Carona

Estou na aula de Direito Empresarial, sentada na terceira fileira. O professor explica os detalhes sobre responsabilidade dos sócios em sociedades limitadas. Anoto tudo no caderno, ajustando os óculos de vez em quando. A sala está cheia, como sempre às quartas-feiras.

De repente, o professor para de falar e sorri.

— Hoje temos um convidado especial. Um advogado de grande destaque no país e também reitor da nossa universidade. Por favor, recebam o doutor Michel Bitencourt.

A porta se abre e ele entra. Michel Bitencourt caminha até a frente da sala com passo firme, terno escuro bem cortado e expressão séria. Cumprimenta o professor com um aperto de mão e depois se vira para nós.

— Boa noite a todos.

Algumas meninas da turma sussurram atrás de mim.

— Meu Deus, ele é lindo. — diz uma.

— E gostoso também. Olha esse porte — completa outra, rindo baixo.

Fico quieta, sentindo o rosto esquentar. Larissa, minha amiga da turma de Arquitetura, passa no corredor em frente à porta da sala. Ela me vê, olha para o senhor Bitencourt e sorri com a mão na boca, fazendo sinal de “ai meu Deus”. Depois segue andando.

Michel começa a falar. Seus olhos passam pela turma e param em mim por alguns segundos. Troco um olhar direto com ele. Fico sem graça na hora, baixo o olhar para o caderno e ajusto os óculos. Quando levanto os olhos novamente, ele ainda me observa por um instante antes de continuar.

— A advocacia exige dedicação total. Não basta estudar na teoria. É preciso viver na prática. Aqui na Bitencourt Advogados recebemos muitos casos complexos todos os dias. Fusões, contratos milionários, disputas tributárias. Quem trabalha conosco aprende rápido ou não dura.

Ele anda de um lado para o outro na frente da sala.

— Estou abrindo vagas este ano para os melhores alunos que se formarem e passarem na OAB. Vamos selecionar os que tiverem melhor desempenho na prova. Quem entrar vai começar como estagiário sênior e terá caminho para crescer dentro do escritório. Sei que muitos de vocês já estão estudando para a OAB mesmo antes de formar. Isso é ótimo. Disciplina é o que diferencia um bom profissional.

MUITOS de vocês é uma palavra forte, a maioria já disse que quer descansar após formar.

Olho para ele atentamente. Eu mesma venho estudando para a OAB há meses, nas madrugadas e nos fins de semana. Ele parece falar direto para mim em alguns momentos. Os olhares se cruzam novamente. Meu coração acelera.

A aula continua por mais quarenta minutos. Michel responde perguntas, dá exemplos reais de casos que o escritório ganhou e explica como funciona o dia a dia de um grande escritório. No final, todos aplaudem. Ele troca algumas palavras com o professor e sai da sala.

Termina a aula. Recolho minhas coisas e saio da faculdade. Caminho até o ponto de ônibus e fico esperando. O sol ainda está forte.

De repente, um carro preto para bem na minha frente. É uma Mercedes-Benz Classe S preta, brilhando sob as luzes. A janela do motorista desce e Michel Bitencourt me olha de dentro do carro.

— Senhorita Ravena. Quer uma carona?

— Não precisa, senhor Bitencourt. Obrigada. O ônibus deve chegar logo.

Ele não aceita a recusa.

— Entre. Está tarde e o ônibus vai demorar. Eu te deixo em casa.

— Sério, não é necessário. Moro longe.

— Ravena, entre no carro. Não vou deixar você esperando aqui esse horário.

Ele insiste mais duas vezes, olhando direto nos meus olhos. Acabo cedendo. Abro a porta e entro. O interior do carro é impressionante: bancos de couro bege, cheiro de novo, painel digital, tela grande no centro e silêncio total. Sinto o ar-condicionado gelado tocar minha pele. O calor de Goiânia não brinca em serviço.

Michel liga o carro e começa a dirigir. Passamos por avenidas largas, shoppings, prédios altos e depois entramos em ruas menores.

— Onde você mora? — pergunta ele.

— Num bairro mais simples, no norte da cidade.

Ele assente e continua dirigindo. O carro é tão confortável que quase esqueço onde estou.

— Me conte sobre você, Ravena. Como é sua vida fora do escritório e da faculdade?

Respiro fundo.

— É bem corrida. Acordo cedo, venho para a faculdade, depois vou para o escritório. Em casa estudo para a OAB. Ajudo minha mãe com algumas coisas. Não sobra muito tempo para mais nada.

— E seu pai?

— Ele faleceu quando eu era criança. Somos só eu e minha mãe.

Se passou tanto tanto tempo, mas ainda sinto falta do meu pai.

Michel fica em silêncio por um momento.

— Entendo. E você gosta do que está fazendo no escritório?

— Gosto. É cansativo, mas estou aprendendo muito. Só preciso melhorar na pontualidade.

Ele sorri de leve.

— Sim, precisa. Mas você tem potencial. Vi isso na entrevista e vejo agora.

Conversamos mais um pouco sobre a faculdade e sobre a OAB. Ele me dá algumas dicas sobre a prova. Passamos por vários bairros até chegar ao meu. As ruas ficam mais simples, casas menores, movimento diferente.

Ele para o carro em frente ao meu prédio.

— Chegamos.

— Obrigada pela carona, senhor Bitencourt.

— De nada. Descansa. Amanhã tem expediente cedo. — Observa com intensidade os meus olhos, suas mãos passam pelo meu rosto, sinto o calor pela pele, fecho os olhos devagar, sua mão abre a porta. Suspiro e sorrio para ele.

Saio do carro com as pernas um pouco fracas. Ele espera eu entrar no portão antes de arrancar. Subo para casa pensando em tudo o que aconteceu hoje: a aula, os olhares, o carro luxuoso e a conversa. Meu coração ainda está acelerado.

Ele deve ser assim com todas as mulheres que acham atraentes.

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