. Agora. Fico surpresa. Mas isso não é o meu serviço, apenas eu vou trabalhar nisso? — Mas senhor… a festa… — É uma ordem. Faça isso. E rápido. Ignorante, Bruto, parece um cavalo. Lucas tenta falar algo, mas Michel lança um olhar cortante para ele. O rapaz apenas acena com a cabeça e volta para dentro. Fico parada por um instante, sentindo um aperto no peito. — Sim, senhor Bitencourt. Volto para o salão. Todos estão rindo, dançando e comendo. A música continua alta. Eu sou a única que agora está trabalhando. Arrumo as garrafas, conto os copos, chamo os garçons e organizo tudo conforme ele mandou. Julia passa por mim e pergunta se quero dançar, mas balanço a cabeça e continuo a tarefa. Sinto um nó na garganta. Parece perseguição. Todos se divertem, menos eu. Ele me tirou do momento de descanso e me colocou para trabalhar enquanto o resto da empresa comemora. Termino o serviço com as mãos tremendo um pouco. Ajusto meus óculos e tento não demonstrar nada. A festa continua animada ao meu redor, mas meu humor caiu. Fico perto da mesa de bebidas, observando meus colegas se divertirem. Michel Bitencourt aparece no salão pouco depois, conversa com alguns diretores, mas seu olhar passa por mim várias vezes. Não sei o que pensar. A noite segue, mas para mim o gosto da comemoração já não é mais o mesmo. Ficou uma porcaria.






